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Faz tempo que ando ouvindo um acorde de melodia que
inunda a rua onde moro. Sempre, no horário após o meio dia, esse
som invade minhas sensações. Olho pela janela e o vejo. Tão
melancólico e quieto, tem as mãos agarradas a uma flauta e, de
seu sopro, também vem uma sensação de querer viver... Vai se
esvaindo, exaurindo e, de repente, o flautista aquieta-se.
Essas percepções são reais, não são devaneios de quem,
por ora, põe-se a imaginar um lugar e uma pessoa, falo de um ser
humano, ali sentado no fio da calçada, na rua em que moro. Os
pingos da chuva caem devagarzinho e, com eles, também trazem a
melancolia do flautista. Como posso falar de melancolia, se
daquela flauta, meio mágica, o som da vida emana ou será da
tristeza?
Ainda não consegui compreender ou sentir o que ele com
sua flauta querem falar, mas penso que das notas vem uma
liberdade misturada ao desejo, a um quase pedido de socorro:
ajudem-me a compreender o meu viver!
E nesse embalo tão triste, ponho-me a pensar nas
pessoas iguais a mim, que caminham pelas ruas, quietas,
sorridentes, guardando segredos e emoções que despertam o meu
pensar nessa mágica meio louca, que é o viver humano.
Certamente, o flautista anda triste, seu semblante me
lembra a inquietação, sua flauta grita notas tão distantes que
não alcançam minha modesta compreensão. Decidi que não quero
mais procurar as explicações do som do flautista, ando a procura
da sensibilidade, que me aproxima de sua infinita arte. Sim,
arte que emana das notas de sua flauta e que me convidam a
dialogar com suas lúcidas, ou não lúcidas sensações e prazeres
dessa vida de que também faço parte.
Pessoas, amigos/as, desconhecidos/as todos/as andam,
correm, vão e voltam por ali e por cá. Será que todos/as temos
um pouco desse flautista inquieto, que desinquieta minhas
sensações? Olho-o e me pergunto insistente: será que ele é
feliz? E eu sei o que é ser feliz? Sua tristeza será a tristeza
que sinto? Que maluquice essas palavras, essas sensações, mas
são essas as ideias que sua flauta me desperta.
Quando fecho meus olhos, abro meu coração e o som da
flauta, todo dia, chega aos meus sentidos, compreendendo aos
poucos que muitas coisas são inexplicáveis, são meio mágicas.
São a vida que se apresenta na figura de um flautista, meio
moribundo, que gente como eu, também, se angustia, se
entristece, e vive. E, do sopro de seu viver, sua flauta grita a
liberdade, a tristeza, o amor, sei lá, acho que diz que viver é
assim meio mágico, meio trágico, quem irá entender.
É preciso às vezes desarmar nossas vestes de proteções,
que nos fazem surdos ao som de flautas meio inquietas, que andam
com flautistas pelos fios das calçadas de nossas ruas. É
necessário, por momentos, descobrirmos o quanto somos humanos, e
ser humano, na vida de hoje, ao som de uma flauta, faz com que
eu perceba que é preciso soltar as sensações para que, mesmo sem
tocar a flauta do flautista triste, que ouço de minha janela,
ele me ajude a descobrir os sons que sei tocar nas jornadas
andarilhas do meu percurso, mesmo sem flauta, mas com a
esperança de soprar notas de liberdade e sensações de um viver
feliz!
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