Aconteceu em pleno recesso de
julho (uma das poucas benesses do magistério). A patroa começou a
enjoar. Deu pra sacar de início. Não da pra pensar outra coisa quando
sua mulher sai correndo em direção ao banheiro, se ajoelha diante do
vaso e põe boca afora fluidos estranhos pela manhã. Agora foi. Já temia
de longa data. Uma microscópica criatura, assemelhada a um girino
contendo toda a minha carga genética deve ter chegado a seu alvo. Mais
uma vez a natureza triunfou, graças ao instinto libidinoso que não tem
outro motivo real senão a manutenção da espécie.
Como disse acima, notícia já
era esperada, pois relações sexuais sem nenhum tipo de prevenção não
pode resultar em outra situação. É batata. Até quando não está tudo bem,
por vezes, a natureza parece achar seu caminho. Lembro o caso de um
amigo haver confidenciado que seu médico lhe dera nota 4 no quesito
fertilidade e seu filho está bonito e brincalhão. Por sorte puxou à mãe,
haja visto por vezes a figura mal avaliada recebe às vezes apelidos do
tipo Bob Esponja.
Após a confirmação primeira
sensação é de pânico. Até porque os amigos com filhos pequenos fazem um
jogo de terror. O Bob Esponja mesmo não se fez de rogado: “Aproveitem
agora, descansem, vão ao cinema porque depois que o bebê nascer isso
acaba.” Um vizinho adotou uma menina linda ainda bebê. Também mandou seu
desabafo: “Cara eu vou falar a verdade, criança pequena é difícil, nem
namorar você tem tempo”. Depois de ouvir essa francamente pensei em
boicotar os planos maternais da patroa. Outro depoimento desanimador foi
o do meu amigo Sidão: “Cara eu vou falar a verdade, passar uma noite em
claro com 20 anos é uma coisa, mas depois dos 35 é difícil”.
As mamães, amigas da patroa,
também não colaboram: “ai amiga é difícil. Não sei o que seria sem a
ajuda da minha mãe”. Ou então: “Ela dorme às 11, acorda às duas e ás
cinco e cada mamada dura mais ou menos uma hora”. Outra que é bem
marcante: “Ai depois dos filhos é só preocupação, você nunca fica
tranquila e depois que crescem é ainda pior”. E os gastos: “você gasta
tanto com escolinha, tanto com fralda, e mais sei lá o quê e veja bem é
um dinheiro que a gente podia aproveitar e viajar, mas por causa dela
não dá”. Confesso que nessa última ocasião quase tomei o partido do
bebê, mas coisas desse tipo deixam o casal aspirante bem animado.
Mas apesar de todas as
supostas dificuldades, parece que ter filhos ainda é imposto aos casais
como uma obrigação, um dever. Curiosamente não se trata apenas das
cobranças da família, tipo “quero um sobrinho” ou coisa do gênero. É
como se todo mundo que tivesse filhos dissesse: “vocês dois têm que ter
um filho”! Claro que de forma mais velada: “Há quanto tempo vocês estão
juntos”? “Cinco anos”. “Nossa, então já ta na hora de arranjar um
filhinho”! Também no estilo tradicional: “e aí quando é que vai chegar o
bebezinho”? Fico a me perguntar se estas cobranças não passam de
estratégia da natureza na sua empreitada instintiva para manter a
espécie que, aliás, já é bastante numerosa, ou então um modo de as
pessoas se afirmarem perante as outras pela procriação. Provavelmente
deve ser as duas coisas juntas.
Interessante notar que algumas
pessoas parecem ter uma espécie necessidade de se reproduzir. Outro dia
um amigo conterrâneo que atende pelo não muito original apelido de Negão
perguntou: “que você acha de no ano que vem eu ter um filho”? “Tá
maluco? Você ganha quinhentão, abandonou a faculdade e ainda quer ter
filho”? “Que você tem contra ter filho”? Perguntou já se exaltando.
“Nada [respondi] e também não tenho nada contra não ter, aliás, o que é
muito mais racional no seu caso”. “Eu não vou abrir não da minha
felicidade porque ganho pouco.” “Cara [retruquei] eu não preciso ter
filhos pra ser feliz [agora espero ser mais feliz tendo um]”. Assim
morreu a conversa.
Ainda não sei se as pessoas
têm filhos por necessidades instintivas e ou para se afirmar perante aos
outros. Minha única certeza é que vem mais um por ai.