“Quantos amores jurados pra sempre?
Quantos você conseguiu preservar?”
Oswaldo Montenegro
Quantos
de nós não vivemos um amor que parecia eterno? Quantos de nós não
imaginamos esse sentimento enquanto intocado? E, um belo dia,
descobrimos que as coisas não ficariam tal como imaginávamos? Como então
suportar a dor? Agüentar um cotidiano que já não se mostra tão colorido
como nos primeiros dias de ardente paixão? Qual o segundo passo?

Esse é o
enredo do interessantíssimo “Apenas um sonho” (Revolutionary Road),
protagonizado pelo bonito casal Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.
Exatamente a mesma dupla que emocionou platéias em Titanic, hoje volta
na sua melhor fase, ambos adultos, com uma beleza madura e já com
requintes de interpretação.
Nas
palavras de uma pessoa muito querida, DiCaprio quase a consegue
acompanhar, pois Kate Winslet, diga-se de passagem, rouba todas as
cenas. Quem não se identifica com a jovem que tentou um futuro como
atriz e agora se vê presa aos afazeres domésticos e aos cuidados com a
prole?

A
atmosfera que paira é sempre pesada. Fulgura um ar de insatisfação dos
olhos, do cigarro sempre entre os dedos e até mesmo da falta de riso com
a vida. A protagonista não cabe nos papéis impostos: ser mãe, já não é
plena garantia de felicidade. Acrescenta-se ainda ser dona-de-casa e
esposa, para quem não coloca esses desejos em primeiro plano.
O marido,
por sua vez, também não demonstra plena satisfação com a vida que levam:
trai a esposa com suas colegas de trabalho. De repente, a esposa lembra
de como o marido gostou da viagem que fez a Paris e propõe que larguem
tudo e tentem a vida em Paris.

Lá,
haverá uma troca de papéis: a esposa trabalhará para prover a família ao
passo que o marido poderá ficar em casa cuidando das crianças até
efetivamente saber o que deseja fazer. A escolha é anunciada aos amigos,
vizinhos, colegas de trabalho, com um ar de comemoração.
Contudo,
um pequeno detalhe surge ao longo desse sonho: a esposa desconfia estar
novamente grávida. Uma nova gestação não só atrapalharia a mudança como
também dificultaria a vida financeira da família. A esposa passa a
questionar sobre a real necessidade de dar a luz a uma terceira criança,
uma vez que o casal já tem dois filhos.
E talvez
seja justo nessa discussão que entendamos o título do filme. Como largar
tudo e tentar uma vida nova com uma criança a caminho? Ter ou não o
filho? Vale a pena correr o risco de um aborto clandestino? Proposição
essa de imediato rechaçada pelo marido, o qual coincidentemente recebeu
uma proposta interessante no trabalho.
E a
tensão entre os dois, já existente, parece se potencializar. A esposa já
não tem paciência nem afetividade com o marido e não se importa quando
esse lhe conta de suas traições. O amor que talvez um dia houvesse
existido ficara perdido em algum lugar do caminho...

No dia em
que a esposa decide então fazer o aborto é carinhosa com o marido,
questionando-lhe qual a maneira que ele gostaria de comer os ovos.
Prepara-lhe docemente o café. Trata-o com uma interminável ternura e
quem imaginaria que seria a última vez?
Além da
discussão em torno do aborto, que por vezes parece secundária tamanha a
infelicidade que podemos sentir nos passos do casal, também a questão do
casamento e dos papéis nos servem de análise. Quando o casamento
termina? Por que somos obrigados a ficar com alguém que já não amamos?
Não
aprendemos com o poeta que o único tempo de ser eterno é enquanto durar?
Como conseguimos deixar nossas vidas dessa maneira? Lógico que o filme
não é contemporâneo, falar de separações agora não soa como falar há
duas décadas atrás, quiçá há mais tempo?
Segundo o
recente comentário de um amigo psicanalista, do qual nos parece muito
pertinente, a questão central é o que se espera hoje de um casamento.
Nossos avós casavam porque tinham que casar. Casamento era a porta de
entrada para se ter filhos, constituir uma família feliz e independente
do que acontecesse viver juntos para sempre. Felicidade, cuidado,
respeito, companheirismo, não estavam necessariamente relacionados à
idéia de casamento.
São as
gerações recentes que vão colocar essa proposta inicial em xeque, mas já
se configurando um outro tipo de relação. E os possíveis novos contornos
das relações amorosas no mundo contemporâneo parecem estar vinculados,
apesar de algumas especificidades, com um problema fundamental e mais
abrangente do processo de amadurecimento pessoal: a necessidade de que o
sujeito se identifique com aquilo que cria e com as relações que
estabelece, tanto com as pessoas à sua volta, quanto com suas
expectativas diante da vida, envolvendo a realização e a frustração das
mesmas.
Como
salientado anteriormente, o descontentamento das personagens refere-se a
diversos aspectos da vida, como o trabalho, o desejo ou não de ter
filhos e a incerteza sobre o amor. Além disso, circunstâncias
aparentemente externas à vida do casal, como as pressões feitas pelo
dinheiro (representado pela corporação no qual o protagonista
trabalhava) e pelas famílias e demais pessoas com as quais conviviam na
cidade, configuraram um contexto de angústia e permanente indecisão no
qual marido e mulher tentavam reproduzir e/ou transformar seu casamento.

Nesse
sentido, parece que a relação entre os dois deteriora-se na medida em
que as contradições entre as expectativas passadas, presentes e futuras
não são mais compartilhadas pelo par, redundando num diálogo bastante
precário e que, na maioria das vezes, intensificava ainda mais a
discordância entre os cônjuges. Desse modo, estar juntos não significava
mais a possibilidade de uma mudança pessoal satisfatória que
acompanhasse seus desejos e aspirações que, por diversos motivos e
causas específicas, não eram mais aqueles que, no momento da união,
foram compartilhados.
Por isso,
parece que o grande desafio das relações amorosas hoje, se não em outras
épocas também, é conciliar os processos e os projetos de amadurecimento
pessoal de cada um dos membros do casal com as transformações
inevitáveis que acontecem na sociedade e nos indivíduos, neste último
caso, também em termos psicológicos.
Uma
relação amorosa duradoura pode estar mesmo calcada no aprimoramento de
uma “arte de viver”, a partir da qual homens e mulheres pensem seu
vínculo amoroso como fazendo parte de um conjunto maior de experiências
subjetivas e sociais e não como uma relação de posse e subordinação. A
autonomia sempre é fundamental, mas quando ela é vista de formas
diferentes pelos membros de um casal, dificilmente a relação entre eles
será saudável e se tornará perene. Se isso acontecer, muita coisa pode
ser perdida, como parece ser o caso do casal protagonista do filme e dos
outros casais coadjuvantes que, na narrativa do filme, parecem apenas
esconder os problemas que o casal Wheeler transparecia de forma
angustiante.
