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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 21:14:11                                               

 
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CRôNICAS

Sem arrependimentos

   

Margarete Hülsendeger

publicado em 04/12/2007

Outro dia, estava pensando na vida. Pensava sobre o que fiz, sobre o que deixei de fazer e sobre o que ainda gostaria de realizar. Como quem não quer nada, cenas esquecidas voltaram à minha lembrança, trazendo recordações e me obrigando a realizar aquele balanço há tanto tempo adiado. Tudo e todos conspiraram para isso, forçando-me a contabilizar o que experimentei e vivenciei durante o ano que passou.

Essa época, Natal e final de ano, tem dessas coisas. Durante o ano o corre-corre é tão grande que mal temos tempo de nos olhar com calma e refletir sobre a vida. Entretanto, quando o ano começa a querer dar o seu último suspiro, lá estamos nós, dispostos a realizar análises e auto-avaliações.

É claro que nem todos são como eu. Existem aqueles que são mais reflexivos, realizando, por exemplo, balancetes mensais e, assim, verificando periodicamente como anda seu saldo emocional. Porém, quem, como eu, só se sente obrigado a refletir seriamente sobre a sua vida no final de ano tem uma dificuldade ou dilema adicional: o que fazer para mudar o que já passou?

E quando se tenta responder a essa questão, geralmente surgem lembranças de inúmeras situações já vividas, todas conjugadas no que a Língua Portuguesa costuma chamar de futuro do pretérito: deveria ter feito uma dieta, mas não fiz; deveria ter começado a me exercitar, mas não comecei; ou, ainda, deveria ter levado a vida com mais calma, mas não levei. Deveria, deveria, deveria... Palavrinha terrível! Ela nos condena a saber o que poderíamos ter feito e não fizemos. É todo um espectro de possibilidades e potencialidades não concretizadas.

No entanto, como já disse, final de ano tem dessas coisas. Questionamo-nos e penitenciamo-nos, pois acreditamos que pouco mudamos. E talvez aí resida todo o problema. Esse tipo de reflexão só faz aumentar sentimentos de frustração e impotência, diante do que já passou. Tentamos até nos convencer de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas sabemos (consciente ou inconscientemente) que, em algum momento, deixamos de escolher o que era melhor para as nossas vidas.

Porém, apesar de todas essas considerações autopunitivas, no fundo sabemos que mergulhar na autocomiseração não trará de volta o que deixamos escapar. Em outras palavras: balanços de final ano podem ser muito bons, mas não para nos martirizarmos. O melhor mesmo é buscar soluções possíveis para todos aqueles “deverias”, sem nos deixar assombrar por culpas que, muitas vezes, sequer existem. Afinal, quando ouvimos ou dizemos que nada realizamos, estamos nos condenando a uma vida sem futuro, pois estaremos vivendo no passado.

Assim, realizar balanços mentais ou confeccionar listas com títulos do tipo “o que fiz, o que não fiz, o que quero fazer”, são práticas até salutares, desde que não sirvam para acrescentar mais sofrimento às nossas vidas. E, francamente, se no ano que passou não conseguimos cumprir todas as nossas promessas, isso não é e não será o fim do mundo, pois um novo ano está-se aproximando, carregado de promessas de renovação que não podem ser ignoradas ou menosprezadas. Por essa razão é que concordo com a seguinte citação de Mario Quintana: “Já repararam como é bom dizer ‘o ano passado’? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem... Tudo sim, tudo mesmo!”. Portanto, vamo-nos dar de presente um bom final de ano, sem arrependimentos, e nos desejar um maravilhoso ano novo, no qual os “deverias” do ano anterior não se tornem uma ameaça, mas objetivos que tentaremos atingir com boa vontade e, quem sabe, com um substancial toque de humor.

 

 

 
  

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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