Sexta-feira magra de março, em dia de saudade da
Elis Regina que comemoraria aniversário por
essas magnas datas pertinentes, águas de março
fazendo verão, São Paulo com um congestionamento
monstro, e lá pinta a augusta Sampa em sexta
super novidadeira: Myrthes Aguiar vai, cantando,
fazer uma releitura interpretativa da saudosa
pimentinha Elis Regina, acompanhada do virtuoso
Natan Marques mais dois músicos em bateria e
contrabaixo. Belo programa.
Saudade de Elis à flor da pele, lá me fui ao
Centro Cultural Vergueiro, Sala Adoniran Barbosa
- já pensou? - sondar a revisitança musical,
palco e emoção. Natan Marques era parceiro de
primeiríssimo e imediatista ensaio pessoal das
primeiras versões de Elis em repertórios novos
da então neo-MPB em áureos tempos (de Belchior
pra cima), ensaiou, produziu, dirigiu e compôs
pra Elis. Nada melhor do que o fiel
escudeiro-guardião do acervo artístico-vocal e
repertório de Elis do que ele pra relembrá-la
com açúcar e com afeto. A memória em boas mãos,
portanto. Já o conhecia de andanças notívagas,
de estágios noiteadeiros, de nome e de estilo.
Parece-me até,
que é
ele quem sola Romaria quando Elis desata o nó da
garganta e solta-se alumbrada na magna canção
quase hino do Renato Teixeira, outro magnífico
ledor de páginas musicais com tez chão.
Para
interpretar Elis Regina, Myrthes Aguiar que eu
não conhecia ainda.
Digo
ainda porque já deveria. Myrtes Aguiar tem o tom
certo, o timbre fino, e
aceitou não imitar Elis, muito menos
parafraseá-la interpretativamente falando (ou,
cantando, vá lá) mas fazer a sua
releitura-homenagem toda própria e peculiar da
Elis. Acertou em cheio. Foi ela mesma, Myrthes,
e graciosamente nos remeteu à doce memória de
Elis Regina, mas, fincada no seu talento todo
próprio, ali relendo um mito, reverenciando Elis
com maestria e
competência, mas dando de si impoluta a cantata
inteira. Ótima cantora, excelente intérprete. O
repertório, então, feito sobre medida - é de
Elis mas caiu com uma pelica na voz de Myrthes.
Quem sabe o que faz, já nasce luz.
Do
músico Natan Marques é covardia falar, é chover
no molhado em tins e tons e tais. Caetanear, por
que não? Natan é de uma virtuose sem igual. Mas
assim de uma virtuose singela, cândida,
naturalíssima que, claro, combinou bem a
parceria com a ternura interpretativa de Myrthes.
Violão, voz, elenco musical e um pocket-show
fino, de alto astral, tocando a alma da gente. A
sexta
feira brava que pretendia com chuva, enchente e
quetais, em águas de verão nessa desvairada
paulicéia, rendeu uma apresentação significante,
memorável. Adorei. Encantei-me? A saudade mata a
gente, diz um clássico antigo de nossa
riquíssima música.
Agora
é esperar o próximo cedê, o próximo show, a
próxima apresentação de Myrthes, Natan e
acompanhantes. Elis Regina iria aprovar. Nós,
fanáticos pela Elis Regina, emocionados também
nos sentimos homenageados pelo talento e
virtuose, intérprete e musico.
Músicas jóias de Tom Jobim, de Baden Powel, de
Vinicius de Morais, de
Chico
Buarque, de Milton Nascimento, de Ari Barroso.
Já pensou? Pois lá estavam:
Vou
Deitar e Rolar, na Batucada da Vida, Me Deixas
Louca, Dinorah Dinorah,
Atrás
da Porta, Bala com bala, Nas Asas da Panair
(Conversando no Bar), O
Bêbado e a Equilibrista, Caxangá, Ladeira da
Preguiça, entre outras
pérolas.
Já
sacou o repertório fora de série? É pra qualquer
um se sentir
homenageado em nome da Elis. Graças a la vida,
que a amamos tanto...
Saí
do espetáculo e fui tomar cerveja, lavar a alma,
bebemorar. Depois
escrevi um poema-letra-de-MPB para alguém
musicar com a alma nau,
pois,
afinal, o show tem que continuar. Ei-lo, o
poeminho que ainda
está
quentinho:
A
Cantora e o Violonista (A intérprete e o Músico)
Para
Natan e Myrtes
Há
uma montanha e um rio
Há
uma chama e um pavio
Há
uma cantora e um músico
Há a
emoção e o lúcido
Há o
vôo e o artista
Há a
voz e violonista
Há a
águia e o chão
Há o
momento e a canção
Myrthes e Natan
A
alma tez chã
Da
graciosa cantora interpretando bem
E o
músico ali
No
mais virtuoso sol de si
Voz e
violão revisitando uma saudade zen
Porque cantar combina parceria
Interpretação em harmonia
Talento e virtuose é pra quem tem.