Escrita
em 1973, Anti-Nelson Rodrigues contraria toda sua obra
anterior. Com o intuito de testar-se a si e o seu teatro, o autor
consegue anular-se nessa obra que faz a questão de ser contra o
próprio autor. Segundo Flávio Aguiar (2005), Anti-Nelson
Rodrigues apresenta muito do autor, embora seu desfecho seja
surpreendente. Com relação aos seus personagens, a maioria se
apresenta como o caricato da vertiginosa mudança social que ocorria
em paralelo com a conturbada situação do golpe militar.
Nelson não deixa de
revelar os caracteres mais intrínsecos e particulares do ser humano.
De um lado, Oswaldinho é despreparado para a vida adulta, atordoa
seu pai com cartas anônimas que revelam que sua esposa o trai. Da
fase “sexuante” e de obsessão pela leviandade e vulgaridade
corrupta, o amigo de Oswaldinho, Leleco desfruta do mesmo caminho,
no entanto reconhecendo “a natureza das qualidades femininas”.
(AGUIAR, 2005:83)
Como questão
autobiográfica, o autor recupera fatos da vida anterior e realiza
uma leitura das suas passagens e das experiências – no caso da peça,
a consciência desse exercício com seu “eu” e sua dramaturgia, pois
“ao eu vivido, portanto, se acrescenta um segundo eu, criado na
experiência de escritura [...]”. (Jacoby, 1997:255). O personagem
Salim Simão pertence à vida real de Nelson Rodrigues, que é seu
amigo. Na peça, a mania de perseguição do personagem fá-lo
aproveitar esse “misto de vergonha e melancolia” (AGUIAR, 2005:84)
como fato importante diante dos fatos.
Joice, filha fictícia de
Simão, é dedicada ao extremo à religião e a ideologia dos bons
costumes e do amor verdadeiro. Conforme Octávio Paz (1984), a
modernidade consiste na auto-anulação e, diante disso, Nelson
Rodrigues se espelha na criação desta personagem. Como questiona
Aguiar: “Como pode ser tão pura em meio a tanta barbárie?”. Nelson
Rodrigues é a forma esquizóide e fóbica dessa decisão entre a
liberdade extrema e o alto moralismo, ou também, da “luta por um
ideal, mesmo que individualmente concebido” (Aguiar, 2005:84). Nesse
sentido, ressalta-se que:
[...] o amor extremo e dedicado guarda sempre algo de verdadeira
patologia, uma “doença” da alma humana, frágil, em relação ao corpo
e seus vigorosos desejos, ou então aos lados ocultos do espírito,
aqueles cujos motivos são inconfessáveis para seus portadores mesmo
quando sozinhos num quarto escuro. (Ibidem, 2005:84).
Entre Joice e Nelson, ou
melhor, o anti-Nelson, há a vontade de reconhecer a força do amor e
a sua sinceridade em meio a um perturbado desejo traçado por
Oswaldinho na peça. A contrariedade do autor é representada na forma
que Joice idealiza e se entrega asquerosamente a alguém “que tentou
comprar-lhe” (Ibidem, 2005:84). Diga-se, desde já, que Joice
completa a lacuna deixada na experimentação do autor com sua peça.
Nelson constrói seu segundo “eu” ficcional na obscenidade que Joice
apresenta ao rasgar o cheque e entregar-se por um amor sem custos.
Joice incorpora o desespero do autor em “rasgar o cheque” da censura
artística e “por amor” entrega-se à sua escrita canalha e prepotente
representado por Oswaldinho, pois “para quem ama não há argumentos,
não há moral, não há história, tudo é apenas momento e desejo”.
(Aguiar, 2005:85)
Além da fragilidade
humana, Anti-Nelson Rodrigues é uma retórica ao que se pode
identificar como dual: a dupla composição do ser humano e os
caminhos do bem e do mal a seguirem movem a natureza humana e
artística e suas fraquezas extremas como a censura ou liberdade
extrema.
Embora com esse bizarro
encontro entre Nelson e o seu anti-Nelson, a peça “revela uma das
fontes da matriz conservadora do seu pensamento” (Aguiar, 2005:86),
pois:
Ao
contrário do que apregoavam os censores do seu teatro, vendo nele
obscenidades e atentados ao pudor, Nelson era um moralista severo,
fascinado pela capacidade dos seres humanos de transformar nos
piores pesadelos, sempre avassaladores, os seus melhores sonhos,
sempre inacabados. (Ibidem, 2005:85)
Com este argumento,
revela-se a ambigüidade entre a realidade e a poética de Nelson
Rodrigues. A realização feliz entre o casal Oswaldinho e Joice é a
comunhão entre o moralismo de Nelson e o amor pela sua escrita
desvairada, própria de censuras; pois tal como na vida real, tanto o
autor como o ser humano se apresentam em Anti-Nelson Rodrigues,
se auto-anulando e conquistando a modernidade.
Referência Bibliográfica:
JACOBY, Sissa. O
escritor e sua sombra. In: REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel.
Literatura Confessional: autobiografia e ficcionalidade. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1997.
PAZ, Octávio. Os Filhos
do Barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
RODRIGUES, Nelson.
Anti-Nelson Rodrigues. Roteiro de Flávio Aguiar. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2005.