Descobri
na minha infância, por intermédio de minha mãe, que as mulheres
gostam de receber flores. Não dei muita atenção e como todo jovem
vivi intensa e sadiamente sem me preocupar com aquele detalhe para
agradar as mulheres. Acreditava que ser honesto, bons propósitos e
usar de meus atributos masculinos era o suficiente. Mais tarde
aprendi que isso não bastava para conquistar o amor de uma mulher.
Aprendi muito mais.
Lembro-me
que na minha cidade e eu não sabia o porquê, o outono se apresentava
como uma estação diferente, bonita, aconchegante, mas com um pano de
fundo triste. Alguém comentava que os idosos partiam no outono,
também não acreditei. Depois entrava o inverno, festas, férias
escolares, agasalhos e divertimentos. Em seguida entrava a
inesquecível primavera, estação das flores, dos amores, do
melancólico som das cigarras e do entardecer romântico. Jardins
floridos, ruas e muitas árvores de Ypê roxo e amarelo, uma das
maravilhas da minha gostosa cidade e que atraía muita gente. Tantos
eram os Ypês, que motivou e os conterrâneos tiveram orgulho disso, o
nome de uma indústria de higiene na época.
O tempo
passou, levou-me a infância e ainda na juventude deixei minha cidade
em busca de novos horizontes. Minha mãe, muito bonita, cabelos
grisalhos, ganhou uma postura mais cansada, mas bem vivida, era
muito feliz e irradiava muita alegria por onde passava. Meu pai,
grande homem, o tempo também não o poupou, levou-o muito cedo.
Um dia não
é igual ao outro, temos a sensação de perda a cada momento, o tempo
rouba o passado, deixa as lembranças e aí perguntamos, - \Por que
perdemos tudo o que mais amamos na vida¿\.
Chegou o
outono. Lembrei-me de minha cidade, minha juventude e infância.
Observei as árvores, as folhas secas caídas ao chão pareciam bailar
ao som do vento. Não era mais saudade, era nostalgia, ao mesmo tempo
em que me encantava ao apreciar o vento varrer as folhas secas e
outras folhas deixando a copa das árvores. Como que a um \flash\,
assimilei naquele momento, uma lição de vida e, naquele instante,
aprendi muito com as folhas caídas, compreendi que elas se vão, mas
outras nascem no lugar para dar continuidade na magia e beleza da
vida.
Flores e
folhas caídas, espetáculo para ser visto com o coração,
inspiraram-me alguma coisa muito além da beleza das cores, entendi
por que as flores despertam tantas emoções e encantos nas mulheres.
O tempo já
havia consumido muito da energia de minha mãe, a idade já estava
sendo demasiado pesada para ela, adoeceu e foi acolhida no leito de
um hospital.
Maio, mês
do aniversário dela e também o dia das mães. Pela manhã a família
toda se reuniu para uma visita cordial. Uma manhã de sol maravilhosa
e como todos tinham ido ao hospital, deixei para a tarde quando o
sol poente me desperta a saudades e faz-me lembrar minha cidade e
minha mãe.
Lembrei-me
de minha infância, lembrei-me daquele detalhe que havia me ensinado,
passei por uma floricultura e escolhi o mais bonito ramalhete de
flores para ela. As flores eram variadas, rosas de nuances e tons
diferentes e outras flores lindas que eu nem soube o nome.
Parecia
que tudo estava de acordo com o planejado. O sol no horizonte já
estava se pondo, entardecer inesquecível com muito dourado e, eu
aproveitaria para curtir minha mãe sem muita gente por perto.
De posse
do ramalhete que chamou a atenção de todos por onde eu passava, fui
muito feliz ao hospital entregar à ela junto com as flores, meus
abraços; meus beijos; minhas palavras e meu coração.
Com muita
emoção ao chegar à porta do quarto onde ela se encontrava, uma
enfermeira conhecida saía e me cumprimentou. Disse-me a enfermeira:
- Ela esperou-o até agora. -Falou muito de você, contou-me de sua
vida e admiração que sentia. – Ela sabia que você estava vindo para
abraçá-la e com as mais lindas flores, essas que estão em suas mãos!
– Sentiu sua presença e a cada frase, só ternura e carinho. –
Falou-me de sua infância e suas traquinagens. – Apertou minha mão,
sorriu como se fosse para você e ainda me intimou a lhe dar um
abraço e um beijo. – Sorria e com muito sono foi fechando os olhos,
calma e serenamente sussurrava seu nome. – Deixou apenas uma lágrima
rolar pela face e foi para outros sonhos. – Faz alguns minutos.
Naquele
momento, vi meu mundo desabar. Gritei o meu desespero, gritei a
minha angústia, chorei a minha solidão. Joguei tudo que estava em
minhas mãos para os ares. Vi outros filhos e outras mães felizes e
até cheguei a culpá-la por não ter me esperado. Eu só queria dizer à
ela o quanto eu a amava, não tive tempo.
Eu sei,
ela me perdoou, mas eu não consegui me perdoar. Noites e noites
chorei abraçado ao travesseiro e fantasiava sua imagem. Queria vê-la
em meus sonhos. Não via mais beleza nos ypês, nas flores e na
primavera. Entendi aí o misto de tristeza que envolvia a atmosfera
do outono quando criança.
Então me
lembrei das folhas de outono, caem, são levadas pelo vento, mas
outras nascem em seu lugar para manter a árvore sempre bonita e
firme. As folhas caídas também renascerão em outros lugares, como a
esperança, acalentará outros corações. Aprendi que o tempo não
espera, não deve ser subestimado e que apenas enruga nossa face, mas
nossos ideais permanecem jovens e sem rugas. A maior lição, as
flores, nada nos fará esquecer a lembrança de um momento sublime de
amor.