Quem nunca teve
nostalgia de uma época? Sobretudo quando a referida época nos remete à
juventude? Quem, como nós, passou a infância com os últimos resquícios
de anos 80, sendo cúmplices de uma geração que assistiu ao fim de uma
ditadura, a abertura política, a volta de muitos artistas? Isso, apenas,
para se desenhar o panorama político. Período que foi muito efervescente
na produção musical e poética, com vários artistas se consagrando.
Enquanto retrato
de uma juventude que ao olhar de nossa geração parece quase tão inocente
que a transgressão é sair para namorar à noite no carro, a imperdível
peça Bailei na curva, esteve mais uma vez (em fevereiro deste
2009) em cartaz em Porto Alegre, no belíssimo Theatro São Pedro.
Bailei na curva
fez parte de um processo de renovação teatral em Porto Alegre,
relacionado a uma frutífera criação artística coletiva ocorrida mesmo em
meio à censura do regime civil-militar criado em 1964. A geração de
atores e diretores da época buscou superar o mimetismo das remontagens
de peças consagradas no eixo Rio-São Paulo (para onde foram muitos dos
bons artistas gaúchos desde a década de 1960) procurando produzir
roteiros e espetáculos originais, baseados numa identificação com o
cotidiano das pessoas e com um enraizamento na realidade local.
Segundo Júlio
Conte, entre os anos 1960 e 1970, a produção teatral em Porto Alegre
girava em torno principalmente do Grupo Província, liderado por
Luís Arthur Nunes e pelo Teatro de Arena, criado por Jairo de
Andrade, mais tarde, após o fechamento, sobrevivendo como a Sala Qorpo
Santo. Ambos os espaços de criação primavam pela criação coletiva do
roteiro e pela liberdade de expressão no teatro.
Um momento
importante na vida teatral da capital gaúcha foi a montagem da peça
School’s Out pelo Grupo Vende-se Sonhos, que mesclava criação
coletiva e improvisação, criando o Teatro da Identificação e
trazendo à tona a linguagem urbana de Porto Alegre. O grupo ainda
estreitou os laços com o cinema produzido por Giba Assis Brasil e Carlos
Gerbase, como no filme Deu pra ti anos 70 e, a partir destas
experiências, surgiram os grupos Balaio de Gatos e Do Jeito
Que Dá, este último o idealizador da peça Bailei na Curva.
Assim, como dito
anteriormente, a criação de Bailei foi a culminância de um
processo de profissionalização, reflexão e criação autoral do teatro em
Porto Alegre,
perspectiva que foi influenciada pelas experimentações do Grupo
Asdrúbal Trouxe o Trambone (formado, entre outros, por Regina Casé,
Luís Fernando Guimarães, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos e pelo
diretor Hamilton Vaz), que esteve
em Porto Alegre
e deixou como resultado de seu curso a preocupação com a dramaticidade e
com a empatia popular na elaboração do roteiro.
Influenciado por
estas idéias, Bailei na curva estreou no Teatro do IPE em Porto
Alegre no dia 1º de outubro de 1983, sendo, desde então e a despeito das
mudanças no elenco, um sucesso de público e de crítica. Percorreu
diversas cidades do estado do Rio Grande do Sul e teve quase que uma
adaptação em cada estado brasileiro. Como reconhecimento da crítica foi
vencedor do tradicional Troféu Açorianos (da prefeitura de Porto Alegre)
e, como um dos símbolos da identificação do público com a peça, a
música-tema Horizontes (que consta como epígrafe desse texto),
composta por Flávio Bicca Rocha, tornou-se um sucesso nas rádios locais.
Citando as
palavras de Júlio Conte, um dos principais participantes do Grupo Do
Jeito Que Dá e diretor do espetáculo, destacamos as principais
características de Bailei na Curva:
Traçando a trajetória
de uma geração que cresceu sob o silêncio do golpe militar, Bailei
foi a voz rompendo a emoção. Aprofundou o tema da identificação, mesclou
a sátira com o engajamento, a comédia com o drama, a gargalhada com a
lágrima. Manteve a característica básica da improvisação, mas propôs uma
estrutura dramática mais complexa, buscou a articulação do cotidiano com
uma dramaturgia competente.
Bailei na curva
foi
de certa forma o clímax de um processo grupal, pois sintetizava os
acertos formais de uma geração através da criação coletiva e
acrescentava à jovialidade da encenação a maturidade temática com um
olhar crítico e emocionante sobre os anos da ditadura. Misto de denúncia
e descarga, o Bailei mostrava, ao mesmo tempo, a criatura
monstruosa de um sistema perverso e, de forma paradoxal, o criador
sobrevivendo numa insistente esperança. A história não-oficial do País,
tendo como narradores sete crianças, foi uma catarse coletiva. O maior
público da história do teatro gaúcho de todos os tempos.
Pra quem não
conhece a peça, ela mostra algumas décadas na vida de um grupo de jovens
culminando nos anos oitenta. O interessante de ver a marca temporal
acontece não somente nas falas, como também nas roupas, nas músicas, nas
imagens projetadas ao fundo.
E quando aparece a
passagem de tempo nas falas, podemos perceber os anos passando através
das modificações de gírias. Texto muito bem construído e engraçado,
elenco habilidoso que nos faz rir e chorar. Não fica cansativo nunca e
acaba com um gosto de quero mais, de querer continuar vendo, de ser tão
bom que não queremos que acabe.
Na montagem da
peça constam apenas o palco nu, algumas cadeiras e, claro, os atores. A
partir desses elementos são reconstruídas cenas da vida escolar,
familiar, amorosa e política das personagens. Tudo isso permeado pelas
experiências de uma juventude espremida entre os anos de maior
intensidade do terrorismo de Estado brasileiro e as primeiras
experiências de abertura política.
E é justamente
esse caráter do roteiro e da peça, de sintetizar a experiência e o
imaginário de uma geração e sua juventude, que nos proporciona uma
reflexão sobre as possibilidades que uma produção artística eivada de
marcas temporais tem em transpor seus significados para outros
contextos.
Esta é
uma reflexão ainda mais importante se pensarmos na utilização pedagógica
de produções artísticas como filmes, livros, músicas e mesmo peças de
teatro. Qual a pertinência do contato dos educandos com obras
reconhecidas especialmente por seu teor “histórico”? Como
sensibilizá-los para que pensem em determinada produção artística com
uma identificação crítica, desencorajando tanto um completo
estranhamento ou uma valorização acrítica da mesma, apenas por ter sido
relevante em determinado período?
Quem nunca sentiu
um aperto no coração ao assistir o musical Hair? Dois professores
da Universidade Federal de Santa Maria, do curso de Pedagogia, há alguns
anos atrás exibiram Hair para alunas que estavam ingressando no
curso. Resultado nulo, as alunas disseram não entender e nem gostar. Uma
professora do estado de Santa Catarina fez o mesmo exercício com suas
alunas do curso de Magistério: exibiu o musical para as alunas. Também
elas reclamaram do filme.
Um tempo depois, a
professora do estado e os professores universitários nos questionaram
porque achávamos que o filme não tinha trazido o efeito desejado. Ao
nosso ponto de vista, por um motivo muito claro: o significado que o
filme traz a estes professores não é o mesmo que proporciona às alunas.
Como toda a obra de arte carrega consigo marcas de seu tempo e desperta
em cada espectador sentimentos diferentes.
A geração atual
não cresceu como a nossa ouvindo críticas sobre a Guerra do Vietnã, se
para nós já se constituía enquanto um evento longínquo, imagina para uma
geração que só tem presente os conflitos com o Iraque? Como explicar o
que sentíamos ao ver aqueles jovens cantando, pedindo paz, dançando nus?
Como explicar o marco de uma geração?
Quando o filme não
é contextualizado, talvez não faça sentido nenhum exibir. Talvez para um
adolescente de dezesseis anos Bailei na curva também passe
despercebido, pois as piadas, as gírias e a roupas em nada remetem ao
tempo vivido dele. Talvez também na arte que escolhemos para nos
deleitar precisemos de um pouco de nostalgia e identificação, pois não
escolhemos uma cultura que passa.
Quando nos
debruçamos a olhar a nossa própria história, também nos damos conta do
quanto estamos atreladas a arte enquanto pertencendo a um determinado
momento significativo para nós. Quem não se lembra, de forma nostálgica,
dos seriados que passavam à tarde durante a infância, ditando moda e
modismos, dos desenhos preferidos, das novelas.
E é justo essa
sensação que nos distingue enquanto humanos, essa relação que fazemos
cotidianamente com a nossa própria temporalidade, que nos faz relacionar
fatos e até mesmo subtrair alguns que não trazem lembranças tão
glamourosas. Assim como a evocação de determinados acontecimentos é
singular, também é imperativo o esquecimento de outros. Quem de nós não
quer esquecer de algum momento da vida e extingui-lo para sempre da
memória?