ISSN 1678-8419  

Última atualização feita em:20-06-2005 17:56

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Myrthes Aguiar & Natan Marques, Talento e Virtuose Num Belo Pocket-Show
Por Silas Corrêa Leite

Sexta-feira magra de março, em dia de saudade da Elis Regina que comemoraria aniversário por essas magnas datas pertinentes, águas de março fazendo verão, São Paulo com um congestionamento monstro, e lá pinta a augusta Sampa em sexta super novidadeira: Myrthes Aguiar vai, cantando, fazer uma releitura interpretativa da saudosa pimentinha Elis Regina, acompanhada do virtuoso Natan Marques mais dois músicos em bateria e contrabaixo. Belo programa.

Saudade de Elis à flor da pele, lá me fui ao Centro Cultural Vergueiro, Sala Adoniran Barbosa - já pensou? - sondar a revisitança musical, palco e emoção. Natan Marques era parceiro de primeiríssimo e imediatista ensaio pessoal das primeiras versões de Elis em repertórios novos da então neo-MPB em áureos tempos (de Belchior pra cima), ensaiou, produziu, dirigiu e compôs pra Elis. Nada melhor do que o fiel escudeiro-guardião do acervo artístico-vocal e repertório de Elis do que ele pra relembrá-la com açúcar e com afeto. A memória em boas mãos, portanto. Já o conhecia de andanças notívagas, de estágios noiteadeiros, de nome e de estilo. Parece-me até,

que é ele quem sola Romaria quando Elis desata o nó da garganta e solta-se alumbrada na magna canção quase hino do Renato Teixeira, outro magnífico ledor de páginas musicais com tez chão.

Para interpretar Elis Regina, Myrthes Aguiar que eu não conhecia ainda.

Digo ainda porque já deveria. Myrtes Aguiar tem o tom certo, o timbre fino, e

aceitou não imitar Elis, muito menos parafraseá-la interpretativamente falando (ou, cantando, vá lá) mas fazer a sua releitura-homenagem toda própria e peculiar da Elis. Acertou em cheio. Foi ela mesma, Myrthes, e graciosamente nos remeteu à doce memória de Elis Regina, mas, fincada no seu talento todo próprio, ali relendo um mito, reverenciando Elis com maestria e

competência, mas dando de si impoluta a cantata inteira. Ótima cantora, excelente intérprete. O repertório, então, feito sobre medida - é de Elis mas caiu com uma pelica na voz de Myrthes. Quem sabe o que faz, já nasce luz.

Do músico Natan Marques é covardia falar, é chover no molhado em tins e tons e tais. Caetanear, por que não? Natan é de uma virtuose sem igual. Mas assim de uma virtuose singela, cândida, naturalíssima que, claro, combinou bem a parceria com a ternura interpretativa de Myrthes. Violão, voz, elenco musical e um pocket-show fino, de alto astral, tocando a alma da gente. A

sexta feira brava que pretendia com chuva, enchente e quetais, em águas de verão nessa desvairada paulicéia, rendeu uma apresentação significante, memorável. Adorei. Encantei-me? A saudade mata a gente, diz um clássico antigo de nossa riquíssima música.

Agora é esperar o próximo cedê, o próximo show, a próxima apresentação de Myrthes, Natan e acompanhantes. Elis Regina iria aprovar. Nós, fanáticos pela Elis Regina, emocionados também nos sentimos homenageados pelo talento e virtuose, intérprete e musico.

Músicas jóias de Tom Jobim, de Baden Powel, de Vinicius de Morais, de

Chico

Buarque, de Milton Nascimento, de Ari Barroso. Já pensou? Pois lá estavam:

Vou Deitar e Rolar, na Batucada da Vida, Me Deixas Louca, Dinorah Dinorah,

Atrás da Porta, Bala com bala, Nas Asas da Panair (Conversando no Bar), O

Bêbado e a Equilibrista, Caxangá, Ladeira da Preguiça, entre outras

pérolas.

Já sacou o repertório fora de série? É pra qualquer um se sentir

homenageado em nome da Elis. Graças a la vida, que a amamos tanto...

Saí do espetáculo e fui tomar cerveja, lavar a alma, bebemorar. Depois

escrevi um poema-letra-de-MPB para alguém musicar com a alma nau,

pois, afinal, o show tem que continuar. Ei-lo, o poeminho que ainda

está quentinho:

A Cantora e o Violonista (A intérprete e o Músico)

Para Natan e Myrtes

Há uma montanha e um rio

Há uma chama e um pavio

Há uma cantora e um músico

Há a emoção e o lúcido

Há o vôo e o artista

Há a voz e violonista

Há a águia e o chão

Há o momento e a canção

Myrthes e Natan

A alma tez chã

Da graciosa cantora interpretando bem

E o músico ali

No mais virtuoso sol de si

Voz e violão revisitando uma saudade zen

Porque cantar combina parceria

Interpretação em harmonia

Talento e virtuose é pra quem tem.

 

 

 

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Silas Corrêa Leite é de Itararé-SP, poeta, professor. Membro da UBE-União Brasileira de Escritores – Pós-graduado em Educação, Literatura, Relações Raciais e Inteligência Emocional.

poesilas@terra.com.br

 

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