Num
texto anterior relatei o triste episódio envolvendo o furto, ou melhor,
dizendo de acordo com o jargão policial subtração, de um mero gorrinho
de lã em meu ambiente de trabalho por parte de um aluno. Depois de
relutar resolvi registrar um Boletim de Ocorrência. Afinal há que se
haver um pouco de decência nessa profissão! Mas não sabia que esta
decisão me faria protagonizar uma pequena epopéia.
Acompanhado de dois colegas de trabalho, que queriam se certificar que
eu de fato faria o boletim, me dirigi para uma delegacia onde fui
interceptado antes de sequer adentrar no estabelecimento: “Ô cidadão, o
que o senhor precisa?” “Registrar um Boletim de Ocorrência.” Mal
terminei de responder, me fazendo de seguro, o rapaz emenda: “Pois é
cidadão, agora não é mais aqui, é lá no centro, é que o público quis
assim.” “Mas esse público é mesmo de amargar”. Respondi meio que fazendo
um gracejo, mas decepcionado por dentro e rumei para o centro, desta
vez, desacompanhado de meus amigos que amizade também tem limite.
Ao
estacionar próximo ao local indicado, do tal entreposto da dita
delegacia, logo veio um “flanelinha” meio banguela, dizendo e
sinalizando que o carro estaria bem cuidado “Pode ir tranquilo!” Acenei
com um ok e fui procurar o lugar, que foi custoso de encontrar. Abordei
um senhor que, por coincidência, também estava indo requisitar os
serviços policiais, o que facilitou deveras o encontro do
estabelecimento. Logo que chegamos peguei uma senha, 56 de repente pode
ser um número de sorte, e aguardei minha vez logo depois do rapaz que
abordei na rua, o número 55. Este, um senhor de meia idade, enquanto
esperávamos, perguntou o motivo de eu estar ali, contei-lhe a história
por alto, sem nenhuma vontade de conversar, e ele replicou: “É um crime
o que estão fazendo com os professores, essa legislação é horrível!”
Depois deste ensaio de conversa o número 55 foi chamado o que me
alegrou. Saquei um livro, pra me fazer de intelectual e logo chegou
minha vez.
“Que
está acontecendo?” Perguntou um funcionário que, vou chamar aqui de
rapaz, me atendeu. Este, muito simpático, até demais pro meu gosto, nem
esperou resposta perguntando novamente: “Que livro é esse que você tava
lendo deixa eu ver, pegou o livro leu o título, hum ... é bom?” “Médio”,
respondi com cara de nojo meio que dando fim á conversa literária. “Eu
quero dar queixa de um furto” “Hum que objeto lhe furtaram”? Perguntou o
rapaz olhando pra tela. “Um gorro.” Respondi. “Gorro”? “É, uma toca”,
respondi novamente tentando não parecer muito ridículo. “Como é seu
nome?” Respondo, ele digita algo ao teclado e pronto: toda a minha vida
está diante do rapaz na tela do computador. “Hum, filho do seu fulano, e
da dona fulana”? “Correto”, respondi seca e friamente. “Era um gorro de
lã?” “De lã”, repeti com segurança confirmando com a cabeça.
Seguido
a isso relatei o fatídico episódio e o rapaz formulou o boletim que, por
sua vez, trocando em miúdos dizia o seguinte: “Fulano de tal, residente
na rua tal, funcionário público teve subtraído, sorrateiramente e por
trás, um gorro por seu aluno Beltrano de tal residente na rua tal e
filho do senhor Beltrano pai de tal no período da manhã”. Para finalizar
comentei com o rapaz que se tratava de uma situação ridícula e coisas
gênero. “Não, o senhor está coberto de razão”. Saí da delegacia com uma
dor de cabeça indizível, entrei no carro e já veio o flanelinha
sorrindo, com a sua boca ausente de dentes, perguntando logo se havia
sobrado uma moedinha. Respondi educadamente que logo voltaria a
estacionar na mesma vaga e então pagaria em dobro por seus serviços.
Já em
casa tomei uma boleta, dois analgésicos e me enterrei na cama. No dia
seguinte, no trabalho, os amigos perguntaram: “E aí fez o boletim”?
Mostrei o documento e na leitura um deles percebeu a infelicidade da
formulação `sorrateiramente e por trás´ e acabei virando a chacota do
dia. Nem me aborreci por isso, com o salário que se ganha na profissão
docente é melhor mesmo rir um pouco.