|
Era uma vez, uma
menina linda que, em época de hipermodernidade, participou da sociedade
do espetáculo, e foi consumida por ela. Em seu papel de figurante,
maquiada e penteada como mulher, desfilou aturdida pelas passarelas, com
a impressão de ser essa sua escolha. Transformou-se, como num passe de
mágica, de menina em modelo. E viajou por países estranhos, ela que,
provavelmente, nem conhecia seu próprio país.
Os defensores das
crianças e adolescentes olharam com olhos benevolentes essas idas e
vindas, o chegar e partir de uma menina cada vez mais magra e, talvez,
mais triste, que ansiava pelo sucesso, pela fama, sinônimos distorcidos
de uma vida melhor para seus familiares. Ofuscados quem sabe, pelo
glamour, pelo falso brilho da sociedade do espetáculo, esqueceram-se de
que era seu dever proteger essa menina e centenas de outras crianças e
adolescentes que trilham o mesmo caminho, sob o olhar complacente da
sociedade. Essas crianças que são “descobertas” cada vez mais tenras,
pela mídia e pela moda, que estão nos filmes e nas novelas, têm um
estatuto diferente e mais permissível para elas? Por que as sanções da
lei só atingem as camadas menos favorecidas, onde duas mãos a mais
podem, quem sabe, fazer a diferença na sobrevivência familiar?
Por quê? Ainda não
consegui resposta para esta pergunta. No meu ponto de vista, tanto para
a modelo como para a babá, ou colhedora de tomates, ou abacaxi, ou café,
o salário advindo de trabalho infantil é expressamente proibido pela
legislação. Não importa o que a criança faça: é proibido. É o que diz a
lei. Pois é: se é proibido para a criança ou adolescente cuidar de sua
casa enquanto pais e irmãos trabalham, por que é permitido e liberado o
trabalho infantil para modelos e atores mirins? Nos dois casos, de
acordo com a lei, a criança está ”perdendo a infância”. Criança foi
feita para brincar, dizem. Responsabilidade, valores, ficam para
depois. Depois do quê?!
Era uma vez uma garota
sozinha, amedrontada, carente, que precisou de olhos que a enxergassem,
que vissem o abismo e a solidão que a consumiam, e não os teve. Era uma
vez uma menina bonita que, pela cegueira da lei tão distraída, carregou
sua fome, seu medo, seus soluços, para a eternidade.
Até quando a sociedade
usará dois pesos para a mesma medida?
|