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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 20 de julho de 2009 17:39:23                                               

 
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CRôNICAS

Da vulnerabilidade das coisas

Valfrido Nunes

publicado em 20/07/2009

 

Um dia estive a pensar... Passeantes vagavam dois equinos: um bastante viril, machão, pelos esbranquiçados, crina macia, garupa bem desenhada, ar de petulância; o outro (por que não: a outra?) representava o sexo frágil, a fêmea submissa, pelos rabugentos, pois minutos antes tivera se espojado na estrada de barro vermelho; ambos seguem mudos pelo caminho como o silêncio de uma madrugada rural, em que se pode ouvir a própria respiração. De repente, ele deseja um orgasmo e, como um relâmpago, se aproxima dela, morde-a, trepa-se nela, sente o cheiro do sexo e pratica-o com ela que, passivamente, não reage. Ali não há razão, o pecado para eles não existe. É o desejo que brota de dentro como a lava de um vulcão em erupção. Depois, minutos depois, cada um segue o seu destino desconhecido como mendigos atônitos em ruas de capital... Eles não têm nomes, parece que nunca se viram. Não! Ali nada acontecera! A emoção, o amor, o afeto, o carinho, o reclinar da cabeça no peito, o sussurrar morno e doce do “Eu te amo”... Nada disso existe! É um mero fenômeno naturalista... São ventos que vieram e se foram. Não se sabe o seu destino! São desejos momentâneos que se esvanecem como a onda valente que se esparrama na areia na praia e se vai... Acabou! E continuo a pensar... Só os irracionais vivem essa efemeridade? Fiquei a pensar nos amigos e nas amigas que tenho (ou que tive?). Não pelo sexo (pois a essência da amizade não pode ser contaminada pelo vírus de um desejo repentino), mas pela vulnerabilidade das coisas, pela maneira como nos aproximamos daqueles que nos são semelhantes, confiamos os nossos segredos, deixamos escorrer as lágrimas do rosto, lamentamos os conflitos da vida, conversamos sobre assuntos comuns, dizemos até o indizível! E como, com esta mesma facilidade, nos afastamos dessas pessoas que outrora foram um pedaço de nós. Às vezes, tenho até a impressão de que nunca as conheci!  E continuo a pensar... Vivemos o dilúvio da indiferença. Não uma indiferença irracional como o fazem os equinos, mas uma indiferença hipócrita praticada por seres a quem podemos denominar de animais humanos.

 

Valfrido Nunes, 28 de maio de 2009.


 

 

 

 
  

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::sobre o autor::

Valfrido da Silva Nunes é natural de Bom Conselho – PE. Licenciado em Letras Português/Inglês pela Universidade de Pernambuco (2005). Tem pós-graduação lato sensu em Programação do Ensino da Língua Portuguesa (2008) por esta mesma instituição. Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira da rede estadual de ensino de Pernambuco; nas horas vagas, ousa escrever poesias e crônicas. Atualmente é aluno especial do Mestrado em Letras e Linguística da Universidade Federal de Alagoas.

E-mail: <fridoval@hotmail.com>


 

 

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