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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 02 de outubro de 2010 21:58:55                                               

 
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TERCEIRA IDADE
Você decide!    

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 02/10/2010

 

...e por falar (ler) em “adote um gatinho”, crônica escrita por Nair Lúcia de Britto1, lembrei-me de um episódio da época em que trabalhava numa indústria metalúrgica.

A empresa, querendo expandir seus negócios, resolveu investir no segmento da construção civil - batentes e esquadrias metálicas. Para entrar no mercado, a diretoria contratou um profissional experiente do mercado, e, verdade deve ser dita: o cara era bom mesmo, provou ter profundo conhecimento dos produtos ao longo de sua permanência na empresa.

Na época ofereceram a ele um bom salário fixo, participação sobre as vendas, um BIP2 para contato quando estivesse na rua e um carro, carro este que ele descobriu depois da contratação, ser um Uno Mille sem ar condicionado! Isto gerou a primeira grande crise na relação entre ele e o diretor que o contratou.

O homem era um cavalheiro sexagenário, educado, sempre chegava à empresa impecavelmente vestido e perfumado, mas tinha fama de distraído. O que ficou mais que comprovado, por diversas atitudes dele, dentro da empresa e mesmo fora dela. Todavia este fato é o mais marcante, e, não se tratou de um esquecimento, mas sim de uma opção, ou melhor, de um valor.

No dia em que ocorreu o fato, a gerente comercial, ao tomar conhecimento, não sabia se ria ou chorava.

Imaginem: a assistente do setor em expansão, após meses de tentativas frustradas, conseguiu marcar uma visita entre este profissional e a diretoria de uma construtora de alto padrão, para o período da manhã de um determinado dia. Na véspera da visita tudo foi confirmado, afinal os “homens” da construtora eram muito importantes e não tinham tempo a perder.

Final do expediente, uma pasta, foi entregue a ele com todo material técnico dos produtos produzidos pela metalúrgica conforme acordado com o futuro cliente, também foram feitas mil e uma recomendações quanto à pontualidade exigida na bendita reunião, afinal havia muitas expectativas sobre a possibilidade de se fechar grandes negócios com esta construtora em futuro próximo.

No dia da visita, quando o horário marcado se aproximou, a secretaria da construtora ligou dizendo que estava preocupada, pois o representante da empresa ainda não tinha chegado. A assistente tentou tranqüilizá-la, dizendo que ele certamente estava a caminho e que chegaria a tempo da reunião acontecer – como naquela época não existia celular – apenas o BIP, e no caso dele, normalmente não adiantava deixar recado na Central, pois, costumeiramente, ele esquecia o aparelho em casa, fato ocorrido também naquele dia, portanto..

Ele não chegou para a reunião na hora e nem atrasado. Simplesmente não apareceu e nem deu satisfação. Foi uma dificuldade conversar com aquela senhorita que estava tendo um ataque de nervos ao telefone, descarregando a raiva que sentia por ter que ouvir seu chefe fazer escândalo pelo tempo perdido. Amaldiçoou a empresa, seus funcionários e avisou que, por aquele ato, os produtos a serem apresentados já estavam negativados, etc.

Todos, na empresa, estavam na expectativa. O que teria acontecido? Será que alguém havia morrido? Ele teria sofrido algum acidente? A diretoria da metalúrgica, também exaltada, queria uma satisfação convincente para tamanha irresponsabilidade! Cobrava da gerência algo que justificasse a falta do representante à reunião tão esperada.

Porque ele não retornava aos recados deixados no BIP? Afinal para que servia o BIP pago mensalmente? Porque não dera satisfação antecipadamente para que pudessem contornar a situação?

Logo após o almoço, eis que chega o dito representante que havia faltado à fatídica reunião na construtora. Antes que alguém lhe perguntasse algo, foi direto falar com a assistente pedindo uma reunião urgente com a gerente.

Diante das circunstâncias, foi atendido de pronto e já entrou na sala dizendo que sabia da gravidade da sua falta e precisava de ajuda para remarcar a bendita reunião, pois de manhã havia acontecido uma tragédia e por isto ele havia faltado ao compromisso.

A gerente impassível olhou para ele e percebeu que o banho e o perfume pareciam recentes, nenhum ferimento, nenhum machucado aparente..

Pensou... Talvez algum problema com a família, mas não quis se antecipar. Seus pensamentos eram todos para o grande problema que surgira! Como conseguir remarcar aquela visita tão esperada? Como desfazer a péssima imagem que havia ficado da empresa? Qual o melhor profissional técnico da empresa para acompanhá-la neste “conserto”...

Fez cara de quem queria saber o que acontecera de tão grave, para depois, voltar a pensar numa estratégia que pudesse “salvar o barco”.

Ele sentou-se e com ar melodramático falou:

:- levantei cedo, tomei meu café, tomei banho, me perfumei, coloquei meu terno e saí. Como estava muito calor e o carro não tem ar condicionado, para que eu não chegasse todo suado à reunião, fiquei com o vidro do carro aberto.

Ocorre que o semáforo fechou, parei bem próximo a guia onde tinha um bueiro, e tive a impressão de ouvir um miado, que logo se confirmou.

Miau, miau, miau, miau, miau?! Meu coração se partiu... Era um gatinho.

Tirei o paletó, arregacei a manga da camisa enfiei a mão no bueiro e tentei alcançá-lo, mas não consegui, o filhotinho se encolhia ainda mais e em dado momento nem conseguia mais vê-lo. Fui obrigado a encostar o carro, procurar um orelhão, chamar o bombeiro e esperar o resgate... Foi emocionante!

Depois do resgate o que fazer com o gatinho? Não poderia deixá-lo no carro, ele estava assustadíssimo, com fome e sede, poderia morrer de stress.

Fui obrigado a levá-lo para minha casa, acalmá-lo, alimentá-lo e cuidar para que descansasse. Como havia sujado a camisa, aproveitei, tomei outro banho, me preparei e estou aqui para que você me ajude...

Com olhos marejados de lágrimas e voz emocionada completou:

-: Ah! Antes de sair de casa acariciei a cabeça do gatinho e ele lambeu a minha mão. Certamente estava me agradecendo por ter salvado sua vida.

Depois deste relato, ela olhava para ele estática, não sabia se levantava da cadeira para lhe dar um abraço, por ver nele um modelo a ser seguido como ser humano na essência da palavra, colocando o valor da vida acima de qualquer interesse ou para dar-lhe um chute no traseiro pelo grande problema que ele havia causado para a empresa, que agora ela tinha que resolver!

Hoje ele ganharia um abraço emocionado, mas naquela época....

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 


 

2 Aparelhinho pequeno que se carregava no cinto e quando apitava o portador ligava numa central para pegar o recado deixado por alguém. Um precursor do celular.

 

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Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.   
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