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I.
ESCRITURAS FEMININAS
É sob o ponto de vista feminino - isto é, das diferentes
modulações que as imagens impõem ao resgate icônico da memória -
que se procede à comparação mulher e memória em Volver,
do famoso cineasta Pedro Almodóvar. As imagens da memória
parecem constituir comparações e intertextos como fios
costurados com a vida de cada personagem.
Tudo parece constituir um mundo imagético e icônico através de
cenas rápidas, poéticas e significativas. Sempre regatas com
efeitos musicais que relembram o passado, as pessoas, as
situações, fragmentos de um discurso amoroso.
As primeiras cenas do cemitério que resgatam a vida através da
morte, faz das mulheres retratos perfeitos do que se quer falar
na narrativa que compõem pedaços e fragmentos de cada uma delas.
Costurados e entrelaçados, a dor e a morte parecem unir e
afastá-las de alguma forma.
Com efeitos femininos e através de um memorial são constituídas
texturas de imagens. Retratos, fotografias, descrições, cenas,
composições pictóricas, enfim, signos ou conjuntos de signos
sensíveis que compõem uma imagem ou conjunto de imagens. Em
Volver – esses são os intertextos nos quais a memória se
inscreve, conformando e confrontando múltiplas formas e várias
gerações, vários olhares. A lembrança dos lugares; a tradição
dos retratos na parede; cenas e fotografias expostas ao olhar
semiológico dos outros ou encerradas em roupas, malas, odores,
sonoplastias, esquecidas ou escondidas. Um filme representando
cenas de uma família em fragmentos.
II.
TEXTOS & INTERTEXTOS
Os signos e a textura da memória, contudo, parecem reforçar que
a vida não se limita a uma memória individual, mas podem
encerrar também traços coletivos (de época, lugares, costumes,
acontecimentos, lembranças, comidas), tal como na retomada do
velório ou nos cômicos beijos que causam risos a platéia.
Memória e imagem dialogam com o que Blanchot afirma:
“A imagem fala-nos, e parece que nos fala intimamente, de nós.
Mas intimamente é dizer muito pouco; intimamente designa então
esse nível em que a intimidade da pessoa se rompe e, nesse
movimento, indica a vizinhança ameaçadora de um exterior vago e
vazio que é o fundo sórdido sobre o qual ela continua afirmando
as coisas em seu desaparecimento.”( 1987, p.256).
Os fragmentos relembram ao espectador as marcas que resgatam os
elos entre as personagens. O aparecimento e desaparecimento em
pequenos flahes. Uma certa nostalgia dos grandes romances
como nos fala Barthes, a ficção, enquanto figuração do afeto, é
figuração na consistência, de “momentos de verdade”. “ A verdade
está na consciência”, escreve em Roland Barthes par Roland
Barthes, citando Poe. (1975, p. 63).
Como um apaixonado, o leitor/espectador dos Fragmentos
pode se sentir louco, mas irremediável e deliciosamente aderido
a si próprio, a seu passado tornado presente, à sua própria
vida, a seu próprio corpo.
O leitor/espectador muitas vezes se sente à deriva, como em
momentos em que as imagens nem pertencem mais a um personagem e
nem mesmo podem ser reenviadas à realidade, a um imaginário ou a
uma alucinação... Outras vezes, são as imagens que, evocadas
pela memória, em vez de proporcionarem um reconhecimento ao
personagem elas retornam , fazem com que este se sinta
desmemoriado, tomado pela errância e pelos fantasmas, tal como a
mãe - personagem chave das lembranças.
O vento, signo de trágicas recordações, começa e encerra o
enredo que ficou registrado num passado e deixou marcas na vida
e nas relações entre mãe e filha. A sonoplastia, em forma de
citação memorial, lembra o tempo todo que a vida é uma rede que
se constrói em citações, lembranças, fluxo de escrituras que se
estende entre as cenas. Ver e viver consiste, segundo Barthes,
em atravessar as escrituras de que é feito o mundo, escrever(e
ver) é citar.
Volver lembra o conceito barthesiano de texto escrevível.
Uma narrativa escrevível seria, nesse sentido, aquela que
desloca o espectador/leitor da função de consumidor para a de
produtor. Estando sempre por ser escrito, faz com que o leitor,
no jogo, segundo SANTOS (1989, p. 32) “tenha pleno acesso ao
encantamento do significante, à volúpia da escritura”.
Memória/desmemoriado, morte e vida, lembranças e construções são
pares que fazem dos personagens um retorno ao sonho, ao
imaginário, incorporando procedimentos pertencentes ao
ilusionismo ou a uma rede de recordações constantes. Em todos os
momentos encontramos fragmentos de um discurso amoroso
pertencentes ao mundo da memória e da identidade feminina.
Com o uso sistemático e convencional da cor e da música, os
cenários, ainda que coloridos, lembrariam os experimentos das
fotografias em preto-e-branco expressivo e silencioso das casas.
III.
PERFIS DE MULHER
Entre teatro, ironia, fingimento e realidade passeam
as narrativas almodovarianas. A crítica ao sistema hegemônico
não se limita à situação feminina, antes, porém, instaura um
olhar de alteridades, sobretudo quando descreve as contradições
humanas. Suas narrativas esbarram na intensidade brutal do
cotidiano das pessoas, na exclusão, nas relações de algum tipo
de poder, bem como em metáforas ou ironias recorrentes em sua
meteórica produção literária.
Nesse museu pós-moderno de ações bizarras, mas extremamente
sensíveis, as mulheres transformam o esquecimento em várias
tonalidades da memória, caracterizando o que Linda Hutcheon e
Fredric Jamenson apontaram como imagens estilizadas pelos
universos do pastiche ou da metanarrativa. Diante das histórias
que cada uma delas revelam e ajudam a compor o enredo maior é
possível perceber traços típicos da estética pós-moderna.
Assim, semiologicamente, Volver pode ser entendido como o
conceito de escritura, uma prática significante (um processo de
produção de sentidos), pois tudo se oferece, paradoxalmente,
“como um silêncio a ser decifrado”, tudo não faz senão
interrrogar: “a obra nunca é de todo significante e também nunca
é inteiramente clara; ela é, por assim dizer, “sentido
suspenso”: ou seja, oferece-se ao leitor como sistema
significante declarado, mas, furta-se-lhe como objeto
significado.
Enfim, Volver suscita mundos de fantasmas, ou como diria
Barthes, em seu Prazer do texto, “o brio do texto (aqui
diria o filme) (sem o qual, em suma, não há texto) seria a sua
vontade de fruição: lá onde precisamente ele excede a procura,
ultrapassa a tagarelice e através do qual tenta transbordar,
forçar o embargo dos adjetivos - que são essas portas da
linguagem por onde o ideológico e o imaginário penetram em
grandes ondas”.
Referências Bibliográficas:
BARTHES, Roland. Fragments d’un
discours amoreux. Paris: Seuil, 1977.
______. O Prazer do Texto.
Lisboa: Edições 70, 1974
______. Roland Barthes par
Roland Barthes. Paris: Seuil, 1975.
______. S/Z. Paris: Seiul,
1970
______. Ensaios Críticos.
Lisboa: Edições 70, 1977.
BLANCHOT, Maurice. O Espaço
Literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BUYSSENS, Eric. Semiologia &
Comunicação Lingüística. São Paulo: Cultrix. EDUSP, 1972.
GUIMARÃES, César. Imagens da
Memória. Entre o Legível e o visível. Belo Horizonte, Ed,
UFMG, 1997.
HUTCHEON, Linda. A Poética do
Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
JAMESON. Fredric.
Pós-Modernismo
- A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio,
São Paulo: Ática, 2002
SANTOS, Roberto C. Para uma
Teoria da Interpretação. Semiologia, Literatura e
Interdisciplinaridade. Rio de Janeiro; Forense
Universitária, 1989. |