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Um dos aspectos que caracteriza a criação poética é a
presença das figuras de linguagem no poema, que implicam importantes
efeitos semânticos, sonoros e contribuem para a construção de sentido.
Assim, as palavras dentro de um poema adquirem significados variados,
pois já que elas são símbolos linguísticos, podem mudar, como nos diz
Saussurre,
“o signo linguístico é, pois uma entidade psíquica de duas faces”,
representada pelo significado e pelo significante, e os laços que os
unem é arbitrário. Segundo Paz, “a linguagem, tocada pela poesia, cessa
imediatamente de ser linguagem. Ou seja: conjunto de signos móveis e
significantes”,
assim palavras podem significar muito mais do que seu sentido ditado
pelo dicionário, adquirem um sentido amplo e conotativo.
Levando em consideração os aspectos apresentados, quando
notamos a presença do vocábulo “acre”, como figura sinestésica, em duas
poesias de Manuel Bandeira, podemos dizer que para o poeta, somente este
símbolo poderia representar seu sentimento que precisava transformar em
palavras. O que ocorre é que como diz Paz, o poeta “não se serve das
palavras. É seu servo”.
Ou seja, “a palavra do poeta se confunde com ele próprio. Ele é a sua
palavra. No momento da criação, aflora à consciência a parte mais
secreta de nós mesmos. A criação consiste em trazer à luz certas
palavras inseparáveis de nosso ser”.
Então “acre” é o símbolo, que para o poeta adquire o significante
necessário para representar o momento em vive. Esse momento é de
consternação, quando o poeta através de todos os “sentidos humanos”
consegue experimentar a vida e sentir o momento difícil.
Para Goldstein,
“sinestesia é o recurso que sugere associação de diferentes impressões
sensoriais, ou seja, sugestões ligadas aos cinco sentidos: visão, tato,
audição, olfato, paladar”. Nós nos ocuparemos das questões que envolvem
o elemento sinestésico “acre”, sendo assim, analisaremos a presença dele
nas poesias “Desencanto” e “Plenitude” da obra A cinza das horas
de Manuel Bandeira.
As duas poesias possuem um “acre” sabor,
relacionado ao que é ácido, amargo, áspero, acerbo (azedo, duro, árduo),
ríspido, violento, desabrido (insolente), que, sobretudo, pode ser
encontrado na poesia “Desencanto”, além do verso que traz a expressão, o
penúltimo “deixando um acre sabor na boca” que está ligado ao
paladar, vários outros o comprovam: o quinto “meu verso é sangue”
ligado à visão, seu verso como sangue representa a vida que ainda lhe
corre nas veias, mas ao mesmo tempo demonstra um sabor amargo refletido
pelo sétimo verso, “dói-me nas veias. Amargo e quente,”
ligado ao paladar e ao tato; o nono “e nestes versos de angústia
rouca”, ligado à audição, aqui a angústia do eu-lírico, é como se
fosse revelada através de uma fala áspera e cavernosa, difícil de ser
entendida por alguém, e o último “eu faço versos como quem morre”,
encerra o acre sabor desta poesia, demonstrando o “amargo”, ou a
amargura do poeta em saber que está morrendo.
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
-
Eu faço versos como quem morre.
(Teresópolis, 1912:4)
Os versos de Manuel Bandeira, como diz Castello, são uma
composição “impregnada da sentimentalidade romântica, exacerbada pelo
próprio gosto da confissão da dor, da amargura, do desalento, de origem
mórbida”.
À Manuel Bandeira cabe a arte de dar um sabor, um cheiro, enfim
sensações à sua poesia repleta de versos duros, que estabelecem um
paralelo entre ele, o eu-lírico, a tuberculose e a espera da morte. Para
Lêdo Ivo, na poética do autor “vida e arte poética se fundem e se
transfundem, num enlace entranhado e duradouro”.
A vida ainda pode trazer-lhe alguma esperança, um porvir diferente do
que o destino lhe aponta.
Assim, o poema Desencanto pode representar a fuga do
sofrimento, o fazer poético é uma forma de se distanciar daquele momento
sombrio. No entanto o “acre” é um dos vocábulos para demonstrar tamanho
sofrimento. Sofrimento de quem anseia pela vida, porém vê que ela foge
dele, até mesmo quando sente na boca aquele acre sabor, quando, como diz
o poeta: “Assim dos lábios a vida corre”.
Ainda podemos destacar que,
quanto à forma, o poema mostra regularidades e simetrias em sua
construção e organização desde o plano da expressão, até o plano
fonético, rítmico e gramatical. Talvez, pelo menos a forma de sua poesia
possa ser regular, organizada, já que tudo mais em sua vida se perde,
ele fecha o poema revelando o porquê dessa regularidade “Eu
faço versos como quem morre.”, como quem não espera nenhuma novidade,
tudo se torna sempre igual e terá o mesmo fim, não havendo espaço para
inovações. Podemos perceber, então, o poeta, sua vida e produção poética
estão intimamente ligados.
Para Castello,
o grande apelo do poeta, na sua mágoa e solidão, desamparo, buscando na
paisagem o reflexo de sua tristeza mais íntima, é o reverso dessa mesma
atitude quando quer da natureza o exemplo de seu vigor, de sua grande
vitalidade, como em “Plenitude”.
Plenitude
Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura.
A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes,
Entra-me como um vinho acre pelas narinas...
Arde-me na garganta... E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem da exalação de cada terebinto.
O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu observo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas.
Tenho êxtases de santo... Ânsias para a virtude...
Canta em minh`alma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude
-
Belo como Davi, forte como Golias...
E neste curto instante em que todo me
exalto
De tudo o que não sou, gozo tudo o que
invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo.
E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida...
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida!
(p.
26-27)
Aqui, nesta poesia, o
“acre sabor”, se transforma em “aroma”. Para Staiger,
“aromas são mais que impressões ópticas pertencem à recordação. Pode ser
que não conservemos um aroma na memória, mas sem dúvida o conservamos na
recordação”. Pois ainda como nos diz o teórico, “quando ele se espalha
de novo, um acontecimento passado de há muito se torna subitamente
perceptível; o coração bate e finalmente a recordação instiga a memória;
podemos dizer em que circunstâncias este aroma inebriou os sentidos”.
Também nos diz, “que os aromas pertençam tão inteiramente à recordação e
tão pouco à memória está sem dúvida ligado ao fato de que nós não lhes
podemos dar formas, freqüentemente mal lhe podemos dar nomes, não se
tornam objetos”. E só nos libertamos daquilo que conseguimos tornar
objeto pela contemplação ou pelo conceito. Só frente a isso teremos
“tomado uma posição”.
Para o autor,
a memória está mais ligada ao escritor de um texto narrativo, já que
este escreve no pretérito, fala de um passado que já deixou para trás,
mas a recordação tem como tema o passado do eu-lírico, é uma recordação
que traz para o presente um passado que não está longe nem terminou,
pois não foi delineado nitidamente e nem compreendido em sua totalidade,
já que ele movimenta-se ainda e comove o poeta e a nós mesmos. Eis o
porquê dos aromas serem tão latentes na recordação do poeta.
Na segunda poesia, toda a vitalidade da natureza por
vezes, lhe parece muito rude, áspera, a partir da terceira estrofe em
seu primeiro verso: “Entra-me como um vinho acre pelas
narinas...” ligado ao olfato, é como se por suas narinas penetrassem o
aroma de um vinho azedo. O segundo verso desta estrofe reforça o que já
dissemos: “arde-me na garganta”, ligado ao paladar, esta
vitalidade é ácida, azeda e faz com que sua garganta arda. Depois, “e
nas artérias sinto/ o bálsamo aromado e quente das resinas/ que vem da
exalação de cada terebinto”, ligado ao olfato, é como se o eu-lírico
sentisse o cheiro de um líquido aromático e espesso, fluido do
terebinto, planta da qual podem ser extraídas as resinas, assim o cheiro
desse bálsamo pode ser entendido como “conforto”, “consolo” encontrados
pelo eu-lírico na Natureza.
Diante da natureza, o poeta vislumbra a possibilidade
da cura, a natureza fornece-lhe inspiração para que a sua vida se torne
mais amena: “a força nova e pura / da vida embriaga e exalta. Eu sinto
fibra a fibra, / avassalar-me a vontade da cura”. Ele, então na quarta
estrofe, sente o furor de criação dionisíaco arder em suas entranhas: “o
furor de criação dionisíaco estua / no fundo das rechãs, no flanco das
montanhas, / e eu observo-o nos sons, na glória da luz crua / e ouço-o
ardente bater dentro em minhas entranhas”. Nos versos, podemos observar
a presença da audição, da visão, então o poeta se permite sonhar em ser
tudo o que não foi em razão de ter sua saúde debilitada desde muito
jovem: “sonho o que jamais pude - / Belo como Davi, forte como
Golias...”.
Tendo em vista os aspectos observados somos levados a
crer que, “Desencanto” e “Plenitude”, revelam um acre sabor na poética
de Manuel Bandeira, descrevem sua agonia em versos que são seu sangue,
com a constante presença da morte. Isto tudo, através de duas relações
do poeta com a palavra acre, na primeira ele sente na boca o acre sabor,
na segunda ele sente o aroma de vinho acre, sempre ligada aos sentidos
que representam nada mais que a presença da vida que ainda insiste em
residir em um corpo debilitado pela doença. Ainda, podemos também dizer
que as duas poesias estão relacionadas ao seu estado de saúde precário,
porém em “Plenitude” revela-se mais esperançoso, trazendo a Mãe
natureza, como divino apetite da cura.
CASTELLO, José Aderaldo. 1989. Aspectos da poesia de
Manuel Bandeira. IN: SILVA. Maximiliano de Carvalho E. Homenagem a
Manuel Bandeira. UFF: Rio de Janeiro.
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