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Imaginem a situação: em um cruzamento, um carro,
simplesmente ignorando a sinalização, atravessa a preferencial. Nesse
momento um outro veículo está passando por esse mesmo cruzamento.
Ouvem-se ruídos de freios e por pouco, muito pouco mesmo, não ocorre um
terrível e trágico acidente.
O que há de inusitado ou novo nessa cena poderão estar-se
perguntando? Afinal, é o tipo de situação que, infelizmente, acontece
rotineiramente nas grandes cidades. Para responder a essa questão é
necessário prolongar um pouco mais essa história. Então, continuem
imaginando.
O motorista “quase vítima” desce do veículo e, com o
rosto afogueado e tenso, avança em direção ao motorista imprudente. O
descontrole entre os dois é total. Palavras e gestos violentos são
trocados. Não há limites para os xingamentos. A ofensa de um é replicada
pelo o outro e se a polícia não chega a tempo, provavelmente veríamos
esses dois cidadãos envolvidos em uma briga violenta e de conseqüências
imprevisíveis.
O que foi isso? O que gerou tamanha violência entre
pessoas que nunca antes se haviam visto? Será que se odiavam sem mesmo
se conhecer? E não vamos cair na armadilha de acreditar que esse tipo de
situação só ocorre com pessoas desequilibradas, futuros hóspedes de
clinicas psiquiátricas. Não. Com certeza, não.
Na verdade, é assim que, em maior ou menor grau, ficamos
quando estamos dominados pela raiva. Simplesmente, perdemos o controle
das nossas ações e palavras. Em outros termos, nos tornamos um trem
desgovernado. Talvez seja por isso que os desenhos animados, quando
querem mostrar um dos personagens tomado por essa emoção, o fazem
soltando fumaça pelos olhos e ouvidos. Definitivamente, essa é a
representação caricatural de uma panela de pressão pronta para explodir.
Para quem vê é muito engraçado, mas quem já foi assaltado por tal emoção
sabe que não tem graça alguma; ao contrário, tudo assume proporções
gigantescas e, na maioria das vezes, acaba se voltando contra o próprio
raivoso.
É claro que alguns dirão que a raiva é uma forma saudável
de defesa; existe, inclusive, uma expressão utilizada para indicar essa
emoção: “a raiva dos justos”. Em uma passagem do Novo Testamento, Jesus
Cristo, dominado por esse tipo de raiva, não expulsou os vendilhões do
templo? E, francamente, se Ele pode, por que nós não? Diante de uma
situação injusta esse sentimento pode, por exemplo, nos fazer reagir
ajudando-nos a vencer a apatia e a inércia. Afinal, se aceitamos tudo de
maneira passiva, sem nunca questionarmos, podemos estar abrindo mão de
nossos direitos, tornando-nos, quem sabe, marionetes em mãos
inescrupulosas.
No entanto, o que preocupa não é essa raiva esporádica,
nascida de um sentimento de injustiça. O que preocupa (ou deveria
preocupar) é a raiva latente, sempre presente, pronta para eclodir por
qualquer motivo. É essa raiva que nos faz agir de forma irracional. É
ela que nos faz enxergar só um lado da questão (de qualquer questão, por
mais boba que seja), tornando-nos intransigentes e irascíveis. Essa é a
raiva que devemos temer nos outros e, principalmente, em nós mesmos.
A raiva que aqui chamo de latente está presente no menor
de nossos atos, mesmo quando acreditamos estar livre dela. É quando
sentimos, por exemplo, que à menor contrariedade, o mundo, antes belo e
maravilhoso, passa a ser um lugar terrível, uma verdadeira ameaça. Esse
tipo de raiva muitas vezes não se manifesta de forma violenta, como no
caso do “quase acidente” de trânsito; ela, na verdade, é invisível para
todos, inclusive para aquele que a sente. É por isso que, a essa hora,
estou quase conseguindo ouvir os seus pensamentos: “Que conversa é essa,
não existe pessoa mais calma e tranqüila do que eu!”. Será verdade?
Será?
E não sendo, o que devemos fazer quando percebemos que, a
cada dia, nos tornamos mais e mais raivosos?
Lamento trazê-lo até aqui para apenas responder: não sei,
não tenho as respostas, e muito menos soluções; afinal, nem psiquiatra
sou. Sem contar que esse não é o tipo de coisa que possa ser respondido
como se estivéssemos resolvendo um cálculo matemático. Aqui, nem sempre
2 + 2 é igual a 4.
No entanto, apenas como forma de ajudar (não de resolver)
podemos começar nos perguntando: “quando comecei a sentir que o mundo
inteiro estava contra mim?”, “o que dispara esse tipo de reação? Coisas
sérias ou nem tanto?”, “do que tenho raiva?”, “a minha raiva está
voltada contra mim ou contra os outros?”.
Pense. Só pense sobre isso. O simples pensar já nos
obriga a parar o que estamos fazendo e nos possibilita uma reflexão
sobre a forma como estamos dirigindo as nossas vidas. Afinal, se você
anda sentindo muita raiva e, muitas vezes, nem sabe porque ou do quê, é
porque alguma coisa não deve estar muito certa na sua vida. Será que
isso não valeria uma pausa na sua rotina? Pense, também, que um dos
órgãos do corpo mais sensíveis a explosões de raiva é o coração; será
que ele não merece ser melhor tratado?
Sei que está parecendo coisa que encontramos naqueles
livros de auto-ajuda, mas, sinceramente, não é. São questões que todos
devemos nos colocar, nem que seja de vez em quando. Estou propondo
apenas um exercício, não encare como uma obrigação, ou pior, uma ofensa.
Não fique com raiva deste texto e, por favor, não fique com raiva de
mim.
Reconheço que, nos dias de hoje, é muito difícil não
sentir raiva. Tem tanta coisa horrível acontecendo, tanta coisa que não
conseguimos resolver: injustiças de todos os tipos e para todos os
gostos, impunidade, roubalheira e muito mais que não vale a pena
mencionar. A cada dia nos sentimos mais impotentes e solitários. Não
sabemos a quem recorrer, duvidamos de nós mesmos, encaramos a tudo e a
todos como uma ameaça em potencial.
E quando menos esperamos, esbarramos em alguém que
resolve nos contrariar e que tem (só para piorar as coisas!) a coragem
de nos dizer que estamos errados. É o fim! Não aceitamos, não queremos
sequer ouvir, nos rebelamos e, quando nos damos, conta já estamos
sentindo o coração bater forte, a cabeça latejar, uma quantidade imensa
de sangue fluir para o rosto, tornando-o vermelho, inchado e
irreconhecível até para os mais íntimos, e o cérebro enviando sinais
cada vez mais rápidos para todo o corpo com uma mensagem bem clara:
ataque, não deixe pedra sobre pedra!
E, assim como os motoristas do início dessa história, lá
vamos nós nos envolver em alguma briga ou discussão, muitas vezes sem a
menor importância. É um circulo vicioso, difícil de escapar. Mas, como
se dizia antigamente, “cada um sabe onde lhe aperta o sapato”; em outras
palavras, se está tudo bem para você, ótimo, continue assim! A mim, só
me resta lhe desejar um bom dia, esperando que você termine de ler este
texto sem sentir muita raiva. Afinal, acredite, o mundo é belo e a vida,
apesar dos problemas, merece ser vivida, de preferência sem sentir MUITA
RAIVA. |