Ela
nos olha. A mulher. Sentada de costas para o fogo da lareira. No chão o
estigma de um dragão. Na mulher um olho que nos procura. Ameaça-nos e
pergunta.
Esta é uma das capas do filme baseado no
livro de Stieg Larsson o bestseller Millenium. Não tive o prazer de
ler a obra, mas o filme me surpreendeu. Primeiro pelo título. O título da
obra me levava inicialmente a pensar em indiferença, talvez, para uma outra
opção (escolhas pessoais) que tivesse a ver com afinidades entre os gêneros
e todo o debate que por aí se tece. Como assim “homens que não amavam as
mulheres”?
O que aquele título tinha a ver com a
mulher que me olhava sentada, um cigarro na mão. Rosto sério e capuz. Mulher
masculinizada?
Através da trama crua e envolvente do
filme, comecei a pensar. Pensar é arriscado... Na verdade o filme não trata
do sumiço de Harriet Vanger, mas sim da violência e do abuso no qual a
mulher é submetida. A submissão ao poder dominante, ao estupro do corpo e da
mente. Da deformação na qual algumas mulheres devem esconder suas dores e
medos. Sim, pois estas são obrigadas, como a menina Lisbeth Salander, a
reconstituir um outro corpo. Corpo este mais forte e insensível, mais frio e
agressivo, para defender-se. Deforma-se o corpo e a mente como alternativa
de afastar e assustar os predadores. Dragão. Monstro. Recobre-se com as
escamas metafóricas do mostro para defender-se, afugentar os outros
monstros. Camuflagem.
Alguns críticos reclamam da falta de
intensidade dos personagens; pois foi isto que me chamou a atenção. Não é um
filme hollywoodiano, não há paixões e grandes redenções. Há pessoas
sofridas. Não há olhares em close nem beijos de cinco minutos. Pois aqui os
homens não amam as mulheres. Estamos dentro do lado perverso. E os
homens fazem o que querem. O objeto a ser conquistado é a mulher. E ela será
tratada como coisa. Denúncia sobre os mais baixos sentimentos masculinos.
Desvelamento do lado doentio do poder.
Há uma alusão ao nazismo, e isso pode
parecer meio apelativo, mas o que fica evidente é a fragilidade da mulher
nesse mundo no qual qualquer coisa é motivo para possuir, machucar e até
matar. O nazismo é um mero elemento, instrumento que abre as portas do
insondável mundo de perversidade em que um ser humano pode ser levado.
Lisbeth é a mulher, assim como Harriet
Vanger que enfrentam essa brutalidade, uma se travestindo e enfeando, a
outra fugindo e abandonando a família e todos os homens que não a amavam.
O filme trata sobre o excessivo poder
masculino, da impunidade e da dor que estas mulheres enfrentam.
Concordo que o final perde um pouco do
ritmo e acaba se transformando num “e foram felizes para sempre”, mas “Os
homens que não amavam as mulheres” é um filme, e não um tratado sobre os
maus tratos das mulheres. E como filme ele cumpre bem o seu papel. Diverte,
atrai e faz pensar.
Lisbeth Salander ainda nos observa...
O dragão tatuado em suas costas mostra
seus dentes. Faz com que recuemos. Nos obriga a pensar nesta guerra. Sim,
guerra. Uma guerra na qual milhares de mulheres em todos os países são
estupradas, humilhadas e assassinadas. Assunto que mereceria maior tempo e
estudo, mais divulgação e esclarecimento e que, no entanto é tratado como
ato isolado.
A mulher foi criada para ser dócil
e bonitinha. Criatura objeto. Que move o mercado capitalista. Corpo que se
vende em carne, imagem e sonho.
Objeto produzido não para ser amado ou
respeitado, mas para ser possuído e dominado.
Vivemos com certeza nessa sociedade em que
os homens já não amam as mulheres, eles as devoram.
E se o estupro do corpo ainda não é um ato
sistemático, o estupro mental o é. Possessão pelo homem da forma como a
mulher deve se constituir. E o pior é que sem saber, a própria mulher, nesse
processo de devoração social, cada vez mais aceita e procura fomentar
essa forma de ser vista, pensada e por fim amada?
Bom filme. Dizem que os americanos de
Hollywood já estão com as “butucas” ligadas. Efeitos especiais de ultima
geração. Atores belos e sedutores, beijos de cinco minutos, ação
delirante...
Melhor seria se deixassem o filme como
está. Acertos e desacertos.