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Outro dia eu estava limpando a
mesa ali perto da quadra quando ouvi o doutor Mario falar assim:
“nós, os profissionais liberais...” tão bonito, eu achei, “nós,
os profissionais liberais”. Aliás, a dona Lídia mulher do doutor
Mario comentou não sei com quem “não sei por que é que aqui todo
o mundo chama o Mario de doutor”, mas é uma questão de respeito,
o homem é Presidente do Clube, é quem paga o meu salário então
ele é meu patrão. E patrão é doutor, pelo que eu sei. Queria
pertencer a uma categoria destas, dizer “nós, os comins...”. mas
ninguém nem sabe o que é comin, os mais esclarecidos chamam de
“ajudante de garçon”, ainda assim chamam de garçon. Imagina que
alguém vai se preocupar em saber se o cara que está atendendo à
mesa é garçon ou é comin. E já vai falando, garçon”. Dá vontade
de fazer que não é com a gente, sei lá, fazer que não ouviu.
Depois vem o seu Ruço chamar a atenção, “você não ouviu o doutor
fulano chamando, tá surdo”? E tem a caixinha que também depois
não entra, né, aí chega em casa duro, já viu. A Luzia tá em casa
já há dois meses, pô, se eu chegar sem nenhum acha ruim, briga
com os moleques, começa aquela confusão e eu até penso em voltar
aqui pro Clube. Melhor trabalhando do que em casa, aqui eu ganho
e não gasto. Em casa é só prejuízo. Mas é difícil. Outro dia
mesmo, o doutor Zezinho chegou domingo de noitinha e queria
pastel, eu fui pedir e a Rute gritou lá da Cozinha que não tem,
acabou, isso lá é hora de pedir pastel? Vou falar isso pro seu
Zezinho, logo o seu Zezinho? Me ofereci pra ir buscar lá fora e
ele não quis, falou que não precisava e cochichou com a moça que
estava com ele que ia se queixar ao Presidente. Aí lá se foi a
minha caixinha, só por causa da Rute, que é melhor a gente nem
ir falar nada pra evitar dor-de-cabeça, porque j começa ela com
“o Senhor isso, o Senhor aquilo, eu era uma perdida e agora não
sou mais, o Senhor fez a obra” e eu fico aqui pensando que eu
sabia que o pai Dele era carpinteiro mas não sabia que também
entendia de obra, e Ele aliás que me perdoe por tanta besteira
que eu penso. Queria ser como o meu primo que fez curso de
auxiliar de cozinha e acabou mudando pra Bahia, pra trabalhar
num hotelzão lá, que até pra fora do Brasil estão querendo que
ele vá, de tão bom auxiliar de cozinha que ele é. E eu fico aqui
neste frio e ele na Bahia, deve ser um hotelzão cheio de
quartos, e as caixinhas devem ser só em dólar, e aquela
mulherada toda, come as baianas durante a semana e no final de
semana leva as americanas pra passear na praia e depois come
também, esse meu primo é fogo, j pensou até pra fora do Brasil
querem que ele vá. Se bobear já deve estar falando até inglês,
ele é fogo esse meu primo. Você vê, hoje o cara tá aqui, amanhã
conhece alguém que vai com a cara dele e aí tá feito, não
precisa estudar nem nada. Aliás essa história desse meu primo só
comprova minha antiga tese de que na verdade se o sujeito for
esforçado e correr atrás não precisa nem estudar. Por isso que
eu trato bem os caras aqui do Clube, teve um sócio outro dia que
tomou umas a mais e me mandou calar a boca seu merda, vou dizer
o quê? Cala a boca o senhor? Nada, cara, é tudo na base do “pois
não, senhor, desculpe, senhor, vou verificar, senhor”. No outro
dia ele veio e botou dez reais no meu bolso, entendeu? E ficou
quietinho.É assim que funciona, foi como se me pedisse
desculpas, só que comigo é assim, pisou na bola tem que pagar.
Eu dei foi risada. O negócio é ser bem relacionado, fazer os
caras te admirarem e quando você virar as costas, ouvir eles
dizendo “este é um bom menino, esse rapaz é muito educado”. Aí
não falta emprego, meu velho, nem quando o seu Ruço vem aqui
encher a cara domingo à noite e fica falando que a gente deve
muito pra ele, que se não fosse por ele isso aqui já teria
fechado, que tem muita coisa que ele sabe mas não vai falar,
essas coisas que ele fala quando bebe. Outro dia mesmo eu ouvi o
doutor Pedro dizer que estava preocupado com a eleição no
Congresso. Vê se pode, o que é que a eleição no Congresso lá em
Brasília tem a ver com a vida do cara, ele não é economista?
Economista que eu saiba cuida de economia e não de política,
certo? Pois é. E o doutor Junior, aquele dentista bem novinho
que entrou de sócio outro dia, fazia aquela cara de entendido
que não tá entendendo é nada. Aliás, andei pensando e concluí
que as três palavras que os ricos –pelo menos os ricos aqui do
Clube- nunca vão dizer são: ônibus, dor-de-dente e carteira de
trabalho. Aliás, acho que eles não sabem nem direito qual é a
cor de capa de carteira de trabalho, porque são todos
profissionais liberais, como já disse o doutor Mario. A
secretária quando vai levar a carteira pra ele assinar já leva
aberta na página da assinatura e ele nem bota a mão, meu amigo.
Não sabe nem o nome de quem tá contratando. Por exemplo, o meu
primo. Ele é muito bom profissional e tudo o mais, fez curso e
tudo, mas você acha que o dono do Hotel dele lá na Bahia sabe de
onde é que ele veio, quem é ele? Só vai saber que ele existe
quando ele faltar no serviço por causa de uma dor-de-dente
qualquer e na hora de dar baixa na carteira ele volta a ter na
sua frente só a página da carteira pra assinar, nem sabe quem tá
mandando embora, já vai ter esquecido. Por isso que eu falo, tem
que tratar bem os caras. A dona Rute louca, fica lá só pensando
na Igreja dela e deixa acabar o pastel, amanhã alguém vai falar
mal dela pro seu Ruço. Aqui tem que ficar esperto, senão já viu.
A Luzia acha ruim, às vezes o pessoal chega na horinha em que o
Clube está quase fechando e começa a jogar baralho, quando você
vai procurar, cadê? Foi embora cozinheiro, garçon, porteiro, só
fico eu cuidando deles. Até o seu Ruço, que já tá mais pra lá do
que pra cá, dá no pé e eu fico sozinho aqui cuidando deles. Você
acredita que numa noite dessas o doutor Rubens se mijou todo,
tive que ajudar a limpar o velho, pelo amor de Deus, é cada uma
que acontece nesse Clube. Isso já quase cinco da manhã, e às
nove eu já estava aqui de novo, meu velho. A Luzia reclama, diz
que eu não ganho nada com isso, ao invés de eu ir pra casa
dormir fico pajeando estes caras e não ganho nem hora extra. Não
ligo não, deixa ela falar, o que importa é que eles saibam que
estou aí, entendeu? Pau pra toda obra. E depois ela fica lá com
os meninos só vendo novela, pô, deita e dorme. Eu não. Tenho
certeza de que se amanhã eu precisar de alguma coisa é só chegar
no doutor Mario que ele me facilita. o que eu precisar. Quando
ele tá jogando, por exemplo, e a bolinha sai da quadra, quem
sempre tá passando por perto e devolve a bolinha? Eu mesmo, meu
amigo. Fico só de olho. Amanhã quando mudar o Presidente eu fico
bem com os dois, e o doutor Mario ainda vai dizer pro novo
Presidente pra me ajudar no que eu precisar. É assim que
funciona, meu amigo. Eu sei que é assim que funciona. |