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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 21:49:56                                               

 
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CRôNICAS

Era uma vez

   

Neiva Pavesi

publicado em 11/10/2007

Era uma vez, uma menina linda que, em época de hipermodernidade, participou da sociedade do espetáculo, e foi consumida por ela. Em seu  papel de figurante, maquiada e penteada como mulher, desfilou aturdida pelas passarelas, com a impressão de ser essa sua escolha. Transformou-se, como num passe de mágica, de menina em modelo. E viajou por países estranhos, ela que, provavelmente, nem conhecia seu próprio país.

Os defensores das crianças e adolescentes olharam com olhos benevolentes essas idas e vindas, o chegar e partir de uma menina cada vez mais magra e, talvez, mais triste, que ansiava pelo sucesso, pela fama, sinônimos distorcidos de uma vida melhor para seus familiares. Ofuscados quem sabe, pelo glamour, pelo falso brilho da sociedade do espetáculo, esqueceram-se de que era seu dever proteger essa menina e centenas de outras crianças e adolescentes que trilham o mesmo caminho, sob o olhar complacente da sociedade. Essas crianças que são “descobertas” cada vez mais tenras, pela mídia e pela moda, que estão nos filmes e nas novelas, têm um estatuto diferente e mais permissível para elas? Por que as sanções da lei só atingem as camadas menos favorecidas, onde duas mãos a mais podem, quem sabe, fazer a diferença na sobrevivência familiar?      

Por quê? Ainda não consegui resposta para esta pergunta. No meu ponto de vista, tanto para a modelo como para a babá, ou colhedora de tomates, ou abacaxi, ou café, o salário advindo de trabalho infantil é expressamente proibido pela legislação. Não importa o que a criança faça: é proibido. É o que diz a lei. Pois é: se é proibido para a criança ou adolescente cuidar de sua casa enquanto pais e irmãos trabalham, por que é permitido e liberado o trabalho infantil para modelos e atores mirins? Nos dois casos, de acordo com a lei, a criança está ”perdendo a  infância”. Criança foi feita para brincar, dizem. Responsabilidade,  valores, ficam para depois. Depois do quê?!

Era uma vez uma garota sozinha, amedrontada, carente, que precisou de olhos que a enxergassem, que vissem o abismo e a solidão que a consumiam, e não os teve. Era uma vez uma menina bonita que, pela cegueira da lei tão distraída, carregou sua fome, seu medo, seus soluços, para a  eternidade.

Até quando a sociedade usará dois pesos para a mesma medida? 

 

 

 

 
  

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 Neiva Pavesi é escritora, educadora, promotora de leitura, divulgadora cultural, escritora, coordenadora do Grupo Cantigas Praianas e de Concertos de Leitura

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