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Um dia estive a
pensar... Passeantes vagavam dois equinos: um bastante viril, machão,
pelos esbranquiçados, crina macia, garupa bem desenhada, ar de
petulância; o outro (por que não: a outra?) representava o sexo frágil,
a fêmea submissa, pelos rabugentos, pois minutos antes tivera se
espojado na estrada de barro vermelho; ambos seguem mudos pelo caminho
como o silêncio de uma madrugada rural, em que se pode ouvir a própria
respiração. De repente, ele deseja um orgasmo e, como um relâmpago, se
aproxima dela, morde-a, trepa-se nela, sente o cheiro do sexo e
pratica-o com ela que, passivamente, não reage. Ali não há razão, o
pecado para eles não existe. É o desejo que brota de dentro como a lava
de um vulcão em erupção. Depois, minutos depois, cada um segue o seu
destino desconhecido como mendigos atônitos em ruas de capital... Eles
não têm nomes, parece que nunca se viram. Não! Ali nada acontecera! A
emoção, o amor, o afeto, o carinho, o reclinar da cabeça no peito, o
sussurrar morno e doce do “Eu te amo”... Nada disso existe! É um mero
fenômeno naturalista... São ventos que vieram e se foram. Não se sabe o
seu destino! São desejos momentâneos que se esvanecem como a onda
valente que se esparrama na areia na praia e se vai... Acabou! E
continuo a pensar... Só os irracionais vivem essa efemeridade? Fiquei a
pensar nos amigos e nas amigas que tenho (ou que tive?). Não pelo sexo
(pois a essência da amizade não pode ser contaminada pelo vírus de um
desejo repentino), mas pela vulnerabilidade das coisas, pela maneira
como nos aproximamos daqueles que nos são semelhantes, confiamos os
nossos segredos, deixamos escorrer as lágrimas do rosto, lamentamos os
conflitos da vida, conversamos sobre assuntos comuns, dizemos até o
indizível! E como, com esta mesma facilidade, nos afastamos dessas
pessoas que outrora foram um pedaço de nós. Às vezes, tenho até a
impressão de que nunca as conheci! E continuo a pensar... Vivemos o
dilúvio da indiferença. Não uma indiferença irracional como o fazem os
equinos, mas uma indiferença hipócrita praticada por seres a quem
podemos denominar de animais humanos.
Valfrido Nunes, 28 de
maio de 2009.
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