|
O cineasta Hector Babenco foi muito
feliz na escolha do ator Gabriel García Bernal para interpretar o jovem Rimimi,
o herói da história; pela postura carismática, traços do rosto firmes, embora
delicados; um tipo de homem, bem distante do porte másculo, atlético que tanto
atrai as mulheres e tão comumente mostrado.
Não, Rimini seduz visto por um outro
ângulo; ou seja, pela ternura, pelos cabelos semi-longos e escuros, emoldurando
o rosto de anjo.
O personagem trabalha como tradutor e
é casado com sua primeira namorada, Sofia (Ana Couceyro, que também se adequou
perfeitamente ao papel). Depois de doze anos de casamento, o casal rompe o
compromisso, amigavelmente.
Os
problemas só vão aparecer depois da separação, quando ela percebe o quanto está
ligada afetivamente ao ex-marido e que não suporta a idéia de abrir mão dele
para uma outra mulher.
Quanto a ele, esquiva-se da tarefa de
separar e rever as fotografias que documentaram um passado feliz, mas que, no
momento presente, o machucam. Ele tenta outros relacionamentos com mulheres de
personalidades diversas, que o fazem momentaneamente feliz; entretanto, ele não
consegue se desfazer do porta-retrato empoeirado, que revela a imagem da jovem
esposa.
Sempre sereno, o filme se desenrola
despejando vários acontecimentos rápidos e curiosos; uns logo seguidos de
outros. Sempre abrangendo Rimini, os casos com os quais se envolve e a
ex-mulher; e que o atingem abrupta e emocionalmente. Ele se vê de repente
perdido, presa fácil do acaso, incapaz de reagir e escolher o próprio destino.
Na trama, há uma inversão de
personalidades distintas no homem em relação à mulher. Isto é, a ternura e os
sentimentos, mais característicos da mulher, estão mais presentes no personagem
masculino. E o instinto, sexual geralmente mais forte nos homens foi transferido
para as personagens femininas.
Daí um comportamento sexual exacerbado
por partes das personagens, que talvez até seja uma das fantasias eróticas que
os homens tenham em relação às mulheres.
Por outro lado, é emprestado ao herói,
toda delicadeza e ternura que tanto as mulheres desejam encontrar nos homens, um
sonho quase nunca realizável.
“O Passado” foi baseado na obra do
escritor argentino Alan Pauls, que tem o mesmo título. Hector Babenco foi muito
bem-sucedido ao produzir um filme sereno, inteligente, feito para pessoas de bom
gosto. Também suficientemente intrigante para aqueles que buscam entretenimento.
Vale lembrar a bela trilha sonora que
acompanha as
imagens bem retratadas. Sutilmente, a obra conduz as pessoas a um momento de
reflexão. Motivo pelo qual tenha sido escolhido para abrir a Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo, em 2007.
Foi, inclusive, a última oportunidade
que Paulo Autran teve de se apresentar como ator; dando um toque especial ao
filme, que oscila entre o brilho e o bom humor.
NAIR LÚCIA DE BRITTO, COMENTARISTA DE
CINEMA
Ficha Técnica:
EL PASSADO, BRASIL/ARGENTINA, 2007. DE HECTOR BABENCO. COM GAEL GARCÍA BERNAL,
ANÁLIA COUCEYRO, MARTA LUBOS, ANA CELENTANO. 114 MIN. WWW.BR.WARNERBROS.COM/OPASSADO.
WARNER. DRAMA
|