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Muitos são orgulhosos por causa daquilo que sabem; face ao que não
sabem, são arrogantes.
Goethe
O orgulho é listado como um dos sete pecados capitais. Junto a ele estão
a gula, a luxúria, a avareza, a preguiça, a ira e a inveja. Todos
pecados a serem evitados, pois, segundo a maioria das religiões só,
atraem infelicidades para aqueles que os cultivam.
No entanto, neste texto irei tratar apenas do orgulho.
Portanto, a primeira questão a ser colocada seria: sabemos o que é o
orgulho?
Será que é não dar o braço a torcer mesmo sabendo que se está errado,
acreditando-se sempre o dono da verdade? Ou será que é andar pela vida
com a cabeça voltada para o alto, mirando as estrelas, sem nunca ter um
olhar para aqueles que andam na superfície?
Não sei. Tudo isso parece cheirar um pouco a megalomania. Sem contar que
quem costuma agir assim deve sofrer de outro mal: a arrogância. Vejam
que aqui já se juntam outros dois “pecados”, ambos passíveis de levar
qualquer crente a queimar, por toda eternidade, no fogo do inferno. O
que suscita outra questão: onde estiver o orgulho estarão também os
sentimentos de grandeza e de arrogância?
Entretanto, sabe-se que para toda pergunta geralmente existem, no
mínimo, duas respostas possíveis. Assim, para muitos o orgulho é um
sentimento a ser cultivado, pois ele seria importante na construção da
nossa auto-estima. Sem ele seríamos facilmente reduzidos a bebes
chorões. O orgulho, para quem assim pensa, corresponderia ao impulso
necessário para mantermos as cabeças erguidas, seguindo em frente,
principalmente diante dos obstáculos sempre presentes em nossas vidas.
Realmente, visto por essa ótica, o orgulho torna-se uma questão de
sobrevivência.
Porém, como já foi mencionado, nada pode ser posto em termos
definitivos. Logo, podemos e devemos considerar que existam diferentes
tipos de orgulho. Em outros termos, assim como existe o orgulho
relacionado com a satisfação de sermos capazes de superar as
dificuldades, há, também, o orgulho de nos sentirmos acima de todos,
donos absolutos da verdade. Nesse segundo caso, o orgulho assume tons
diversos e pode passar a se chamar de soberba.
A soberba, segundo a própria definição do dicionário, é “o orgulho
excessivo”. É aquela emoção que enche a mente de imagens grandiloqüentes,
nos fazendo pensar que tudo gira em torno do nosso umbigo. O soberbo
acaba tornando-se uma pessoa difícil, para não dizer insuportável, de se
conviver. Geralmente, ele acaba sozinho, contando vantagem e esperando
que o mundo o reconheça como alguém superior.
É possível, portanto, perceber que a interpretação do que é o orgulho é
uma questão complexa. Defini-lo ou identificá-lo não é algo fácil de se
fazer, pois até mesmo o mais humilde dos humildes pode ser um orgulhoso.
Afinal, o que o impede de sentir orgulho de sua humildade?
Será que isso é o que se costuma denominar de encruzilhada? Para sairmos
dela, podemos lançar para o debate outras questões, como por exemplo:
será que devemos riscar a palavra orgulho do nosso vocabulário, pois
definitivamente é um pecado senti-lo? Ou será que devemos tentar
encontrar um meio de mantê-lo sob controle para não nos deixarmos iludir
por ele?
Tenham certeza, que existem muitos que concordariam imediatamente com a
primeira sugestão, acreditando-se mais perto da santidade se assim
agirem. Muitas correntes religiosas, inclusive, estimulam em seus
seguidores um certo sentimento de culpa para o caso de eles sentirem-se
orgulhosos por qualquer motivo. Para essas pessoas, o orgulho é
realmente um pecado capital e deve ser eliminado a qualquer custo, pois
corre-se o risco de ficar fora do paraíso.
No entanto, apesar do risco que corro de vir a “queimar no fogo do
inferno”, me atrevo a discordar desses e a me inclinar mais para a
segunda hipótese. Como disse, anteriormente, existem diferentes tipos de
orgulho e nem todos nos tornarão pecadores confessos.
Sou daquelas que acredita que as conquistas devem ser motivo de orgulho.
Vejo nessa atitude uma maneira de valorizar a nossa capacidade de
crescimento e aperfeiçoamento pessoais. Quem hoje não se orgulha do que
conquistou, não terá interesse em conquistar mais nada, o que poderia
levar a um sentimento de total inércia perante a vida. E aqui o verbo
conquistar não é utilizado no sentido de submeter, mas de ter a força
necessária na superação das dificuldades.
Todavia, quero deixar claro que isso não significa que devamos nos
sentir superiores a quem quer que seja; pelo contrário, uma conquista
arduamente atingida serve para nos apercebermos do quanto ainda temos a
aprender. O sentimento de orgulho não deve ser um passaporte para a
arrogância, pois a vida é, muitas vezes, dura em seus ensinamentos, e um
deles é que se hoje estamos por cima, amanhã poderemos estar por baixo.
Deve-se, então, compreender que sentir orgulho por se ter conquistado
algo aparentemente difícil é perfeitamente normal e até esperado. Mas
fazer disso uma prática constante em nossas vidas, passando a nos
considerar superiores, isso sim é perigoso. Nesse caso, o orgulho sadio
embasado na crença da nossa própria capacidade, torna-se o orgulho
doentio (soberba) que leva à arrogância. Tudo é então uma questão de
equilíbrio. Não se pode, em matéria de sentimentos ou emoções, querer-se
ser um radical. A sabedoria está na escolha de caminhos que nos ajudem a
entender nossa fragilidade como seres humanos, mas, simultaneamente, nos
fortaleçam diante dos problemas que, muitas vezes, a vida irá colocar no
nosso caminho. O inferno e o paraíso não são ditados pelos sentimentos.
Esses não têm culpa; a responsabilidade, na verdade, é nossa pelo que
deixamos que eles façam conosco. Portanto, vejo na citação de Leonardo
da Vinci, a melhor opção: Que o teu
orgulho e objetivo consistam em pôr no teu trabalho algo que se
assemelhe a um milagre.
Será,
então, realizando milagres possíveis que evitaremos o inferno e
aumentaremos as nossas chances de ingressar no paraíso.
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