|
Pela
janela passava quase todas as coisas do mundo. Passava todas as
estrelas, não as constelações. A lua passava inteira e parava
bem em frente, como se fosse a hora da meditação. Passavam
rapidamente as pessoas atuais, com pouco tempo para contar das
suas vidas, ou para conversar. O tempo passado também trazia
pessoas antigas, essas ficavam bem mais, mas só com as
lembranças.
Ficava muito tempo olhando as pessoas passadas. Sentia faltava
de algumas e muita, mas muita falta mesmo, de poucas. Essas ele
ficava olhando por muito tempo, esperando que elas dissessem o
que fazem da vida, mas elas só apareciam na lembrança. Nas
janelas delas ele não passava, nem em lembrança. Depois de um
tempo ele não saiu mais de frente da janela.
Pela janela ia passando o mundo, a vida, o tempo... Só a solidão
é que ficava. A Alegria já tinha ido embora, as flores, a chuva,
o sol, a lua, o vento e todas as palavras bonitas que ele tinha
guardado pra usar um dia. A solidão aponderou-se, ali ao lado,
se escondia atrás da porta quando as pessoas atuais passavam
rapidamente, mas logo voltava.
Todos os sonhos se escondiam atrás da porta, e só saiam de lá
para fugir da solidão. Aí sentava ali do lado, com as pessoas
atuais, mas logo voltava para os seus lugares. Era bem mais
fácil guardar os sonhos em alguma gaveta e trancá-los, para não
perdê-los. Não queria. Talvez quisesse que eles passassem pro
outro lado da janela e passassem juntamente com os sonhos mais
antigos, que vinham juntamente com as pessoas antigas.
Pela janela os carros corriam ainda mais rápidos, os casos, os
atos e os ateus sumiam logo que a janela se abria. Ficou sozinho
na janela, encarando Deus e a filosofia. Tomava cuidado com a
inocência. Não sabia de seus inimigos, mas tinha certeza que
eles também passavam pela janela, de braços dados com os amigos
mais antigos e até com os mais novos, que vão ficando mais
antigos e nas lembranças cada dia mais.
Ficava observando o mundo passar o dia todo. Parado. Tomava
conta do poeta também, embora visse todas as poesias passando,
rapidamente, sem que ninguém as percebesse. Via cartas, e-mail´s,
textos, bilhetes e todas as suas declarações correndo, sem
destino. As pessoas novas e antigas haviam deixado escapar. Ele
já não queria aquilo, era do tempo.
Pela janela via as pedras do caminho, ás vezes, alguma o
acertava. Ele não se dava o trabalho de abaixar. A solidão nunca
era atingida. Ele queria ser como ela. Ser todas as horas
sozinho, pensando ser uma ilha perdida entre janelas. Pela
janela perdia seus planos e seus sonhos, um de cada vez, também
fugia pela janela. Alguns ele tentou segurar, em vão.
Olhava as noites e os dias. Já não se desesperava, se ajeitava e
se conformava ao pensar que a vida era só aquilo. Quando as
pessoas voltavam nada mais encontravam. Ele e a solidão já eram
a mesma coisa.
|