|
Eu vou
magnetizando coisas no inconsciente, coisas do dia-a-dia, coisas
que magicamente as pessoas vão te dizendo. Isto vai formando um
todo que acaba se tornando uma história redonda.
Caio F. Abreu
Caio Fernando Loureiro de Abreu (1948-1996) nasceu em Santiago
(antigo Santiago do Boqueirão), no Rio Grande do Sul, a 12 de
setembro de 1948 e faleceu dia 25 de fevereiro de 1996, em Porto
Alegre, vítima da AIDS.
Esse ano, após dez anos de falecido, suas
narrativas surgem com força e encanto. Dedicou-se a maior parte
de sua escritura à narrativa curta, preferencialmente o conto,
estreando sua carreira como escritor com o livro O Inventário
do irremediável em 1970. No entanto, em sua bibliografia
constam obras de diferentes gêneros literários, como seus dois
romances, o primeiro, Limite Branco, de 1970, e o
segundo, Onde Andará Dulce Veiga?, de 1990; o livro
infantil As Frangas, de 1988, e um livro de crônicas,
publicado após sua morte, em 1996, denominado Pequenas
Epifanias.
As narrativas curtas são, porém, a preferência do
escritor, que, desde Inventário do irremediável, publicou
O ovo apunhalado, em 1975, Pedras de Calcutá, em
1977, e Os Dragões não conhecem o paraíso, em 1988. Ainda
no ano de 1988, surge a coletânea Mel & Girassóis,
reunindo diversos contos do autor já editados em outros livros.
Em 1995, é lançado Ovelhas Negras, e em 1996, após seu
falecimento, Estranhos Estrangeiros.
 Seu
livro mais conhecido é Morangos Mofados publicado
inúmeras vezes. Trata-se de um livro de contos que, entre mofos
e morangos, passeiam suas obsessões por personagens quase sempre
anônimas que vivem em grandes cidades e em direção a um palmo
qualquer de luz. Ou de sombra.
Como seus personagens, Caio se
sentia um estrangeiro eterno, irremediável, um estranho
estrangeiro, sem paz fora da própria terra, incapaz de viver
nela. Em quase todos os contos, o escritor aborda seus temas
preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor e o sentimento de
marginalização. Seus personagens vão envelhecendo com ele:
sempre jovens em Inventário do irremediável. Mergulhados
no espaço contaminado da pós-modernidade sua narrativa
representa seres degradados pelas drogas, paranóias, AIDS,
esquizofrenia, desencanto, muita procura e muito desamparo.
A cidade é o cenário
preferido dos seus personagens, que embora tratem de narrativas
onde a temática social predomina, esta é filtrada pela
interioridade das figuras humanas, que reagem de várias maneiras
aos fatos. Por isso a literatura de tema urbano tende a
aprofundar a análise da vida interior das personagens.
Assim, sua narrativa pode ser classificada de
psicológica, porque enfatiza o prisma intimista com que os
eventos externos são percebidos; e estes deixam de ter sentidos
predominantemente social, para se confundirem com problemas do
inconsciente, produtos de traumas pessoais e de relações
insatisfatórias na infância ou em determinado momento da vida.
A literatura urbana de Caio incorpora ao espaço
urbano novos significados, ampliando o repertório e o alcance da
literatura, representando seres diversificados ou muitas vezes
melancólicos.
Paralelamente ao trabalho de escritor, Caio ainda
trabalhou como jornalista e dirigiu algumas peças teatrais.
Recebeu vários prêmios durante sua carreia.
Sua escrita anti-epifânica (termo Olga de Sá em
estudos sobre a narrativa de Clarice Lispector) revela o ser
pelo seu avesso e procura atingir o leitor. Trata-se de um texto
rápido, pictórico-fotográfico, sintético, que se quer icônico e
cinematográfico, em que o encadeamento se processa como num jogo
de cenas e em contínuos questionamentos. Um questionamento
fragmentário sobre a linguagem, a conduta humana, a
transcendência das coisas, os problemas existenciais, éticos e
estéticos que nos envolvem na tarefa de viver.
Esse processo de hibridismo de linguagens, com
pastiches da linguagem cinematográfica, presente na narrativa de
Caio Fernando Abreu, vem se intensificando na literatura
contemporânea, calcado agora não mais na simples reprodução, mas
na proliferação da imagem eletrônica e só possível de se
efetivar pela simbiose entre o mercado e os meios de comunicação
de massa.
Sua escritura se fabrica pela montagem narrativa
em partes, quebrada, deixando lacunas ao leitor, cortes na
seqüência do texto, seguida de uma trama de referências.
Tudo faz lembrar O jardim das delícias,
uma forma de montar textualmente o que Barthes apontou como a
encenação de um aparecimento-desaparecimento ou uma escritura
repetida a todo transe, ou ao
contrário se for inesperada, suculenta por sua novidade.
A leitura de seus contos proporciona o
enigmático, o silêncio percebido como trágico, e o cinema que
ganha representações nos imaginários dos personagens e na
linguagem entrecortada, como a narrativa cinematográfica. Apesar
dos diálogos tudo caminha para uma grande ausência do silêncio –
como algo que deveria ser dito e ficou perdido, escondido na
trama verbal.
Enfim, no reino de Eros a narrativa finissecular
de Caio, como no filme A Morte em Veneza, baseado na obra
homônima de Thomas Mann, testemunha e recupera a sensibilidade,
assim como a angústia diante de um mundo que não atende às suas
necessidades existenciais, atirando o homem de seu tempo à
marginalidade e à transgressão.
No orkut, as quatro comunidades sobre o
autor somam 4.600 membros -todos hipnotizados pelos labirintos
narrativos da escritura pós-moderna de Caio Fernando Abreu.
Talvez seja o magnetismo narrativo movido pela
mágica e pelo silêncio que seduz o leitor sensível na tentativa
de encontrar o espinho que atravessa a carne do texto, tudo num
cuidado muito especial na pista escorregadia da linguagem.
A obra do autor esta sendo relançada pela Editora
Agir.
Morangos Mofados

Publicado originalmente em 1982, Morangos Mofados é o
livro mais conhecido do autor. Foi lançado 11 vezes e traduzido
para diversas línguas.
Caio Fernando Abreu - Caio 3D - O
melhor da década de 1970

O
primeiro volume, dedicado aos anos 1970, é aberto pelos contos
de O Ovo Apunhalado e fragmentos da produção de Caio ao
longo desta década.
Caio
Fernando Abreu - Caio 3D - O melhor da década de 1980
O
Essencial da década de 80, reúne os contos de Morangos
Mofados, de 1982, Os Dragões não conhecem o paraíso,
de 1988, além de escritos inéditos, cartas e poemas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
_______. Pequenas epifanias. (Crônicas - 1986/1995)
Sulina. Porto Alegre, 1996.
ARAUJO, Rodrigo da Costa. A Linguagem da narrativa de Caio
Fernando Abreu na travessia para o século XXI. Ensaio
apresentado no XIII Congresso da ASSEL-Rio "Linguagens para o
terceiro milênio", realizado no Instituto de Letras da UFF. 25
de outubro de 2005.
BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. 4ª ed. SP.
Perspectiva, 2004.
SÁ,
Olga de. Clarice Lispector: a travessia do oposto. São
Paulo: Annablume, 1993.
Imagens:
http://revistaquem.globo.com
Paginas no orkut:
Egídio La Pasta Jr. |