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ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 08 de março de 2009 19:01:57                                               

 
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CULTURA  CINEMA

"Apenas Um Sonho”... Mas Poderia Ter Sido Diferente

 

Fernanda Gabriela Soares dos Santos*[1] e Icaro Bittencourt **

publicado em 07/03/2009

 

 

“Quantos amores jurados pra sempre?

Quantos você conseguiu preservar?”

Oswaldo Montenegro

 

Quantos de nós não vivemos um amor que parecia eterno? Quantos de nós não imaginamos esse sentimento enquanto intocado? E, um belo dia, descobrimos que as coisas não ficariam tal como imaginávamos? Como então suportar a dor? Agüentar um cotidiano que já não se mostra tão colorido como nos primeiros dias de ardente paixão? Qual o segundo passo?

 

 

 

 Esse é o enredo do interessantíssimo “Apenas um sonho” (Revolutionary Road), protagonizado pelo bonito casal Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Exatamente a mesma dupla que emocionou platéias em Titanic, hoje volta na sua melhor fase, ambos adultos, com uma beleza madura e já com requintes de interpretação.

 

 

Nas palavras de uma pessoa muito querida, DiCaprio quase a consegue acompanhar, pois Kate Winslet, diga-se de passagem, rouba todas as cenas. Quem não se identifica com a jovem que tentou um futuro como atriz e agora se vê presa aos afazeres domésticos e aos cuidados com a prole?

 

  

 

A atmosfera que paira é sempre pesada. Fulgura um ar de insatisfação dos olhos, do cigarro sempre entre os dedos e até mesmo da falta de riso com a vida. A protagonista não cabe nos papéis impostos: ser mãe, já não é plena garantia de felicidade. Acrescenta-se ainda ser dona-de-casa e esposa, para quem não coloca esses desejos em primeiro plano.

 

 

O marido, por sua vez, também não demonstra plena satisfação com a vida que levam: trai a esposa com suas colegas de trabalho. De repente, a esposa lembra de como o marido gostou da viagem que fez a Paris e propõe que larguem tudo e tentem a vida em Paris.

 

 

 

Lá, haverá uma troca de papéis: a esposa trabalhará para prover a família ao passo que o marido poderá ficar em casa cuidando das crianças até efetivamente saber o que deseja fazer. A escolha é anunciada aos amigos, vizinhos, colegas de trabalho, com um ar de comemoração.

 

 

Contudo, um pequeno detalhe surge ao longo desse sonho: a esposa desconfia estar novamente grávida. Uma nova gestação não só atrapalharia a mudança como também dificultaria a vida financeira da família. A esposa passa a questionar sobre a real necessidade de dar a luz a uma terceira criança, uma vez que o casal já tem dois filhos.

 

 

E talvez seja justo nessa discussão que entendamos o título do filme. Como largar tudo e tentar uma vida nova com uma criança a caminho? Ter ou não o filho? Vale a pena correr o risco de um aborto clandestino? Proposição essa de imediato rechaçada pelo marido, o qual coincidentemente recebeu uma proposta interessante no trabalho.

  

E a tensão entre os dois, já existente, parece se potencializar. A esposa já não tem paciência nem afetividade com o marido e não se importa quando esse lhe conta de suas traições. O amor que talvez um dia houvesse existido ficara perdido em algum lugar do caminho... 

 

 

 No dia em que a esposa decide então fazer o aborto é carinhosa com o marido, questionando-lhe qual a maneira que ele gostaria de comer os ovos. Prepara-lhe docemente o café. Trata-o com uma interminável ternura e quem imaginaria que seria a última vez?

 

 

Além da discussão em torno do aborto, que por vezes parece secundária tamanha a infelicidade que podemos sentir nos passos do casal, também a questão do casamento e dos papéis nos servem de análise. Quando o casamento termina? Por que somos obrigados a ficar com alguém que já não amamos?

 

 

 

Não aprendemos com o poeta que o único tempo de ser eterno é enquanto durar? Como conseguimos deixar nossas vidas dessa maneira? Lógico que o filme não é contemporâneo, falar de separações agora não soa como falar há duas décadas atrás, quiçá há mais tempo?

 

 

Segundo o recente comentário de um amigo psicanalista, do qual nos parece muito pertinente, a questão central é o que se espera hoje de um casamento. Nossos avós casavam porque tinham que casar. Casamento era a porta de entrada para se ter filhos, constituir uma família feliz e independente do que acontecesse viver juntos para sempre. Felicidade, cuidado, respeito, companheirismo, não estavam necessariamente relacionados à idéia de casamento.

 

 

 

São as gerações recentes que vão colocar essa proposta inicial em xeque, mas já se configurando um outro tipo de relação. E os possíveis novos contornos das relações amorosas no mundo contemporâneo parecem estar vinculados, apesar de algumas especificidades, com um problema fundamental e mais abrangente do processo de amadurecimento pessoal: a necessidade de que o sujeito se identifique com aquilo que cria e com as relações que estabelece, tanto com as pessoas à sua volta, quanto com suas expectativas diante da vida, envolvendo a realização e a frustração das mesmas. 

 

 

Como salientado anteriormente, o descontentamento das personagens refere-se a diversos aspectos da vida, como o trabalho, o desejo ou não de ter filhos e a incerteza sobre o amor. Além disso, circunstâncias aparentemente externas à vida do casal, como as pressões feitas pelo dinheiro (representado pela corporação no qual o protagonista trabalhava) e pelas famílias e demais pessoas com as quais conviviam na cidade, configuraram um contexto de angústia e permanente indecisão no qual marido e mulher tentavam reproduzir e/ou transformar seu casamento. 

 

 

 Nesse sentido, parece que a relação entre os dois deteriora-se na medida em que as contradições entre as expectativas passadas, presentes e futuras não são mais compartilhadas pelo par, redundando num diálogo bastante precário e que, na maioria das vezes, intensificava ainda mais a discordância entre os cônjuges. Desse modo, estar juntos não significava mais a possibilidade de uma mudança pessoal satisfatória que acompanhasse seus desejos e aspirações que, por diversos motivos e causas específicas, não eram mais aqueles que, no momento da união, foram compartilhados.

 

 

Por isso, parece que o grande desafio das relações amorosas hoje, se não em outras épocas também, é conciliar os processos e os projetos de amadurecimento pessoal de cada um dos membros do casal com as transformações inevitáveis que acontecem na sociedade e nos indivíduos, neste último caso, também em termos psicológicos.

 

 

 

Uma relação amorosa duradoura pode estar mesmo calcada no aprimoramento de uma “arte de viver”, a partir da qual homens e mulheres pensem seu vínculo amoroso como fazendo parte de um conjunto maior de experiências subjetivas e sociais e não como uma relação de posse e subordinação. A autonomia sempre é fundamental, mas quando ela é vista de formas diferentes pelos membros de um casal, dificilmente a relação entre eles será saudável e se tornará perene. Se isso acontecer, muita coisa pode ser perdida, como parece ser o caso do casal protagonista do filme e dos outros casais coadjuvantes que, na narrativa do filme, parecem apenas esconder os problemas que o casal Wheeler transparecia de forma angustiante.

 

 

 


 

 * Professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS e mestranda em Educação pelo PPGE/UFSM- fernandagssantos@yahoo.com.br

** Graduado em História-Licenciatura Plena e Bacharelado pela UFSM e mestrando em História pela UFRGS. Bolsista do CNPQ – icarohistoria@gmail.com 

  

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