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30 de agosto de 2009.
Já me arrisquei em momento outros a
refletir sobre a vida, mas assumo a minha pequenez diante de tema tão
grandioso. Não sou expert no assunto, mas sou ousado a ponto de
deixar escorrer “na superfície estrelada de letras” o que ora penso.
Digo e repito que a vida não se faz somente no presente, no momento, no
aqui e no agora. O sentido da vida também está na história, no já vivido
e, sobretudo, no invisível, no não vivido, enfim, no que está por vir.
É bem verdade que a nossa existência é
como um campo florido regado pelas águas dos sonhos, da utopia. Viver a
vida objetivamente é necessário, mas ela precisa ter um pé no
desconhecido, no que não é palpável para ter sentido pleno. Grosso modo,
viver é sonhar! Não um sonho noturno (erótico, talvez), carregado de
pesadelos e alucinações como uma pintura surrealista, produto do
inconsciente. Não posso enveredar por esse caminho, pois não sou
psicanalista: Freud que não me ouça!
Insisto em dizer que viver é também viver
utopicamente. O sonho é ingrediente necessário à existência humana. Não
falo de sonho somente como mera fantasia: eles são também os nossos
desígnios, as nossas vontades que alimentam o nosso estar no mundo. O
sonho é, portanto, um desejo invisível.
É o desejo de estar naquele evento amanhã
ao lado daquela pessoa que nos faz comprar uma roupa diferente, um
calçado também diferente e usar aquele perfume; é aquela viagem
planejada há anos que nos faz perder a noite de sono na véspera; é o
sonho de ser pai ou de ser mãe que nos obriga a nos enlaçarmos com outra
pessoa e dividirmos com ela o nosso afeto, ou pelo menos o tesão (para
os desprovidos de sentimentos mais nobres!); é o desejo de uma vida
melhor que nos coage a fazer inúmeros concursos ou ter de trabalhar
dobrado; é o desejo de fazer a faxina e ver tudo perfumado e brilhando
para receber aquela visita (que muitas vezes nem aparece) que leva a
dona de casa a fazer tudo felicíssima e cantarolando; é o sonho de ver o
edifício construído com todos os detalhes esboçados que o arquiteto
parece colocar a alma na planta; é o sonho de “devolver” a vida ao
paciente que move o trabalho do médico em uma UTI; é o sonho de ver uma
criança educada que conduz o trabalho do educador.
Pois bem, a utopia é inerente ao ser
humano. Foi ela quem conduziu Mahatma Gandhi a lutar pela independência
da Índia. O mundo não seria o mesmo se Santos Dummont não tivesse
sonhado. Foi o sonho que levou Nelson Mandela a lutar contra o
apartheid na África do Sul, do mesmo modo que foi o sonho de gerir
uma grande nação que tornou Barack Obama o primeiro presidente negro da
história dos Estado Unidos da América. O cristianismo não seria o mesmo,
se Martin Lutero não tivesse sonhado. Joana D’arc sonhou, por isso foi
morta na fogueira! Sonhar às vezes custa a vida! Antônio Conselheiro,
Zumbi dos Palmares,Tiradentes, Frei Caneca, (é infinda a lista,
perdoem-me não poder citar todos...) tornaram-se notáveis porque
sonharam e não foram compreendidos (ou melhor, não quiseram
compreendê-los!). Mas sonhar é inevitável. Sonhe mesmo, sonhe sempre,
sonhe muito...
Ter uma visão idealista das coisas é,
talvez, torná-las mais pitorescas. Às vezes a realidade é tão amarga. E
ter uma visão romântica parece amenizar esse amargor. Pelo menos no
campo das ideias é possível viver harmonicamente, já que a nossa cabeça
é a nossa liberdade! Não é pecado sonhar. Ecoam aos meus ouvidos as
vozes de Policarpo Quaresma: idealizador de uma pátria perfeita. Foi ele
quem sonhou fazer do tupi-guarani a língua oficial do Brasil. Ninguém
foi tão visionário! Isso rendeu-lhe um “triste fim”. Entendo ser esse
personagem de Lima Barreto o exemplo-mor de que não é proibido sonhar.
Enquanto houver sonho, há vida...
A Literatura parece ser esse terreno
fértil em que o sonho cai como a mão na luva. Miguel de Cervantes que o
diga. A figura do cavaleiro Dom Quixote ao lado do seu fiel escudeiro
Sancho Pança é prova legítima de que sonhar é permitido, embora confunda
moinhos com gigantes! E por aí vai... Por isso insisto: a vida não é só
carpe diem. Viver é também um ato de fé. É crer no invisível. Não
dá para viver sem o abstrato, sem o irreal, o que me leva a afirmar que
“o homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de
sonhar”, desculpe Charles Chaplin!
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