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Meus
cabelos
esbranquiçados
me
conduziram ao topo
de uma situação
dantes
inimaginável.
Inesperadamente
passei a ser
um
velho,
um
velhote
prematuro.
Tinha
saído
de uma consulta cardiológica e
acabado
de ouvir
garbosos
elogios,
tais
como:
você
está em
forma,
rapaz!
Seu
coração
é de criança,
sua
pressão
arterial é
invejável e...
etc., etc., etc.
Pra
que
melhor?
– disse-me o
doutor entregando
um
envelope,
enquanto
sorria
sinceramente
confiante.
Fiquei
radiante.
De alto
astral
e de moral
elevada,
e foi correndo ao ponto
do ônibus
abarrotado
de felicidade,
com
um
envelope
não
mãos.
Entrei no primeiro
que
parou, e não
tendo onde
sentar
fiquei de pé.
–
Senhor,
por
favor,
sente-se aqui
no meu
lugar
– disse um
jovem
abordando-me,
enquanto,
com
certa
dificuldade,
tentava levantar-se de
um
banco
onde
um
aviso explicitava:
“RESERVADO
PARA
IDOSOS,
GESTANTES
E
DEFICIENTES”
Espantado
com
aquele
tipo
de cordialidade,
que
pela
primeira
vez
recebia, preferi
agradecer,
assim
respondendo:
–
Muito
obrigado
meu
jovem.
Estou bem.
Desço logo.
O
ônibus
corria macio,
e meus
cabelos
se alvoroçavam na
brisa
suave
que
adentrava pela
janela
e, assim
como
eu,
todos
a bordo
miravam pela
vidraça
a cidade
que
parecia se deslocar
frenética
e enlouquecida.
Cinco
minutos
depois.
–
Senhor
– alguém
me
cutucou nas costas
–, sente-se aqui.
Virei a
cabeça
e me
deparei com
uma bela
adolescente
que,
já
comovida, levantava-se do
banco
na fileira
do outro
lado
e lhe
devolvi com
a mesma
cordialidade de
antes:
–
Muito
obrigado,
querida.
Já
vou descer.
Fiquei
ranzinza,
exclamando-me no
consciente:
caramba!
Que
está acontecendo
comigo?
Eu
nem
pulei a fronteira
da segunda
idade
e já
pensam que
sou um
octogenário.
Ainda
falta
quase
um
ano
para
eu
ser
civilmente
considerado velho
e já
me
vêem como
tal.
Achei prematura
a idéia
de me
olharem como
se olhava a um
vovozinho de
outrora.
Só
me
faltava ter
uma careca,
uma bengala,
um
gorro,
um
cachecol
e as famosas meias
grossas. Velho
é a mãe
– gritei pensativo
–. Ou
será que
já
pareço com
um
deles? – duvidei – Vou
pintar
esses
benditos
cabelos.
Desci do
ônibus
e adentrei num
vagão do
metrô
que
de tão
cheio
quase
não
me
coube. Fiquei ali
espremido entre
uma multidão
silenciosa
e cabisbaixa.
Apenas
o trem
barulhava no túnel.
Na minha
frente
duas crianças
brincavam com
um
bicho
de pelúcia
enquanto
devoravam balas
e pipocas
e, ao lado
delas, sua
mãe,
cheia
de sacolas,
se espaçava folgadamente
em
dois
acentos.
–
Fulano
e beltrano,
deixem esse
senhor
sentar
ai. Não
estão vendo que
ele
é mais
velho
e mais
cansado
que
você
dois
juntos?
Tais
palavras
me
soaram como
dinamites,
mas,
soletrando em
pensamentos,
devolvi furioso:
– Ve-lho
- é - a – puta –
que - pariu.
Fim
de trajeto.
Alívio
total.
Mas
teria que
embarcar
em
mais
um
ônibus,
ou
melhor,
entrar
num purgatório
e pagar
mais
um
pecado.
Só
não
via,
mesmo,
era
hora
de chegar
em
casa
e contar
a grande
novidade
dita
pelo
doutor:
que
tudo
estava bem:
que
clinicamente eu
era
um
menino,
etc. e tal.
Nesse ínterim
uma alegria
desconhecida
se apossava de mim,
e meu
sorriso
radiava em
direção
ao nada,
pois
não
tinha
nem
mesmo
pra
quem
sorri: sorria para
os estranhos
como
que
sorrindo pra
mim
mesmo.
Cheguei.
–
Meu
bem,
você
nem
sabe da maior!
– O
que
é, Godofredo?
– O
doutor
disse que
cardiologicamente sou
jovem.
Que
ainda
sou praticamente
um
garoto.
Que
tenho muita
lenha
pra
queimar.
Mas,
apesar
de tudo
isso,
eu
estou tinindo de
raiva.
–
Por
quê,
Godofredo?
–
Porque
na condução
umas pessoas
me
taxaram de velho
antes
do tempo.
Fiquei uma fera.
Eu
mato
um.
Tô puto da vida
–
E o
que
é que
você
é, Godofredo? Você
é um
velho!
Veja seus
cabelos!
Olhe-se no espelho:
um
velho.
Nada
mais
que
um
velho.
Fiquei
incrédulo
com
a revelação.
Logo
ela,
dizer
assim?
Corri ao banheiro
e, no espelho,
pela
primeira
vez
fui minucioso.
Fiz uma retrospectiva
de trinta, quarenta
anos,
tentando me
ver
sem
as rugas.
Corri as mãos
ásperas pela
face
cabeluda,
e monologuei em
desabafos
entre
as quatro
paredes:
– Veeelho!
Veeelho! Não!
Posso ser
tudo
na vida:
usado, temporão,
remendado, passado,
etcétera, etcétera,
mas...
Velho?
Velho
não!
Velho
é a mãe.
“Uma
singela
homenagem
aos queridos
idosos”
Do
autor,
aos 59 anos.
São
Paulo, junho/2007
Publicado
em:
www.veropeoma.net
www.recantodasletras.com.br |