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Outro dia, estava pensando na vida.
Pensava sobre o que fiz, sobre o que deixei de fazer e sobre o que ainda
gostaria de realizar. Como quem não quer nada, cenas esquecidas voltaram
à minha lembrança, trazendo recordações e me obrigando a realizar aquele
balanço há tanto tempo adiado. Tudo e todos conspiraram para isso,
forçando-me a contabilizar o que experimentei e vivenciei durante o ano
que passou.
Essa época, Natal e final de ano, tem
dessas coisas. Durante o ano o corre-corre é tão grande que mal temos
tempo de nos olhar com calma e refletir sobre a vida. Entretanto, quando
o ano começa a querer dar o seu último suspiro, lá estamos nós,
dispostos a realizar análises e auto-avaliações.
É claro que nem todos são como eu. Existem
aqueles que são mais reflexivos, realizando, por exemplo, balancetes
mensais e, assim, verificando periodicamente como anda seu saldo
emocional. Porém, quem, como eu, só se sente obrigado a refletir
seriamente sobre a sua vida no final de ano tem uma dificuldade ou
dilema adicional: o que fazer para mudar o que já passou?
E quando se tenta responder a essa
questão, geralmente surgem lembranças de inúmeras situações já vividas,
todas conjugadas no que a Língua Portuguesa costuma chamar de futuro do
pretérito: deveria ter feito uma dieta, mas não fiz; deveria ter
começado a me exercitar, mas não comecei; ou, ainda, deveria ter levado
a vida com mais calma, mas não levei. Deveria, deveria, deveria...
Palavrinha terrível! Ela nos condena a saber o que poderíamos ter feito
e não fizemos. É todo um espectro de possibilidades e potencialidades
não concretizadas.
No entanto, como já disse, final de ano
tem dessas coisas. Questionamo-nos e penitenciamo-nos, pois acreditamos
que pouco mudamos. E talvez aí resida todo o problema. Esse tipo de
reflexão só faz aumentar sentimentos de frustração e impotência, diante
do que já passou. Tentamos até nos convencer de que fizemos tudo o que
estava ao nosso alcance, mas sabemos (consciente ou inconscientemente)
que, em algum momento, deixamos de escolher o que era melhor para as
nossas vidas.
Porém, apesar de todas essas considerações
autopunitivas, no fundo sabemos que mergulhar na autocomiseração não
trará de volta o que deixamos escapar. Em outras palavras: balanços de
final ano podem ser muito bons, mas não para nos martirizarmos. O melhor
mesmo é buscar soluções possíveis para todos aqueles “deverias”, sem nos
deixar assombrar por culpas que, muitas vezes, sequer existem. Afinal,
quando ouvimos ou dizemos que nada realizamos, estamos nos condenando a
uma vida sem futuro, pois estaremos vivendo no passado.
Assim, realizar balanços mentais ou
confeccionar listas com títulos do tipo “o que fiz, o que não fiz, o que
quero fazer”, são práticas até salutares, desde que não sirvam para
acrescentar mais sofrimento às nossas vidas.
E, francamente, se no ano que
passou não conseguimos cumprir todas as nossas promessas, isso não é e
não será o fim do mundo, pois um novo ano está-se aproximando, carregado
de promessas de renovação que não podem ser ignoradas ou menosprezadas.
Por essa razão é que concordo com a seguinte citação de Mario Quintana:
“Já repararam como é bom dizer ‘o ano passado’? É como quem já tivesse
atravessado um rio, deixando tudo na outra margem... Tudo sim, tudo
mesmo!”. Portanto, vamo-nos dar de presente um bom final de ano, sem
arrependimentos, e nos desejar um maravilhoso ano novo, no qual os
“deverias” do ano anterior não se tornem uma ameaça, mas objetivos que
tentaremos atingir com boa vontade e, quem sabe, com um substancial
toque de humor. |