...e por falar (ler) em “adote
um gatinho”, crônica escrita por Nair Lúcia de Britto,
lembrei-me de um episódio da época em que trabalhava numa indústria
metalúrgica.
A empresa, querendo expandir
seus negócios, resolveu investir no segmento da construção civil -
batentes e esquadrias metálicas. Para entrar no mercado, a diretoria
contratou um profissional experiente do mercado, e, verdade deve ser
dita: o cara era bom mesmo, provou ter profundo conhecimento dos
produtos ao longo de sua permanência na empresa.
Na época ofereceram a ele um
bom salário fixo, participação sobre as vendas, um BIP
para contato quando estivesse na rua e um carro, carro este que ele
descobriu depois da contratação, ser um Uno Mille sem ar condicionado!
Isto gerou a primeira grande crise na relação entre ele e o diretor que
o contratou.
O homem era um cavalheiro
sexagenário, educado, sempre chegava à empresa impecavelmente vestido e
perfumado, mas tinha fama de distraído. O que ficou mais que comprovado,
por diversas atitudes dele, dentro da empresa e mesmo fora dela. Todavia
este fato é o mais marcante, e, não se tratou de um esquecimento, mas
sim de uma opção, ou melhor, de um valor.
No dia em que ocorreu o fato,
a gerente comercial, ao tomar conhecimento, não sabia se ria ou chorava.
Imaginem: a assistente do
setor em expansão, após meses de tentativas frustradas, conseguiu marcar
uma visita entre este profissional e a diretoria de uma construtora de
alto padrão, para o período da manhã de um determinado dia. Na véspera
da visita tudo foi confirmado, afinal os “homens” da construtora eram
muito importantes e não tinham tempo a perder.
Final do expediente, uma
pasta, foi entregue a ele com todo material técnico dos produtos
produzidos pela metalúrgica conforme acordado com o futuro cliente,
também foram feitas mil e uma recomendações quanto à pontualidade
exigida na bendita reunião, afinal havia muitas expectativas sobre a
possibilidade de se fechar grandes negócios com esta construtora em
futuro próximo.
No dia da visita, quando o
horário marcado se aproximou, a secretaria da construtora ligou dizendo
que estava preocupada, pois o representante da empresa ainda não tinha
chegado. A assistente tentou tranqüilizá-la, dizendo que ele certamente
estava a caminho e que chegaria a tempo da reunião acontecer – como
naquela época não existia celular – apenas o BIP, e no caso dele,
normalmente não adiantava deixar recado na Central, pois,
costumeiramente, ele esquecia o aparelho em casa, fato ocorrido também
naquele dia, portanto..
Ele não chegou para a reunião
na hora e nem atrasado. Simplesmente não apareceu e nem deu satisfação.
Foi uma dificuldade conversar com aquela senhorita que estava tendo um
ataque de nervos ao telefone, descarregando a raiva que sentia por ter
que ouvir seu chefe fazer escândalo pelo tempo perdido. Amaldiçoou a
empresa, seus funcionários e avisou que, por aquele ato, os produtos a
serem apresentados já estavam negativados, etc.
Todos, na empresa, estavam na
expectativa. O que teria acontecido? Será que alguém havia morrido? Ele
teria sofrido algum acidente? A diretoria da metalúrgica, também
exaltada, queria uma satisfação convincente para tamanha
irresponsabilidade! Cobrava da gerência algo que justificasse a falta do
representante à reunião tão esperada.
Porque ele não retornava aos
recados deixados no BIP? Afinal para que servia o BIP pago mensalmente?
Porque não dera satisfação antecipadamente para que pudessem contornar a
situação?
Logo após o almoço, eis que
chega o dito representante que havia faltado à fatídica reunião na
construtora. Antes que alguém lhe perguntasse algo, foi direto falar com
a assistente pedindo uma reunião urgente com a gerente.
Diante das circunstâncias, foi
atendido de pronto e já entrou na sala dizendo que sabia da gravidade da
sua falta e precisava de ajuda para remarcar a bendita reunião, pois de
manhã havia acontecido uma tragédia e por isto ele havia faltado ao
compromisso.
A gerente impassível olhou
para ele e percebeu que o banho e o perfume pareciam recentes, nenhum
ferimento, nenhum machucado aparente..
Pensou... Talvez algum
problema com a família, mas não quis se antecipar. Seus pensamentos eram
todos para o grande problema que surgira! Como conseguir remarcar aquela
visita tão esperada? Como desfazer a péssima imagem que havia ficado da
empresa? Qual o melhor profissional técnico da empresa para acompanhá-la
neste “conserto”...
Fez cara de quem queria saber
o que acontecera de tão grave, para depois, voltar a pensar numa
estratégia que pudesse “salvar o barco”.
Ele sentou-se e com ar
melodramático falou:
:- levantei cedo, tomei meu
café, tomei banho, me perfumei, coloquei meu terno e saí. Como estava
muito calor e o carro não tem ar condicionado, para que eu não chegasse
todo suado à reunião, fiquei com o vidro do carro aberto.
Ocorre que o semáforo fechou,
parei bem próximo a guia onde tinha um bueiro, e tive a impressão de
ouvir um miado, que logo se confirmou.
Miau, miau, miau, miau, miau?!
Meu coração se partiu... Era um gatinho.
Tirei o paletó, arregacei a
manga da camisa enfiei a mão no bueiro e tentei alcançá-lo, mas não
consegui, o filhotinho se encolhia ainda mais e em dado momento nem
conseguia mais vê-lo. Fui obrigado a encostar o carro, procurar um
orelhão, chamar o bombeiro e esperar o resgate... Foi emocionante!
Depois do resgate o que fazer
com o gatinho? Não poderia deixá-lo no carro, ele estava assustadíssimo,
com fome e sede, poderia morrer de stress.
Fui obrigado a levá-lo para
minha casa, acalmá-lo, alimentá-lo e cuidar para que descansasse. Como
havia sujado a camisa, aproveitei, tomei outro banho, me preparei e
estou aqui para que você me ajude...
Com olhos marejados de
lágrimas e voz emocionada completou:
-: Ah! Antes de sair de casa
acariciei a cabeça do gatinho e ele lambeu a minha mão. Certamente
estava me agradecendo por ter salvado sua vida.
Depois deste relato, ela
olhava para ele estática, não sabia se levantava da cadeira para lhe dar
um abraço, por ver nele um modelo a ser seguido como ser humano na
essência da palavra, colocando o valor da vida acima de qualquer
interesse ou para dar-lhe um chute no traseiro pelo grande problema que
ele havia causado para a empresa, que agora ela tinha que resolver!
Hoje ele ganharia um abraço
emocionado, mas naquela época....
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
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cidamell@uol.com.br