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AS TÉCNICAS DE PINTURA NAS
CERÂMICAS GREGAS:
aspectos introdutórios da história da arte
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Marcel Alcleante Alexandre de
Sousa
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Os gregos no
decorrer da história mostraram ter uma cultura muito vasta. Pode ser
conferido um pouco disso nos estudos provindos das relíquias que,
atualmente não passam despercebidas, pois artisticamente sabiam
desempenhar muito bem a arte de pintar. Assim, pretende-se com este
texto resgatar um pouco da cultura dos gregos através das pinturas que
revelam o modo de ser e pensar desses antigos. Nelas é possível
encontrar conhecimentos específicos da cultura de um povo.
As cerâmicas
estavam presentes no dia a dia dos gregos devido a sua imensa utilidade.
Por esse motivo, passaram a retratar nos vasos seus costumes, seus
mitos, seus sentimentos.
Esse aspecto
desperta no observador algo curioso e faz com que a contribuição da
cultura presente nos vasos desperte estudos historiográficos com a
finalidade de aprofundar os conhecimentos de tantas riquezas antigas.
Uma dessas curiosidades é saber se pode uma cerâmica guardar a cultura
de um povo. Uma cultura cheia de detalhes que mostram através de
pequenas obras manuais a beleza expressa pelo ser humano que deixou como
prova de sua existência a capacidade de produzir objetos relevantes para
o saber histórico, filosófico e cultural.
Num primeiro
contato é mostrada nos vasos uma vivacidade espetacular. Neles pode ser
percebido o quanto que os antigos se empenharam em mostrar nos
utensílios de barro sua genialidade. Fala-se assim por que não dispunham
de técnicas modernas, mas mostraram assim como afirma Buzzi (2000, p.
210) que, “para chegarmos à arte, isto é, ao bem fazer é preciso o
confronto com alguma coisa difícil desafiando nossa habilidade”. Buzzi
fundamenta a ideia de que a arte não caminha distante da ideia de ser um
bem fazer.
Mediante o
fator histórico oculto nas cerâmicas gregas objetiva-se destacar alguns
aspectos desses utilíssimos utensílios. Para isso, faz-se necessário
ressaltar a herança cultural revivida a cada fitar. Pois, eles permitem
vivenciar os cantos de Homero: Odisséia e a Ilíada. Assim,
a Grécia passará a ser observada não tanto pela tradição bibliográfica,
mas através daquilo que passa despercebida e aos nossos olhos é vulgar.
Acerca dos
utensílios, pode-se dizer que eles estavam constantemente presentes na
vida dos gregos. Eles faziam parte das atividades, do lazer e do uso
pessoal do povo antigo. No entanto, os vasos se diferenciavam em
tamanho, forma e utilidade. Alguns eram compridos e não muito largos,
enquanto outros compridos e largos. Alguns pequenos e compridos outros
largos e pequenos. Distinguiam-se não só pela forma e tamanho, mas pela
utilidade.
Eram aproveitados para o armazenamento de
mantimentos, da água, de comidas e de azeites. Usavam a ânfora e a
hídria para armazenar grandes quantidades de mantimentos. O vaso
dispunha de um tamanho médio com três alças, uma de dois lados e uma
para levantá-lo. Nas festas elas usavam a cratera. Ela era muito usada
para misturar água ao vinho e sua boca era muito larga. O jarro chamado
enócoa era utilizado para armazenar uma única coisa. Armazenavam a água
ou o vinho. A kúlixou ou shúphos ou cálice correspondia ao mesmo
que caneca. Possuíam a mesma função. Eram taças com duas alças.
O alabastro, o aríbalo e o lécito eram usados para
armazenar perfumes e óleos usados pelos homens e pelas mulheres. Pelos
homens, para os exercícios físicos. Já pelas mulheres para guardar os
perfumes. Nos rituais sagrados utilizavam o vaso chamado
lutróforo. Tinha a função de levar água para ser usada nos rituais. A
espécie de vaso citado marcava o mútulo das moças que morriam solteiras.
Tendo
conferido algumas utilidades dos vasos temos que entender que,
A cerâmica havia sido, por
muito tempo, elevada ao status de arte destinada a monumentos, mas,
desde o final do século VII a.C., placas de pedra ou estelas (do grego
stêlai; singular stêlê) pintadas ou esculpidas em relevo – ou mesmo
estátuas, como os koûroi – passaram a ser usadas como marcos funerários,
e a cerâmica voltou a funcionar como a fornecedora de utensílios que
sempre fora antes. (WOODFORD, 1983, p.40).
Os vasos sendo utilizados para
o uso cotidiano perderam seu espaço por um período curto, mas quando foi
retomada sua antiga função iniciou-se uma longa história gravada através
de técnicas de pinturas. Isso surgiu devido o desejo de inovar a partir
de um focar criativo, nas cerâmicas, o cotidiano, ou seja, as cenas que
faziam parte dos sentimentos de um povo. Não serviam apenas para guardar
mantimentos, mas com o conto dos mitos surge o desejo de representá-los,
de torná-los presente não só na tradição oral, mas artisticamente, ou
seja, representar aquilo que ouviam e que faziam parte de suas vidas.
Assim, as cenas eram inspiradas nos contos dos poetas e dos aedos.
Estas ilustres
cerâmicas eram bem apreciadas, estavam prontas a servir, como já foi
mencionado. Mas, a partir desse serviço cotidiano abrem-se as portas
para uma nova utilidade que surgem com o desenvolvimento de técnicas.
Elas não permaneceram apenas com a função de servir aos caprichos do dia
a dia dos gregos, mas tomaram outros rumos desafiando nações vindouras.
Pois, as obras artísticas são plausíveis por terem sido desenvolvidas
através de técnicas muito avançadas.
Através da
arte nas cerâmicas os gregos conseguiram mostrar que sua arte vai além e
se renovam a partir de novas conquistas. Nos poemas cantados pelos
poetas, dentre eles Homero, encontra contos sobre a vida dos heróis e
dos deuses os quais despertaram nos artistas gregos o interesse por
representá-los. Eram pintados os homens que se destacavam como, por
exemplo, Odisseu, Aquiles...
Os vasos
mostravam que;
[...] os
valores mais elevados ganham, em geral, por meio da expressão artística,
significando permanente e força emocional capaz de mover os homens. A
arte tem um sentido ilimitado de conversão espiritual. E os Gregos
chamavam psicagogia. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e
a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da
ação educativa. (JAEGER, 1989, p. 44).
Embora Jaeger
refira-se à poesia, tal ideia pode se refletida também na arte da
pintura. Sendo assim, com esta citação interpreta-se que eles faziam
esta arte como se estivessem vivenciando a cena pintada gravando-as com
muita habilidade. Implica certo desafio e também um envolvimento de sua
alma com a pintura. Faz, então, refletir que para os gregos a nova forma
de usar os objetos estava muito mais próxima do que se pode pensar,
porque a visualização demonstrada fazia com que eles se encantassem e
procurassem desenvolver técnicas que fossem cada vez mais naturais.
Neste aspecto, eles desenvolveram as cenas mitológicas e até mesmo cenas
cotidianas dos heróis através de uma técnica que conhecemos por figuras
negras da qual a figura era pintada em uma cerâmica de cor vermelha.
Naturalmente seria a cor de origem, ou seja, o barro (argila). As
figuras eram pintadas de preto detalhadas por um objeto pontiagudo, um
exemplo deste material pode ser conferido a seguir no exemplo de uma
cratera Ática (fig. 2.1).
Figura 2.1
Fonte:
www.fflch.usp.br/.../odisseia/polifemo.html. Acessado em fev. 2010.
O tema
central é a fuga de Odisseu. Percebe-se pela figura que está bem
destacada a imagem do carneiro
tendo por debaixo um homem que retrata Odisseu, despertando a atenção de
todos quanto o observe. Esta cena está no canto quarto da odisséia,
narrado a seguir:
Eu - um
carneiro mais forte que todos ali se encontrava - esse agarrei pelo
dorso, e na lã da barriga escondi-me, onde fiquei, tendo o velo
abundante com as mãos aferrado, sempre na mesma postura, encurvado e com
muita paciência. Entre suspiros, ansiosos, a Aurora divina aguardamos. (HOMERO,
2000, p. 166).
Odisseu
é o personagem principal e foi à causa da pintura. Esta cena acontece
quando o mesmo foge do ciclope
Polifemo. A forma que encontrou para fugir foi saindo embaixo de uma
ovelha. O ciclope por certo criava estes animais, e não seria capaz de
matá-las e sim os culpados de sua cegueira.
Por ser de uma
técnica de pintura negra, alguns detalhes aparecem sem muito destaque.
Já em
relação aos pintores, quem mais se destacou foi Exéquias e um de seus
discípulos aprimorou sua técnica desenvolvendo-a em sentido contrário,
ou seja, as figuras seriam da cor do barro. Dentre estes aperfeiçoadores
quem mais se destacou por suas geniais pinturas, foram
Eufrônio
e Eutimidas. Podemos conferir ao destacar um vaso ático (fig.
2.2) do ano 490 a.C. tendo como personagens principais Odisseu e as
sereias.

Figura 2.2
Fonte:
minasdeouro.com. br/2009/07/01/a-odisseia/.
Acessado em fev. 2010.
O que se
pode perceber nesta figura é que o pintor quis representar o canto doze
da Odisséia, que narra o momento em que Odisseu foge do ciclope e
arrisca-se no mar. Na cena Odisseu pede aos tripulantes que o amarrem,
pois se ouvisse o canto das sereias, e se fosse enfeitiçado por elas,
morreria (Cf. PIERRE, 2002, p. 17). Os
tripulantes estão pintados pequenos devido à ênfase dada a Odisseu o
qual após pedir que seja amarrado pede a eles que fiquem no mastro e
remem. Na figura, os tripulantes não são tão importantes como Odisseu e
as sereias que artisticamente estão pintados de uma forma que chama
atenção. A narração mostra que foram atraídos
sendo o barco levado até as sereias que logo começam a cantar:
Vem para perto, famoso
Odisseu, dos Arquivos orgulhoso, traz para cá teu navio, que possas
escutar-nos. Em nenhum tempo ninguém por aqui navegou em nau negra, sem
nossa voz inefável ouvir, qual dos lábios nos soa. Bem mais instruído
prossegue, depois de se haver deleitado. Todas as coisas sabemos, que em
Tróia de vastas campinas, pela vontade dos deuses, Troianos e Argivos
sofreram, como, também, quando passa no dorso da terra fecunda. (HOMERO,
2000, p. 214-215).
A cena pintada
referenciando as sereias da qual são vistas metade peixes e metade
pássaros eram consideradas “Demônios marinhos em parte mulheres em
pássaros [...]” (KURY, 2003, p. 374). O que
está visível é que estão entrando em uma caverna ou aproximando-se de
uma ilha. Odisseu advertiu os seus que o amarrassem e logo depois cada
um tampasse seus ouvidos e assim foi feito.
O precioso
artista tocado pelo gesto simbólico de tornar vivo algo que foi cantado
faz despertar nesta figura a relação humana com os deuses gregos.
Entrelaça-se, portanto, o destaque que é dado a um personagem muito
importante de toda a Odisséia. Comparando com a figura negra, notamos
que, a técnica de figuras vermelhas dá mais vida à figura, revesti-a da
arte desafiadora deixada para nós por esses pintores.
Os Gregos,
tendo sido uma das civilizações que desenvolveram técnicas em vasos
deixaram para as civilizações futuras um tesouro muito vasto e
riquíssimo em recursos de pesquisa. Estando próxima de quem a estuda
despertam valores filosóficos e históricos, porque mostraram que esse
desafio de gravar cenas do cotidiano e até mesmo de mitos podiam ser
executados racionalmente.
Não se deseja
menosprezar algumas culturas, mas o desenvolvimento da pintura grega
guardou por milhões de anos o jeito original de um povo. E não só isso,
mas um trabalho muito avançado para um período tão distante.
CanceReferências
Bibliográficas
BUZZI, A. R.
Introdução ao Pensar: o ser, o conhecimento, a linguagem. 27. ed.
Rio de Janeiro: Vozes, 2000.
HOMERO.
Odisséia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro,
2000.
JAEGE, W. W.
Paidéia: a formação para o homem grego. Tradução de Artur M.
Parreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
KURY, Mário da
G. Dicionário de Mitologia grega e romana. 7. Ed. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar. 2003.
PIERRE,
Vidal-Naquet. O mundo de Homero. Tradução de Jônatas Batista
Neto. São Paulo: Companhia das letras, 2002.
RIBEIRO JR., W. A. O
formato dos vasos gregos. Portal Grécia Antiqua. São Carlos, 1988
atualizado em 2008. Disponível em:
www.greciantiga.org/img/index.asp?num=0023.
Acesso em: 7 jun. 2009.
WOODFORD,
Susan. Grécia e Roma. In: Introdução à história da arte da
Universidade de Cambridge. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de
Janeiro: Zahar, 1983.
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