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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 06 de outubro de 2008 11:32:18                                               

 
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CULTURA  CINEMA

Camelos também choram

 

Nair Lúcia de Britto

publicado em 06/10/2008

Byambasuren Davaa e Luigi Falorni, Die Geschiche von weinenden Kamel, Alemanha/Mongólia, 2003)

“A vida nos grandes centros urbanos é fria, desapegada de seus valores mais simples e básicos, substitui o convívio com a natureza através da construção de uma outra “natureza” de ordem cultural onde habita a impessoalidade e a correria...”, diz Ruy Gardnier no início de seu belo comentário sobre esse filme.

Talvez, tenha sido esse o motivo pelo qual os diretores estudantes Bymbasuren e Luigi Falorni

buscaram um lugar onde os sentimentos ainda prevalecessem e a convivência com outro conservasse sua pureza natural, aliada ao instinto de sobrevivência.

Foi assim que chegaram com suas câmeras no deserto de Gobi, no sul da Mongólia, justamente na época de cria dos camelos, meio de transporte dos nômades e provedores de lã; para documentar a vida de uma família, composta de quatro gerações, que vivia numa pequena aldeia daquele imenso deserto. O resultado desse trabalho foi indicado para o Oscar como melhor filme-documentário.

Os camelos são animais ruminantes que têm corcovas no dorso, pescoço longo e calosidades nas juntas dos joelhos. Aqueles que têm apenas uma corcova são os dromedários.

Por serem animais muito úteis e facilmente dosmeticados, eles são muito estimados pelo homem, nas regiões desérticas da Austrália, para onde foram levados. Há registro da domesticação de camelos desde cerca de 1100 anos a.C., na Babilônia. Adaptam-se muito facilmente no deserto porque são capazes de viver de plantas espinhosas e conservar água no corpo.

No filme, o componente mais velho da família conta uma lenda sobre os camelos aos seus netos. A lenda diz que no começo de sua existência os camelos tinham chifres, que emprestaram aos veados. Mas os veados não os devolveram e sumiram misteriosamente, levando os chifres dos camelos. Por isso que até os dias de hoje, os camelos costumam contemplar o horizonte com um olhar perdido e melancólico, à espera do que ainda julgam lhes pertencer...

Apesar do seu jeito desengonçado, os camelos sabem conquistar o coração da gente com uma a ternura que só ele sabe transmitir; além de prover o sustento da família.

Embora imaginemos que sem o conforto proporcionado pela tecnológia e pela modernidade, a vida deve ser muito dura, o que o documentário mostra é maravilhoso! A começar pela paisagem exótica, o contato do homem com a natureza e com os animais... O carinho, a paciência e o amor enriquecendo essa convivência. Os idosos são valorizados pelo seu conhecimento e são ouvidos com atenção pelos mais jovens e também participam das atividades, pois a alegria de viver os tornam saudáveis. As crianças são criadas com carinho e atenção, mas sem excesso de mimos ou de brinquedos que as tornem ociosas e ináptas. Elas têm seu momento de folguedos, mas também têm suas obrigações e, junto com os adultos, aprendem cedo as leis de sobrevivência.

Uma fêmea de camelo dá cria e o último filhote que nasce é um lindo camelinho branco. Foi um parto bastante difícil, mas que contou com toda assessoria da família. A mãe, como que ressentida pelo sofrimento passado, rejeita o filhote de camelo, negando-se a amamentá-lo.

A família já sabe como solucionar o caso. Dois meninos vão à cidade à procura de um tocador de violino para que ele, com sua música, amoleça o coração da mãe ressentida para que ela faça as pazes com seu filhote.

O músico chega e começa o ritual com toda a família em volta. Todos em silêncio ouvindo o som de um instrumento rústico, feito à mão. Enquanto as notas musicas ecoam no ar, a mãe dos meninos vai aproximando o filhote de camelo, branco, de sua mãe.

O animal nem percebe a ação estratégica de que está sendo alvo... O pensamento do animal está na canção, seus ouvidos atentos às notas musicais... até que de seus olhos correm lágrimas.

O filhote abocanha a teta da mãe e saboreia o leite... que o alimenta e lhe garante a vida! O filhote vence, afinal, toda a resistência da mãe.

É um momento de grande comoção!
 

NAIR LÚCIA DE BRITTO - Comentarista de Cinema


 

Ficha Técnica
Título Original: Die Geschichte vom Weinenden Kamel
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 87 minutos
Ano de Lançamento (Alemanha / Mongólia):
2004
Site Oficial:
www.weepingcamelmovie.com
Estúdio: Bayerischer Rundfunk / Hochschule für Fernsehen und Film München
Distribuição: ThinkFilm Inc. / Europa Filmes
Direção: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni
Roteiro: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni
Produção: Tobias Siebert
Música: Marcel Leniz, Marc Riedinger e Choigiw Sangidorj
Fotografia: Luigi Falorni
Figurino: Unorjargal Amgaabazar
Edição: Anja Pohl

Elenco:
Janchiv Ayurzana
Chimed Ohin
Amgaabazar Gonson
Zeveljamz Nyam
Ikhbayar Amgaabazar
Odgerel Ayusch
Enkhbulgan Ikhbayar
Uuganbaatar Ikhbayar
Guntbaatar Ikhbayar
Munkhbayar Lhagvaa
Ariunjargal Adiya
Dogo Roljav
Chuluunzezeg Gur

 

 
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::sobre o autor::

Nair Lúcia de Britto é jornalista e poeta.

Eu, Nair Lúcia de Britto nasci em Joanópolis (SP). Meu primeiro contato com as letras foi através do meu pai, que também era poeta, Arthur José dos Reis Britto.

Passei toda minha infância em Santos(SP), o que talvez explique minha paixão pelo mar... Em vez de me contar histórias, meu pai declamava versos dos poetas clássicos, e eu adorava...

Quando cursei o Clássico, eu me sobressaía em Literatura e aprendi muito com a minha professora: Sara Capellari.

Formei-me em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 1977, em São Paulo (SP.) E meu primeiro emprego foi na revisão da Folha de São Paulo. Posteriormente trabalhei na Editora Nova Cultural, preparando textos de livros e revistas.

Escrevi vários textos infantis, publicados na Folhinha de S. Paulo; comentários de livros e filmes para a revista “Contigo”; e crônicas, publicadas na Folha da Tarde (SP) na coluna do jornalista Mário de Morais.

Ao escrever meu primeiro conto “A Virgem Marina”, fui muito incentivada pelo jornalista e escritor Wladir Duppont, que na década de 80 era o editor da revista “Nova”. Escrevi então outros contos de amor, publicados em várias revistas da Editora Abril.

Em São Vicente(SP) fui repórter e cronista do jornal “Primeira Cidade”, onde recebi o estímulo do ex-prefeito da cidade, Antonio Fernando dos Reis, dono do jornal. A partir daí eu fui em frente... Além de prosas, passei a escrever também comentários de filmes de arte; publicados, atualmente, na revista virtual Partes.

Quanto às poesias... eu as escrevo desde a adolescência, mas somente agora comecei a divulgá-las em sites de literatura. Não tenho nenhum livro publicado... mas ainda chego lá!

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