|
Esta história aconteceu numa quarta feira e com um frio de rachar. Não sei
ao certo o que registrava o termômetro, mas tenho a impressão de que a
temperatura estava negativa, tanto que ao sair de casa tive que tirar a
crosta de gelo do pára-brisa com água morna. Considerando tal clima acho
aceitável e até muito recomendável usar algo para proteger a cabeça então
entrou em cena, ressurgido dos ácaros, do fundo do guarda roupa, o velho
gorro que meus antigos alunos chamavam de chapéu de bandido. Não costumo
usar tocas gorros ou bonés, mas, considerando que a maioria dos meus cabelos
abandonaram seu posto, aderi á proteção substituta. Cheguei à escola, como
sempre, trabalhei a primeira, segunda e terceira aulas e a pretexto de
conversar com um colega fui ver a brincadeira dos alunos. Não foi uma sábia
decisão.
Como um raio surgido no céu azul (pra lembrar um clássico), antes de chegar
á bendita quadra de esportes, uma figurinha que prefiro omitir o nome
(diga-se de passagem estrangeirado) fruto genuíno da geração expectadora de
"Barrados no Baile", surrupiou o supracitado gorro. Na hora pensei,
brincadeira de criança, daqui a pouco ele vem devolver, mas não foi e
passou-se a quinta, sexta, sábado e o domingo e na segunda feira resolvi
tomar uma providência. Uma das medidas escolares que fazemos uso é uma pasta
de advertências em que cada aluno tem uma ficha disciplinar, registrei na
ficha do rapazinho “surrupiou objeto do professor” e fiz com que o mesmo
assinasse para dar fé. Daí que o elemento veio relatar o sucedido com o meu
azafamado gorrinho: “(...) pois é professor depois que eu pequei, eu dei pro
Fulano, [o gorro], ai o Fulano deu pro Ringo Star, [que pro vezes eu
confundo com Elton John] aí ele deu pro Beltrano e o Beltrano deu pra ‘não
se sabe quem’ que colocou numa carteira e depois o Fulano II pegou a toca e
enfiou onde não bate sol. (a bem dizer o rapaz foi mais direto nesta
expressão)”. Os outros por sua vez, disseram que tentaram achar a toca, mas
não conseguiram, que só depois o Beltrano falou que era do professor e blá,
blá e blá. Resultado na instância escolar: todo mundo na sala do diretor, o
surrupiador de gorros suspenso da sala de aulas por cinco dias, os outros
gaiatos com uma punição menor, não me lembro qual, e o incidente ficou
registrado em ata. Infelizmente, o assunto também traz outras implicações.
O professor que aqui escreve, maculado na sua dignidade, assegurou registrar
um boletim de ocorrência. “Não professor, a gente já vai se ferrar aqui na
escola, não me faz uma coisa dessas (...).” Agora fico pensando cá com meus
botões, um policial, também funcionário público, no exercício de seu
trabalho não vai ter o seu quepe surrupiado, por qual motivo um professor
tem de aturar uma situação dessas? A coisa mexe com os brios da pessoa. Se o
suposto leitor já teve um gorro surrupiado por um aluno deve saber do que
estou falando. O diretor da escola disse que tenho um prazo de seis meses
para registrar o tal boletim e estou cada vez mais convencido de que é o
melhor a ser feito. Não digo nem pelo valor material ínfimo, mas pelo gesto
em si. Isso, sem considerar a casquinha tirada pelos meus outros alunos já
inteirados do acontecido: “Nossa professor você ta com uma cara de triste
hoje, será por causa de um toca”?
Entre meus colegas vejo diferentes opiniões: “Você vai mesmo registrar o
boletim? Registre, registre sim senão acaba prevalecendo o tal de ‘não da
nada’, não pode ter dó não, ninguém tem dó da gente”. Já outros acabam não
verbalizando sua opinião contrária, mas a coisa fica no ar “(...) exagero,
não é pra tanto”. Decisão difícil. Sorte a temperatura não ter caído mais
que na fatídica quarta feira agora que já não conto com a proteção do meu
antigo gorrinho. Ao relembrar esta história não posso deixar de fazer menção
à campanha publicitária que foi veiculada na Televisão aberta e que se
encerra com a seguinte chamada: Seja um professor e trabalhe com as pessoas
mais interessantes do mundo.
|