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RESUMO:
Reflete-se neste ensaio a natureza da mensagem publicitária enquanto
discurso persuasivo, no plano da expressão plástico-imagética “Chica
da Silva”, da Duloren. Pretende-se discutir a dimensão
figurativa mimética, a atividade sensorial, do nível sensível ao
axiológico, a partir da discursivização da sedução e da construção de
sentidos.
PALAVRAS-CHAVE:
Semiótica; Construção de sentidos; Plano de expressão; Plano de
Conteúdo; Nível sensível.
ABSTRACT:
This article reflects the publicity while convenient discourse,
observing the plane of the plastic-illustrated expression in the
advertisement “Chica da Silva”, da Duloren. Pretend to discuss the
figurative dimension mimetic, between sensorial activity, in the
perceptile level at axiologic is based on the seduction discourse and
construction of the meaning.
KEYWORDS:
Semiotic; Perception; Construction of the meaning; Seduction; Perceptile
level.
Tem este texto o objetivo de tecer considerações acerca dos
planos de expressão e de conteúdo para a tentativa de se construir
sentido em um texto publicitário, cujo escopo é a sedução para comprar,
nos moldes da retórica: “a arte de persuadir”, e descobrir por que meios
um discurso é persuasivo, para além da cultura semiótica. No plano
racional, sobressaem-se os três argumentos, nos moldes aristotélicos,
que servem como instrumentos de persuasão: o ethos e o pathos
(de caráter afetivo da persuasão) e o logos (raciocínio que
constitui o elemento propriamente dialético da retórica). E para essa
compreensão, lembramos Geertz (1978: 15), quando ressalta o conceito de
cultura semiótica, afirmando que o conceito que defende é essencialmente
semiótico, pois que o homem é um animal amarrado a teias de significados
que ele mesmo teceu, e assume a cultura como sendo essas teias e a sua
análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis,
mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.
CHICA DA SILVA
Figura do populário brasileiro, a negra Chica da Silva ficou
famosa pelo poder que exerceu, em plena escravatura, no arraial do
Tijuco, mais tarde a cidade mineira de Diamantina. Francisca da Silva
nasceu em data e local ignorados. Antiga escrava de José da Silva e
Oliveira, foi libertada a pedido do contratador de diamantes João
Fernandes de Oliveira, de quem tornou-se amante quando já tinha dois
filhos. Atendida em todos os desejos pelo riquíssimo contratador, vivia
num magnífico edifício em forma de castelo, construído nas encostas da
serra de São Francisco, que dispunha de capela particular e de um teatro
completamente equipado, no qual Chica promovia bailes e representações.
Na chácara, que incluía jardins, cascatas e fontes artificiais, um
grande lago continha um navio em miniatura, capaz de abrigar de oito a
dez pessoas e destinado a diminuir a tristeza de sua dona por nunca ter
conhecido o mar. Chica vestia-se como uma rainha, sempre coberta de
jóias. Tratava os portugueses com desprezo e mandava castiga-los por seu
escravo Cabeça. Em seu testamento, datado de 1770, declarou ter quatorze
filhos. Sua vida, transfigurada pela lenda, inspirou a Antônio Calado a
peça teatral O Tesouro de Chica da Silva (1959) e foi tema de um
filme brasileiro de sucesso, Chica da Silva, sobre um romance de
João Felício dos Santos, dirigido por Carlos Diegues, com Zezé Mota no
papel principal. Chica da Silva morreu em 1796 (NOVA ENCICLOPÉDIA BARSA,
2001 : 275).
No plano da expressão plástica, o anúncio que nos serve como referência
faz parte de uma campanha desenvolvida para a Duloren, na Revista
Veja, 1573, de 1999. Ele traz a imagem de uma mulher negra, mimetizando
a personagem Chica da Silva, (Séc. XVIII),que exibe o seu
belíssimo corpo jovem seminu. Sua silhueta se recorta contra o pano de
fundo de um fim de dia azulado, límpido e sem nuvens no céu. A imagem é
complementada por um texto, cujo discurso diz: “Adorava bater em homem”.
Para conhecer a persona, Chica da Silva, uma escrava que levava
vida de rainha, em Diamantina, Minas Gerais. Tratava os portugueses com
desprezo e mandava espancá-los. Homenagem da Duloren às mulheres
que, com a cara e a coragem, mudaram a história do seu tempo. Numa frase
de efeito, lê-se: “Você não imagina do que uma Duloren é
capaz”. Comparando, dessa forma, que toda mulher que usar Duloren
é destemida, forte, cobiçada como Chica da Silva e que a
lingerie se faz sempre moderna, atual, confortável, provocativa
desde 1770 aos nossos dias.
As principais distribuições de cores encontram-se na lingerie da
mulher, cuja combinação, fortemente dominante, é o azul marinho,
bastante imponente e que se contrasta com o azul do céu, num tom mais
claro. Nos adereços de seu corpo há um par de brincos em ouro e pérola;
uma tiara, um colar, quatro braceletes amarelo-ouro, simbolizando o ouro
de Minas Gerais. O céu é, acentuadamente azul, indicando claridade e
ausência de qualquer elemento oponente. Há, atrás da mulher, a
insinuação de uma montanha, simbolizando as encostas da serra de São
Francisco, em Diamantina, onde morava a escrava-rainha. E, como um dos
elementos bastante significantes, há o chicote em sua mão esquerda, para
ilustrar a frase “Adorava bater em homem.” Sabemos que o braço esquerdo
protege o coração do guerreiro e, no anúncio, percebe-se que a
personagem levanta o braço esquerdo metaforizando a chibata, o domínio
sobre os homens, tudo porque usa Duloren.
Na lingerie, acaso não é o azul a cor do pássaro da felicidade,
inacessível , embora tão próximo? Entrar no azul é um pouco passar para
o outro lado do espelho, com Alice (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2000 : 107).
O azul é o caminho da divagação, e quando ele se escurece, de acordo com
sua tendência natural, torna-se o caminho do sonho. No anúncio, a cor
azul está associada à frieza e à impassividade de Chica da Silva.
Naquela cor, o olhar consciente vai cedendo lugar ao inconsciente, do
mesmo modo que a luz do dia vai se tornando insensivelmente a luz da
noite, o azul da noite qual a fotografia da mulher. A cor azul,
aplicada a um objeto, é o caminho do infinito, onde o real se
transforma em imaginário, nos moldes de Luiz Costa Lima (1989:47) “a
imaginação é pois uma força mais primitiva; já Leyla Perrone-Moisés
(1990:16), citando Sibony, diz que “seduzir alguém é, através de certo
jogo, reavivar a fantasia de dispor de uma linguagem”. Daí, vê-se que há
um jogo de sedução para que as mulheres possam invejar Chica da Silva
e usar Duloren também. Diz, ainda, que a linguagem não é só meio de
sedução, é o próprio lugar da sedução com início, meio e fim. Que o
seduzido, as mulheres, ficarão fascinadas por aquele lingerie, é
certo. O seduzido tenta compreender a transformação que se deu nele ao
mesmo tempo em que tenta entender o poder do “olhar da sedução”
(NOVAES, 1988). Chica da Silva situa-se numa linha
carnavalizante, possuída de desejo irrefreável de liberdade para bater
em homem. Poderíamos concluir afirmando a tendência carnavalizada
(BAKHTIN, 1987) no sentido mais amplo, que valoriza os elementos
transgressores do “cânone” e absolve os marginais, os negros, os
escravos, os homossexuais, até mesmo as prostitutas, numa ostensiva
oposição às virtudes do herói tradicional.
A cor do ouro que aqui se faz representar através dos braceletes,
da tiara, dos brincos e do colar abre caminho à luz de ouro que exprime
a vontade dos deuses, o ouro é considerado na tradição como o mais
precioso dos metais, é o metal perfeito, é o metal divino, símbolo do
conhecimento, símbolo da imortalidade para os brâmanes. Assim, como a
imortalidade de Chica da Silva, escrava que levava vida de
rainha, no século XVIII, em Diamantina, e que tratava os portugueses que
a desejavam, com desprezo, mandando espancá-los, ou “espancando” ela
mesma com o seu chicote “erótico” (?). Consoante Chevalier (id. Ibidem:
670), “o colar de ouro representa as palavras secretas e poderosas”.
Ordena que os espanque. “Os”, aqui representa os
portugueses. Na tradição grega, o ouro evoca o Sol e toda a sua
simbólica fecundidade — riqueza — dominação, centro de
calor-amor-dom, foco de luz — conhecimento, brilho. Assim, Chica da
Silva fez-se símbolo, fez-se mito. Mito de fecundidade, mito de
riqueza, mito de dominação dos homens. Por isso, o ouro é símbolo de
perversão, de exaltação impura dos desejos (CHEVALIER apud DIES: 172),
uma materialização do espiritual e do estético.
O Chicote, elemento significativo nesta discussão, representa o
símbolo do poder e de seu direito de infligir castigos. Por isso,
frequentemente encontram-se ritos de autofustigação (açoitar, maltratar)
nas sociedades iniciáticas. Numa estrutura visual, a mulher é
focalizada de baixo para cima, como se indicasse a grandiosidade da
mulher que usa Duloren, enquanto estende o seu dedo indicador
para baixo, como se ordenasse aos subordinados que abaixassem, que se
vissem aos seus pés, e ainda usa o dedo indicador, que para os dogons, é
index, é o dedo do senhor da palavra, é o dedo do juízo, da decisão, do
equilíbrio, do silêncio, do autodomínio. Seria Chica da Silva uma
deusa da dominação ou uma meretriz ? Não importam os signos vário deste
vocábulo, porém o que representa é a beleza de uma mulher negra do
século XVIII, que “Adorava bater em homem”. E se impor aos homens,
aqui, no sentido de se inspirar e de se infundir a eles, pois sua
figurativização impõe respeito. Há, em todo o anúncio, um discurso
intertextual que avança num bivocalismo concretizando-o num embricamento
de vozes.
Segundo o modelo greimasiano, o percurso da construção do sentido
intertextual, que se triparte nos níveis fundamental, narrativo e
discursivo representa a construção de sentido do próprio discurso. O
discurso corresponde ao plano do conteúdo, portanto, ainda permanecendo
no subsolo do sentido. Somente quando se considera o conteúdo
manifestado no plano da expressão é que desponta o texto, que pode ser
visto como a manifestação sígnica verbal e individual. Greimas
(1989:461) propõe que se pense em texto não apenas como o ponto de
chegada do percurso gerativo total, mas como uma possibilidade
expressiva que se pode ocorrer em qualquer patamar desse percurso, desde
que aí aconteça uma interrupção. Sempre que o percurso gerativo é
interrompido, ele dá lugar à textualização (linearização e junção com o
plano da expressão). O texto, quando chega ao plano da expressão, não se
prende, é bom que se acrescenta, a um único tipo de manifestação sígnica.
Isso se dá porque o discurso é social, é “o lugar das coerções sociais,
enquanto o texto é o espaço da ‘liberdade’ individual “(FIORIN, 1988 :
42). É bom que se acrescente que Bakthin reforça as aspas da palavra
“liberdade” ao afirmar que todo o produtor da ideologia leva consigo o
selo da individualidade do seu ou dos seus criadores, mas este selo é
tão social quanto todas as outras particularidades e signos distintivos
das manifestações ideológicas. Assim, todo signo, inclusive o da
individualidade, é social” (BAKHTIN, 1988 : 59).
A fim de melhor promover o signo da individualidade para se transformar
um uso da coletividade, a “Duloren”, o anúncio, passa da
informação à persuasão. A descrição das características das peças
íntimas se anula cedendo lugar a mecanismos de persuasão. Há, dessa
forma, na estruturação da mensagem, um deslocamento da ênfase do
produto para o destinatário. O anúncio se coloca do ponto de vista do
receptor, visando a exercer sobre ele um efeito persuasivo e obtendo,
na maior parte das vezes, um consenso emotivo. O anúncio objetiva
persuadir para criar condições de venda. Não há, na criação,
inconsciência quanto aos recursos utilizados ou quanto aos seus efeitos
sobre os receptores.
A compreensão da publicidade como uma formação discursiva, de imediato
nos situa nos domínios da retórica de Aristóteles (1959), que definiu “a
retórica como a faculdade de descobrir teoricamente o que, em cada caso,
pode ser apropriado à persuasão”. Daí, é bom esclarecer que tal
afirmação reporta ao discurso enquanto efeito persuasivo, pois todo
discurso comporta algo de persuasivo e persuadir alguém significa
induzi-lo a crer no que se diz. Dessa forma, consideramos Chica da
Silva um discurso fundador, pois ele constitui o ponto de
referência nessa rede intertextual e representa, ao lado da História do
Brasil, um mito impar; incorporando e re-significando uma tradição. O
anúncio ora analisado apresenta uma narrativa em que o referente
trata-se de persona re-conhecida e digna de confiança (e ousadia)
do grupo a que se destina o lingerie. O que se pretende é uma
extensão, à imagem da marca, das características daquela usuária
especial. Igual, temos Pelé, protótipo do brasileiro sadio, desportista
e bem sucedido, anunciando vitaminas. Rubens Barrichello, vice-campeão
mundial de automobilismo, respondendo pela qualidade de pneus, óleos
lubrificantes e mesmo instituições financeiras. Dessa forma, nada melhor
do que uma belíssima mulher jovem, pele acobreada, contornos bem
delineados para assegurar a beleza e o conforto e a comodidade do
lingerie. O efeito persuasivo dessa forma de raciocínio levaria o
receptor a inferências, tais como “se pessoas como estas usam tal
produto por que não usá-lo eu também?” Trata-se de um processo de
adesão, com implicações muito mais complexas que o simples uso do
produto, por envolver aspectos inconscientes e mesmo pré-conscientes de
idealização do eu.
Metáfora e metonímia se constituem num processo de significação, como
também na proposta final de decodificação para o leitor. O anúncio se
constrói a partir desses dois processos básicos, que nele são utilizados
no sentido de atribuir valor aos produtos ou marcas. A campanha de
Duloren: — “Você não imagina do que uma Duloren é capaz” — procura
criar uma relação metafórica entre Chica da Silva e Duloren,
emprestando de Chica da Silva a cara e a coragem de mudar
a história do seu tempo, o poder e a flexibilidade. Tudo isso subjaz a
uma sensação de calma, tranquilidade e determinação de um feminino do
século XVIII. O anúncio estrutura-se, metonimicamente, em torno de um
componente de brasilidade: a cor mulata acobreada. Essa idéia
de brasilidade, semanticamente, contamina o produto, integrando-o a
elementos que são preferência nacional. O lingerie torna-se,
então, tão brasileira quanto a cor da mulata que contracena com a
natureza naquela tessitura imagética. O produto é colocado em estado
de narração sob a forma de uma importante personagem da história do
Brasil, na época da escravidão, ainda que tinha sido uma escrava que
“levava vida de rainha”, no século XVIII e que, ainda, “tratava os
portugueses com desprezo e mandava espancá-los”. Percebe, no entanto,
que no nível axiológico revela liberdade, coragem, ousadia e
determinação da mulher que usa Duloren. A metáfora permite,
particularmente ao nível da imagem, a transmissão instantânea e
concretizada do valor exaltado que se sobrepõe aos demais atributos do
objeto, um destaque maior ao metaforizante (valor) que ao metaforizado
(produto), fazendo com que, muitas vezes, “o comparante se torne o
‘sujeito’ pictórico do manifesto” (PÉNINOU, 1976 : 118).Por isso, a
imagem de Chica da Silva, no anúncio, é o elemento que
melhor realiza o trabalho de condensação. Ela compacta as significações,
permitindo a transmissão de um volume elevado de informações, numa
linguagem sintética que se encontra ao tentar transpor em palavras
todas as significações e sugestões a ela subjacentes.
Quanto à função emotiva, o emocional é decorrente do efeito persuasivo,
mensagem centrada no emissor. O emissor é representado pelo narrador ou
pela personagem que se dirige ao receptor, constituindo-se no que
Benveniste denomina discurso. A imagem se faz interpelante; há uma
representação mais ou menos ostensiva, um comércio entre a personagem
imagética (Chica da Silva) e a leitora (usuária) a que ela se dirige. O
anúncio está num dos níveis de enunciação em que há uma representação da
sociedade de consumo e se constitui na dimensão menos perceptível e, por
isso mesmo, mais complexa do discurso publicitário. À beleza e sedução
do jogo das imagens, cores, formas e objetos, subjaz uma visão do mundo,
uma proposta de relação do consumidor consigo mesmo, com os objetos
e as pessoas, com a própria estrutura social, enfim. O consumidor
segue o melodioso conto e, imperceptivelmente, deglute o que lhe é
apresentado. É o jogo da semiótica estabelecendo comunicação, através
de sinais outros. Sendo assim, Chica da Silva metaforiza esse
aspecto sedutor e envolvente do discurso publicitário enquanto jogo
semiótico da comunicação. Também aqui, atrás do doce olhar, da beleza
visual e da promessa de realização do desejo, há um discurso que envolve
e entorpece, que implica a descaracterização individual e cultural, a
perda da identidade e, portanto, a morte. No lugar mais profundo do
encontro com o “outro”, fiz a minha travessia.
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Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Mestre em Letras:
Literatura Brasileira (UFMG). Professora Titular de Literaturas de
Expressão Portuguesa, no Curso de Letras e na Pós-graduação em
Letras/Literatura Brasileira da Universidade Estadual de Montes
Claros-MG. E-mail: generosas@hotmail.com
Como citar esse artigo
Como citar este
texto:
SOUTO, M.G.F.
CHICA DA SILVA
E DULOREN: PLANO DE EXPRESSÃO E PLANO DE CONTEÚDO NA CONSTRUÇÃO DO
SENTIDO DE MITO.
Montes Claros,
2009.
P@rtes.
(São Paulo). Outubro de 2009.
ISSN 1678-8419.
Disponível em <www.partes.com.br/educação/visaosaussuriana.asp>.
Acesso em _/_/_.
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