“A vida nos grandes centros urbanos é fria, desapegada de seus valores mais
simples e básicos, substitui o convívio com a natureza através da construção
de uma outra “natureza” de ordem cultural onde habita a impessoalidade e a
correria...”, diz Ruy Gardnier no início de seu belo
comentário sobre esse filme.
Talvez, tenha sido esse o motivo pelo qual os diretores estudantes
Bymbasuren e Luigi Falorni
buscaram um lugar onde os sentimentos ainda prevalecessem e a convivência
com outro conservasse sua pureza natural, aliada ao instinto de
sobrevivência.
Foi assim que chegaram com suas câmeras no deserto de Gobi, no sul da
Mongólia, justamente na época de cria dos camelos, meio de transporte dos
nômades e provedores de lã; para documentar a vida de uma família, composta
de quatro gerações, que vivia numa pequena aldeia daquele imenso deserto. O
resultado desse trabalho foi indicado para o Oscar como melhor
filme-documentário.
Os camelos são animais ruminantes que têm corcovas no dorso, pescoço longo e
calosidades nas juntas dos joelhos. Aqueles que têm apenas uma corcova são
os dromedários.
Por serem animais muito úteis e facilmente dosmeticados, eles são muito
estimados pelo homem, nas regiões desérticas da Austrália, para onde foram
levados. Há registro da domesticação de camelos desde cerca de 1100 anos
a.C., na Babilônia. Adaptam-se muito facilmente no deserto porque são
capazes de viver de plantas espinhosas e conservar água no corpo.
No filme, o componente mais velho da família conta uma lenda sobre os
camelos aos seus netos. A lenda diz que no começo de sua existência os
camelos tinham chifres, que emprestaram aos veados. Mas os veados não os
devolveram e sumiram misteriosamente, levando os chifres dos camelos. Por
isso que até os dias de hoje, os camelos costumam contemplar o horizonte com
um olhar perdido e melancólico, à espera do que ainda julgam lhes
pertencer...
Apesar do seu jeito desengonçado, os camelos sabem conquistar o coração da
gente com uma a ternura que só ele sabe transmitir; além de prover o
sustento da família.
Embora imaginemos que sem o conforto proporcionado pela tecnológia e pela
modernidade, a vida deve ser muito dura, o que o documentário mostra é
maravilhoso! A começar pela paisagem exótica, o contato do homem com a
natureza e com os animais... O carinho, a paciência e o amor enriquecendo
essa convivência. Os idosos são valorizados pelo seu conhecimento e são
ouvidos com atenção pelos mais jovens e também participam das atividades,
pois a alegria de viver os tornam saudáveis. As crianças são criadas com
carinho e atenção, mas sem excesso de mimos ou de brinquedos que as tornem
ociosas e ináptas. Elas têm seu momento de folguedos, mas também têm suas
obrigações e, junto com os adultos, aprendem cedo as leis de sobrevivência.
Uma fêmea de camelo dá cria e o último filhote que nasce é um lindo
camelinho branco. Foi um parto bastante difícil, mas que contou com toda
assessoria da família. A mãe, como que ressentida pelo sofrimento passado,
rejeita o filhote de camelo, negando-se a amamentá-lo.
A família já sabe como solucionar o caso. Dois meninos vão à cidade à
procura de um tocador de violino para que ele, com sua música, amoleça o
coração da mãe ressentida para que ela faça as pazes com seu filhote.
O músico chega e começa o ritual com toda a família em volta. Todos em
silêncio ouvindo o som de um instrumento rústico, feito à mão. Enquanto as
notas musicas ecoam no ar, a mãe dos meninos vai aproximando o filhote de
camelo, branco, de sua mãe.
O animal nem percebe a ação estratégica de que está sendo alvo... O
pensamento do animal está na canção, seus ouvidos atentos às notas
musicais... até que de seus olhos correm lágrimas.
O filhote abocanha a teta da mãe e saboreia o leite... que o alimenta e lhe
garante a vida! O filhote vence, afinal, toda a resistência da mãe.
É um momento de grande comoção!
NAIR LÚCIA DE BRITTO - Comentarista de Cinema
Ficha
Técnica
Título Original: Die Geschichte vom Weinenden Kamel
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 87 minutos
Ano de Lançamento (Alemanha / Mongólia): 2004
Site Oficial:
www.weepingcamelmovie.com
Estúdio: Bayerischer Rundfunk / Hochschule für Fernsehen und Film
München
Distribuição: ThinkFilm Inc. / Europa Filmes
Direção: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni
Roteiro: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni
Produção: Tobias Siebert
Música: Marcel Leniz, Marc Riedinger e Choigiw Sangidorj
Fotografia: Luigi Falorni
Figurino: Unorjargal Amgaabazar
Edição: Anja Pohl
Elenco:
Janchiv Ayurzana
Chimed Ohin
Amgaabazar Gonson
Zeveljamz Nyam
Ikhbayar Amgaabazar
Odgerel Ayusch
Enkhbulgan Ikhbayar
Uuganbaatar Ikhbayar
Guntbaatar Ikhbayar
Munkhbayar Lhagvaa
Ariunjargal Adiya
Dogo Roljav
Chuluunzezeg Gur