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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 02 de setembro de 2011 19:02:51                                               
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Cultura
As cerâmicas como memória de uma cultura    

Marcel Alcleante Alexandre de Sousa*

publicado em 01/11/2010

 

 

 

Resumo

O trabalho abordou a importância das artes presente nas cerâmicas da antiguidade grega. As cerâmicas foram desenvolvidas e aperfeiçoadas através das técnicas de pinturas negras e vermelhas. Esse tipo de arte mostra os sentimentos culturais de um povo. Elas nos permitem conhecer um pouco a cultura grega vivificada em simples utensílios que faziam parte de um cotidiano.

Palavras – chave: Gregos. Cerâmica. Técnica.

 

The ceramics as a memory of a Culture

Abstract

The work discussed the importance of the arts in this ancient Greek ceramics. The ceramics were developed and refined through the techniques of black and red paints. This kind of art show the cultural sensibilities of a people. They allow us to learn a little Greek culture quickened into simple tools that were part of everyday life.

Key - words: the Greeks. Ceramics. Technique.

 

INTRODUÇÃO

 

Os gregos, no decorrer da história, mostraram ter uma cultura muito vasta através de relíquias, pois artisticamente sabiam desempenhar muito bem a arte de pintar.  Aqui, buscamos resgatar um pouco desta cultura através das pinturas deixadas pelos mesmos, especificamente as que encontramos em vasos que, ao serem analisados podemos perceber os conhecimentos específicos de uma cultura. Eles, os vasos, estavam presentes constantemente na vida do povo grego. Por suas utilidades serem enormes, eles se tornaram uma das suas mais antigas relíquias artísticas.

 

Neste aspecto, muitas coisas nos deixam curiosos, fazendo com que, a contribuição de sua cultura possa despertar estudos, aprofundamentos dos conhecimentos das riquezas neles contida. Uma dessas curiosidades é se pode a cerâmica guardar a cultura de um povo, uma cultura cheia de detalhes que mostra, através de suas pequenas obras manuais, a beleza que o homem ao longo de sua história conseguiu produzir. Os vasos são vistos com muita vivacidade. Os antigos mostraram ser muito bons, ensinado que, “para chegarmos à arte, isto é, ao bem fazer é preciso o confronto com alguma coisa difícil desafiando nossa habilidade” (BUZZI, 2000, p. 210). Temos como objetivo destacar e conhecer, de uma forma sistemática, a arte grega presente nas cerâmicas, alguns aspectos desses utilíssimos utensílios, como também, ressaltar a herança cultural revivida a cada fitar. Para isso, usamos pesquisas bibliográficas. Os vasos nos permitem vivenciar os cantos de Homero, dentre eles a Odisséia e a Ilíada.

Utilizamos dois tópicos, do qual serão reunidas informações obtidas de diversos textos.

 

OS VASOS E SUAS UTILIDADES

 

Em um primeiro momento, o que nós podemos pensar acerca destes utensílios é que eles estavam, constantemente, presente na vida dos gregos. Podemos dizer que eles faziam parte das atividades, do lazer e do uso pessoal do povo antigo. Os vasos se diferenciavam em tamanho, forma e utilidade. Alguns eram compridos e não muito largos, enquanto outros compridos e largos. Alguns pequenos e compridos outros largos e pequenos. Diferenciavam-se, também, por alguns serem arredondados. Podemos distingui-los não só pela forma e tamanho, mas pela utilidade. Eram muito aproveitados para o armazenamento de mantimentos, água, comidas, azeites.

 

Usavam a ânfora e a hídria que era um jarro de armazenagem de tamanho médio, com alças dos dois lados, e uma para levantá-lo.  Era excelente para grandes quantidades de mantimentos. Nas festas elas usavam a cratera. Ela era muito usada para misturar água ao vinho e sua boca era muito larga. O jarro chamado enócoa era utilizado para armazenar uma única coisa, ou seja, eram armazenados a água ou o vinho. A kúlixou ou shúphos ou cálice era o mesmo que uma caneca e tinham a mesma função. Eram taças com duas alças. O alabastro, o aríbalo e o lécito eram usados para armazenar perfumes e óleos usados pelos homens e pelas mulheres.  Pelos homens, para os exercícios físicos, já pelas mulheres, para guardar os perfumes. Nos rituais sagrados utilizavam o vaso chamado lutróforo. Ele tinha a função de levar água para ser usada nos rituais. Essa espécie de vaso marcava o mútulo das moças que morriam solteiras.

 

Essas são algumas utilidades dos vasos na Grécia. Pois,

 

A cerâmica havia sido, por muito tempo, elevada ao status de arte destinada a monumentos, mas, desde o final do século VII a.C., placas de pedra ou estelas (do grego stêlai; singular stêlê) pintadas ou esculpidas em relevo – ou mesmo estátuas, como os koûroi – passaram a ser usadas como marcos funerários, e a cerâmica voltou a funcionar com a fornecedora de utensílios que sempre fora antes (WOODFORD, 1983, p.40).

 

Eram pintados para o uso cotidiano, embora em algum tempo tenham perdido seu espaço. Depois, retomaram sua antiga função. Esta arte vai ao longo da história, despertando dentro das criatividades humanas, um novo olhar. Não serviam apenas para guardar mantimentos, mas com o conto dos mitos, surge o desejo de representá-los, torná-los presentes não só na tradição oral, mas artisticamente, ou seja, representar aquilo que ouviam e que faziam parte de sua cultura. Eram inspirados pelos contos e cantos, seja dos poetas ou dos aedos.

 

Estas ilustres cerâmicas eram bem apreciadas, estavam prontas a servir, como já mencionamos. Mas, a partir desse serviço cotidiano, abrem-se as portas para uma nova utilidade, surgido com o desenvolvimento de técnicas. Elas não permaneceram apenas com a função de servir aos caprichos do dia-a-dia dos gregos, tomaram outros rumos, desafiando nações vindouras. Suas obras artísticas são plausíveis, pois desenvolveram técnicas muito avançadas. 

 

APLICAÇÕES DA PINTURA NOS VASOS

 

Através da arte em cerâmica os gregos conseguiram mostrar que suas artes vão além e que se renovam a partir de novas conquistas. No contexto dos poemas cantados pelos poetas, dentre eles, Homero. A vida dos heróis e dos deuses despertou nos artistas gregos o interesse por representá-los. Os próprios homens que se destacavam eram, através de técnicas de pintura, gravados. Mostravam agora;

 

[...] os valores mais elevados ganham, em geral, por meio da expressão artística, significando permanente e força emocional capaz de mover os homens. A arte tem um sentido ilimitado de conversão espiritual. E os Gregos chamavam psicagogia. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da ação educativa (JAEGER, 1989, p. 44, grifo do autor).

 

Embora Jaeger refira-se à poesia, pensamos que tal idéia pode se refletida, também na arte da pintura. Sendo assim, com esta citação podemos dizer que eles faziam arte como se estivessem vivenciando a cena pintada, gravando-as com muita habilidade. Implica certo desafio e também um envolvimento de sua alma com a pintura. Faz-nos, então, refletir que, para os gregos, a nova forma de usar os objetos estava muito mais próxima do que pensamos, até mesmo, porque a visualização demonstrada fazia com que eles se encantassem e procurassem desenvolver técnicas que fossem cada vez mais naturais. Neste aspecto, eles desenvolveram as cenas mitológicas e até mesmo, cenas cotidianas dos heróis através de uma técnica que conhecemos por figuras negras, da qual a figura era pintada em uma cerâmica de cor vermelha. Naturalmente seria a cor de origem, ou seja, o barro. As figuras eram pintadas de preto detalhadas por um objeto pontiagudo, um exemplo deste material pode ser conferido. Usaremos como exemplo uma cratera ática (fig. 1.1).

 

O tema central é a fuga de Odisseu. Percebe-se pela figura que está bem destacada a imagem do carneiro (Cf. versos 180-190 da Odisséia) tendo por debaixo um homem que retrata Odisseu, despertando a atenção de todos quanto o observe. Esta cena está no canto quarto da odisséia, narrado a seguir;

 

Eu - um carneiro mais forte que todos ali se encontrava - esse agarrei pelo dorso, e na lã da barriga escondi-me, onde fiquei, tendo o velo abundante com as mãos aferrado, sempre na mesma postura, encurvado e com muita paciência. Entre suspiros, ansiosos, a Aurora divina aguardamos (HOMERO, 2000, p. 166). 

 

Odisseu, o personagem principal gera o motivo da pintura. Esta cena acontece quando o mesmo foge do ciclope[1] Polifemo. A forma que encontrou para fugir foi saindo embaixo de uma ovelha. O ciclope por certo criava estes animais, e não seria capaz de matá-las e sim os culpados de sua cegueira. Por ser de uma técnica de pintura negra, alguns detalhes aparecem sem muito destaque.

 

Em relação aos pintores quem mais se destacou foi Exéquias, um de seus discípulos aprimorou sua técnica. Desenvolveu em sentido contrário, ou seja, as figuras seriam da cor do barro. Dentre estes aperfeiçoadores quem mais se destacou por suas geniais pinturas, foram Eufrônio e Eutimidas. Eles pintaram muito bem alguns vasos. Podemos conferir ao destacar um vaso ático (fig. 1.2) do ano 490 a.C. tendo como personagens principais Odisseu e as sereias.

 

O que se pode perceber nesta figura é que o pintor quis representar o canto doze da Odisséia, que narra o momento em que Odisseu foge do ciclope e arrisca-se no mar, pede que os tripulantes o amarrem, pois quer ouvir o canto das sereias. Percebe-se que os seus sócios estão pintados bem pequeninos, podemos conferir que Odisseu após pedir que seja amarrado pede a eles que fiquem no mastro e remem. Na figura, eles não são tão importantes como Odisseu e as sereias que artisticamente estão pintados de uma forma que chama atenção.  A narração mostra que foram atraídos (Cf. versos 180-190 da Odisséia) sendo o barco levado até as sereias que logo começam a cantar:

 

Vem para perto, famoso Odisseu, dos Aquivos orgulho, traz para cá teu navio, que possas escutar-nos. Em nenhum tempo ninguém por aqui navegou em nau negra, sem nossa voz inefável ouvir, qual dos lábios nos soa. Bem mais instruído prossegue, depois de se haver deleitado. Todas as coisas sabemos, que em Tróia de vastas campinas, pela vontade dos deuses, Troianos e Argivos sofreram, como, também, quando passa no dorso da terra fecunda (HOMERO, 2000, p. 214-215).

 

A cena pintada faz referência às sereias, da qual podemos perceber que elas são vistas metade peixes e metade pássaros. Elas eram consideradas “Demônios marinhos em parte mulheres e em parte pássaros [...]” (KURY, 2003, p. 354). Notamos que estão entrando em uma caverna ou aproximando-se de uma ilha e que Odisseu advertiu os seus que o amarrassem e logo depois cada um tampasse seus ouvidos e assim foi feito. O precioso artista tocado pelo gesto simbólico de tornar vivo algo que foi cantado faz despertar nesta figura a relação humana com os deuses gregos. Entrelaça-se, portanto, o destaque que é dado a um personagem muito importante de toda a Odisséia. Comparando com a figura negra, notamos que, a técnica de figuras vermelhas dá mais vida à figura, revesti-a da arte desafiadora deixada para nós por esses pintores.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Os Gregos, tendo sido uma das civilizações que desenvolveram técnicas em vasos, deixaram para as civilizações futuras um tesouro muito vasto e riquíssimo em recursos de pesquisa. Estando próxima de quem a estuda por seus valores filosóficos, artísticos e culturais percebemos que estão vivificados. Eles mostraram que esse desafio de gravar cenas do cotidiano e até mesmo de mitos podiam ser feitas muito bem. Com o seu desenvolvimento notamos que eles guardaram por milhões de anos a cultura do seu povo. Por fim, podemos dizer, por este momento que, este povo, conseguiu mostrar sua cultura, pois quando usaram um instrumento do dia-a-dia para gravar suas crenças, costumes deixaram para os outros povos uma representação daquilo que foram a milhares de anos atrás.

 


Figura 1.1

 

Figura 1.2

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BUZZI, Arcângelo R. A arte. In:__ .  Introdução ao Pensar: o ser, o conhecimento, a linguagem. 27. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2000, p. 210-217.

 

HOMERO.  Odisséia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p.165-167/214-215.

 

JAEGER, Werner Wilhelm. Homero como educador. In:__ . Paidéia: a formação para o homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 43-48.

 

KURY, Mário da Gama. Dicionário de Mitologia grega e romana. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2003.

 

WOODFORD, Susan. Grécia e Roma. In: Introdução à história da arte da Universidade de Cambridge. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, p 38-52.

 

 

 

Figura 1.1 – disponível em <http://www.fflch.usp.br/dh/heros/traductiones/homero/odisseia/polifemo.html >.

 

Figura ‑ 2. 2 - disponível em <http://www.minasdeouro.com.br/2009/07/01/a-odisseia/.>

 


 

* Aluno do Curso de Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: marcelalcleante@yahoo.com.br .

[1] Compreendamos o ciclope como um homem gigante que tinha apenas um único olho e que morava em uma caverna. Ele criava muitas ovelhas.  

 

Como Citar:
SOUSA, Marcel Alcleante Alexandre de. As Cerâmicas como memória de uma cultura. Partes. <www.partes.com.br/cultura/ceramicas.asp>
 
  

 

 

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Marcel Alcleante Alexandre de Sousa é Aluno do Curso de Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: marcelalcleante@yahoo.com.br

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