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Crônicas

Ano I - Nº9 - dezembro de 2000

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L-A-T-A-N

Eduardo Paulo Berardi Júnior

Jesus está para nascer. O Cesar já mandou matar todas as crianças. As lojas já oferecem presentes. O sistema de crediário é intenso. Todos participam sem ao menos saber porquê – afinal, sempre todos compraram presentes e os dão a todos, sem parar para pensar no que de real e sincero haveria nisso. O homem perdeu sua capacidade de discernir. A cidade o engoliu. Os apóstolos postados diante do crucifixo esperam ao lado de José e Maria pelo nascimento do menino Deus. O Papa dirigiu-se à Praça de São Pedro para iniciar a Missa do galo. O menino soltou seus primeiros vagidos. Cristãos de todas as crenças foram à manjedoura. Todos os estadistas do mundo foram pessoalmente, ou enviaram seus representantes para felicitar Pai, Mãe, Filho, ofertando-lhes grandes somas a fim de que as obras da Igreja pudessem ser concluídas e fazendo ao menino doações de tal monta que veio a tornar-se um dos homens mais ricos de toda a Terra. Não poderiam supôr que dentro em breve teriam que sacrificá-lo por Ter se tornado uma ameaça aos poderes e interesses mundiais.

Enfim, desde seu nascimento até hoje tudo se repete todos os anos, alcançando o ápice, exatamente, nos festejos representativos do Natal.

Sentia-me estranho, comemorando, bebemorando, vomitorando o Natal. Seria possível que não crendo em Deus, vendo Jesus como um homem comum, deveria comemorar, etc... como os outros? Afinal, para mim, Jesus pode ter sido apenas um homem diferenciado, como tantos outros têm sido em nossos dias, e em todos os cantos do mundo. Fenômenos parapsicológicos. Como seria possível me envolver neste tipo de festejos? Uma grande incoerência, falsidade mesmo. Imperdoável!

Mas, seria mesmo assim? Ou...

Bem, numa análise da situação compreendi o quanto me enganava em julgar incoerência, porque o que se festeja, longe de ser o nascimento do Cristo, é a vida que ainda nos resta, pois o que se faz é utilizar-se do Natal como mais uma desculpa para a união de pessoas próximas que assim pode estar mais uma vez juntas. Da parte das famílias mais religiosas mesmo já não se cumpre todos os Sacramentos. O novo estilo de vida da sociedade capitalista, tem feito esquecidos e cada vez mais distantes os dogmas do catolicismo.

Por outro lado, os setores produtivos têm buscado. Através de festas religiosas e tantas outras datas criadas pelo próprio sistema, mais oportunidades de aumento de vendas, de produção, de lucro, de capital, enfim. A própria institucionalização do salário de fim-de-ano veio de encontro a isso. Gastando em compras, esse abono retorna ao próprio sistema de ode partiu e, no entanto, aumentou e dinamizou bastante esse mercado ficando nada como o próprio trabalhador.

Eis o Natal, hoje!

Não se enfeitam mais as casas. Presépios já nem existem. As próprias arvores de Natal são raras. Mais um motivo para as mensagens dos homens de Estado. Todos se pronunciam, Todos recebem as mensagens com seriedade, como se estivessem certos da fé que procuram demonstrar. Propagandas. Anúncios, Mais massificação, maior consumo. Passividade geral. Comodismo total. Amorfia incontida, inconteste.

Esquecendo pequenas diferenças, sentados à Ceia, todos muito mais próximos a Judas do que aos demais, devoram gulosamente pratos atrás de pratos, tentando comer o máximo possível, para poder compensar o dinheiro desembolsado com a grande reunião. Quanto a beber, o mesmo acontece. Paralelamente, seus cérebros se ocupam da expectativa a serem recebidos e uma grande pergunta sempre lhes fica na cabeça:

-      Será que os presentes que eu vou receber são de valor maior aos que gastei nos presentes deles?

Na realidade não me coloco como juiz querendo depurar o sentido do Natal. Tampouco me preocupa o afastamento ou não dos dogmas da Igreja. A quebra desses valores é o que tem modificado tanto a ida em nossa sociedade. E é um termômetro. O que me preocupa é o homem que vai desaparecendo, dando lugar a um número de computador, a um número de conta bancária, a um número de consumidor, sem sentir no que esta sendo transformado.

Jesus morreu. Todas as crianças mandadas matar, renasceram. As lojas já não oferecem presentes. Maria abortou, pelo comprimidos que tomou na gravidez, indevidamente. José suicidou-se de desgosto, pela traição do Santo Anjo. Os apóstolos demoliram suas Igrejas. Pilatos não mais lavou as suas mãos. O Papa nem mais Missa do galo tem para rezar (o que será dele agora?) Talvez venha a dedicar-se à obtenção da paz mundial. Os estadistas do mundo todo deixaram de ofertar presentes e de terem que destruir um concorrente. O mundo mudou todo. Até hoje não sabemos em que ano estamos porque não houve um Cristo para dar-nos um marco referencial.  Não haverá guerra de religião, nem Cruzadas. Os árabes não serão mais ameaça a Portugal. Puxa! Que gozado, já pensaram que talvez eu nem existisse? Porque afinal de contas, meus pais se conheceram numa Igreja!!!

Eduardo Paulo Berardi Junior é professor de História.

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