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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 03 de setembro de 2010 20:05:31                                               

 
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CRôNICAS - Educação
Sorrateiramente e por trás    

José Alexandre da Silva1

publicado em 03/09/2010

 

Num texto anterior relatei o triste episódio envolvendo o furto, ou melhor, dizendo de acordo com o jargão policial subtração, de um mero gorrinho de lã em meu ambiente de trabalho por parte de um aluno. Depois de relutar resolvi registrar um Boletim de Ocorrência. Afinal há que se haver um pouco de decência nessa profissão! Mas não sabia que esta decisão me faria protagonizar uma pequena epopéia.

Acompanhado de dois colegas de trabalho, que queriam se certificar que eu de fato faria o boletim, me dirigi para uma delegacia onde fui interceptado antes de sequer adentrar no estabelecimento: “Ô cidadão, o que o senhor precisa?” “Registrar um Boletim de Ocorrência.” Mal terminei de responder, me fazendo de seguro, o rapaz emenda: “Pois é cidadão, agora não é mais aqui, é lá no centro, é que o público quis assim.” “Mas esse público é mesmo de amargar”. Respondi meio que fazendo um gracejo, mas decepcionado por dentro e rumei para o centro, desta vez, desacompanhado de meus amigos que amizade também tem limite.

Ao estacionar próximo ao local indicado, do tal entreposto da dita delegacia, logo veio um “flanelinha” meio banguela, dizendo e sinalizando que o carro estaria bem cuidado “Pode ir tranquilo!” Acenei com um ok e fui procurar o lugar, que foi custoso de encontrar. Abordei um senhor que, por coincidência, também estava indo requisitar os serviços policiais, o que facilitou deveras o encontro do estabelecimento. Logo que chegamos peguei uma senha, 56 de repente pode ser um número de sorte, e aguardei minha vez logo depois do rapaz que abordei na rua, o número 55. Este, um senhor de meia idade, enquanto esperávamos, perguntou o motivo de eu estar ali, contei-lhe a história por alto, sem nenhuma vontade de conversar, e ele replicou: “É um crime o que estão fazendo com os professores, essa legislação é horrível!” Depois deste ensaio de conversa o número 55 foi chamado o que me alegrou. Saquei um livro, pra me fazer de intelectual e logo chegou minha vez.

“Que está acontecendo?” Perguntou um funcionário que, vou chamar aqui de rapaz, me atendeu. Este, muito simpático, até demais pro meu gosto, nem esperou resposta perguntando novamente: “Que livro é esse que você tava lendo deixa eu ver, pegou o livro leu o título, hum ... é bom?” “Médio”, respondi com cara de nojo meio que dando fim á conversa literária. “Eu quero dar queixa de um furto” “Hum que objeto lhe furtaram”? Perguntou o rapaz olhando pra tela. “Um gorro.” Respondi. “Gorro”? “É, uma toca”, respondi novamente tentando não parecer muito ridículo. “Como é seu nome?” Respondo, ele digita algo ao teclado e pronto: toda a minha vida está diante do rapaz na tela do computador. “Hum, filho do seu fulano, e da dona fulana”? “Correto”, respondi seca e friamente. “Era um gorro de lã?” “De lã”, repeti com segurança confirmando com a cabeça.

Seguido a isso relatei o fatídico episódio e o rapaz formulou o boletim que, por sua vez, trocando em miúdos dizia o seguinte: “Fulano de tal, residente na rua tal, funcionário público teve subtraído, sorrateiramente e por trás, um gorro por seu aluno Beltrano de tal residente na rua tal e filho do senhor Beltrano pai de tal no período da manhã”. Para finalizar comentei com o rapaz que se tratava de uma situação ridícula e coisas gênero. “Não, o senhor está coberto de razão”.  Saí da delegacia com uma dor de cabeça indizível, entrei no carro e já veio o flanelinha sorrindo, com a sua boca ausente de dentes, perguntando logo se havia sobrado uma moedinha. Respondi educadamente que logo voltaria a estacionar na mesma vaga e então pagaria em dobro por seus serviços.

Já em casa tomei uma boleta, dois analgésicos e me enterrei na cama. No dia seguinte, no trabalho, os amigos perguntaram: “E aí fez o boletim”? Mostrei o documento e na leitura um deles percebeu a infelicidade da formulação `sorrateiramente e por trás´ e acabei virando a chacota do dia. Nem me aborreci por isso, com o salário que se ganha na profissão docente é melhor mesmo rir um pouco.



 

1 Professor de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED) e membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI).

alexandre875@hotmail.com

 

 
  

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José Alexandre da Silva é Professor de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED) e membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI).

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