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O carnaval é uma festa do disfarce, das muitas
caras, do jogo e do avesso de nós mesmos. Tudo é simulação,
engano, transformação.
Ninguém sabe sua origem ao certo porque
muitos povos têm algo semelhante com os períodos em que os
compromissos diários desaparecem e nos fantasiamos.
A palavra carnaval guarda na sua origem
(carne + navalis), ou seja, festa da carne e barcas navais de
onde se exibiam mulheres e homens nus cantando canções obscenas,
convidando a todos para os prazeres da carne. Essa festa,
registram as histórias gregas, consistiam em uma procissão com
cantos e danças, procissão esta em que se escoltava um enorme
falo, ao mesmo tempo que os participantes se apresentavam
mascarados ou disfarçados de animais.
Tudo durava seis dias e além de levar a
imagem de Dionísio, realizavam-se concursos de canções e
representavam tragédias e dramas satíricos. Festas regadas ao
vinho de Dionísio, orgias e invocações ao famoso deus com o
auxílio de um daduco (condutor das tochas).
Esta confusão toda culminava em danças
frenéticas ao som de flautas e instrumentos de corda, até que os
participantes, em embriaguez e euforia, se deitassem por terra
semidesfalecidos.
O fato é que, máscaras, carros e roupas
extravagantes completam o sucesso da festa do deus fazendo
escapar do dia-a-dia o peso dos compromissos, da mesmice, das
regras que tomam conta de todos nós.
Diante dessas pistas, configuram-se ações e
rituais de uma festa do deus da ruptura, chefe dos sátiros, das
bacantes, protótipo do homem em seu entusiasmo revolucionário,
símbolo da onipotência sexual (o falo como criador da natureza).
Dionísio é, portanto, representação da libido, do élan vital, do
impulso cego para a existência, da vontade de viver
intensamente, de amar, de dançar, enfim, de celebrar doida e
intensamente a vida e a natureza.
Essa seria uma festa poética, que guarda em
si mistérios e transgressões, encantos e subtextos indecifrados
da vida.
No Brasil, por conta de nossos
colonizadores portugueses, herdamos o entrudo por volta do
século XIX. Era uma batalha com armas e ovos de verdade, ou só a
casca de verdade, ou só a casca contendo farinha ou gesso, luvas
cheias de areia molhada, canecas de milho ou de feijão, vasilhas
com grãos que se jogavam das janelas sobre quem passava na rua.
Um festa considerada porca e medonha pela
igreja católica.
Durante o entrudo, os senhores deixavam
seus escravos soltos, podiam se mascarar e batucar à vontade,
formavam blocos e percorriam as ruas. Por volta de 1850, segundo
Joel Rufino, os senhores e suas famílias reproduziam o hábito
dos franceses do baile de máscaras, com orquestra e bebidas
finas.
Assim, os escravos aprendiam novas formas
de representar essa festa, de forma que também faziam desfiles
de ruas, só que com carroças e cavalos enfeitados. Os senhores
se organizavam em clubes para se diferenciarem dos blocos dos
escravos.
Com o tempo, as confusões do entrudo foram
perdendo sua força e saindo de moda. E o carnaval que temos hoje
em dia, segundo Joel Rufino - pesquisador do folclore brasileiro
- é filho, portanto, desses quatro folguedos: o entrudo, o bloco
de negros, o baile de grã-finos e as sociedades.
FONTES
DE CONSULTA:
PINHEIRO,
Marlene Soares. Sob o signo do carnaval. São Paulo:
ANNABLUME, 1995.
SANTOS,
Joel Rufino dos. Histórias, Editora FTD.
Imagens
www.brasilcultural.hpg.ig.com.br/.../ festas.htm
www.bertazzoli.com.br/ vinhomitos.html |