ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 09 de maio de 2011 18:30:43                                               

 
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CULTURA - Cinema

Os homens que não amavam as mulheres

   

Ronie Von Rosa Martins

publicado em 01/02/2011

 

Ela nos olha. A mulher. Sentada de costas para o fogo da lareira. No chão o estigma de um dragão. Na mulher um olho que nos procura. Ameaça-nos e pergunta.

Esta é uma das capas do filme baseado no livro de Stieg Larsson o bestseller Millenium. Não tive o prazer de ler a obra, mas o filme me surpreendeu. Primeiro pelo título. O título da obra me levava inicialmente a pensar em indiferença, talvez, para uma outra opção (escolhas pessoais) que tivesse a ver com afinidades entre os gêneros e todo o debate que por aí se tece. Como assim “homens que não amavam as mulheres”?

O que aquele título tinha a ver com a mulher que me olhava sentada, um cigarro na mão. Rosto sério e capuz. Mulher masculinizada?

Através da trama crua e envolvente do filme, comecei a pensar. Pensar é arriscado... Na verdade o filme não trata do sumiço de Harriet Vanger, mas sim da violência e do abuso no qual a mulher é submetida. A submissão ao poder dominante, ao estupro do corpo e da mente. Da deformação na qual algumas mulheres devem esconder suas dores e medos. Sim, pois estas são obrigadas, como a menina Lisbeth Salander, a reconstituir um outro corpo. Corpo este mais forte e insensível, mais frio e agressivo, para defender-se. Deforma-se o corpo e a mente como alternativa de afastar e assustar os predadores. Dragão. Monstro. Recobre-se com as escamas metafóricas do mostro para defender-se, afugentar os outros monstros. Camuflagem.

Alguns críticos reclamam da falta de intensidade dos personagens; pois foi isto que me chamou a atenção. Não é um filme hollywoodiano, não há paixões e grandes redenções. Há pessoas sofridas. Não há olhares em close nem beijos de cinco minutos. Pois aqui os homens não amam as mulheres. Estamos dentro do lado perverso. E os homens fazem o que querem. O objeto a ser conquistado é a mulher. E ela será tratada como coisa. Denúncia sobre os mais baixos sentimentos masculinos. Desvelamento do lado doentio do poder.

Há uma alusão ao nazismo, e isso pode parecer meio apelativo, mas o que fica evidente é a fragilidade da mulher nesse mundo no qual qualquer coisa é motivo para possuir, machucar e até matar. O nazismo é um mero elemento, instrumento que abre as portas do insondável mundo de perversidade em que um ser humano pode ser levado.

Lisbeth é a mulher, assim como Harriet Vanger que enfrentam essa brutalidade, uma se travestindo e enfeando, a outra fugindo e abandonando a família e todos os homens que não a amavam.

O filme trata sobre o excessivo poder masculino, da impunidade e da dor que estas mulheres enfrentam.

Concordo que o final perde um pouco do ritmo e acaba se transformando num “e foram felizes para sempre”, mas “Os homens que não amavam as mulheres” é um filme, e não um tratado sobre os maus tratos das mulheres. E como filme ele cumpre bem o seu papel. Diverte, atrai e faz pensar.

Lisbeth Salander ainda nos observa...

O dragão tatuado em suas costas mostra seus dentes. Faz com que recuemos. Nos obriga a pensar nesta guerra. Sim, guerra. Uma guerra na qual milhares de mulheres em todos os países são estupradas, humilhadas e assassinadas. Assunto que mereceria maior tempo e estudo, mais divulgação e esclarecimento e que, no entanto é tratado como ato isolado.

A mulher foi criada para ser dócil e bonitinha. Criatura objeto. Que move o mercado capitalista. Corpo que se vende em carne, imagem e sonho.

Objeto produzido não para ser amado ou respeitado, mas para ser possuído e dominado.

Vivemos com certeza nessa sociedade em que os homens já não amam as mulheres, eles as devoram.

E se o estupro do corpo ainda não é um ato sistemático, o estupro mental o é. Possessão pelo homem da forma como a mulher deve se constituir. E o pior é que sem saber, a própria mulher, nesse processo de devoração social, cada vez mais aceita e procura fomentar essa forma de ser vista, pensada e por fim amada?

Bom filme. Dizem que os americanos de Hollywood já estão com as “butucas” ligadas. Efeitos especiais de ultima geração. Atores belos e sedutores, beijos de cinco minutos, ação delirante...

Melhor seria se deixassem o filme como está. Acertos e desacertos.


 

  

  

::sobre o autor::
Ronie Von Rosa Martins é professor da rede pública municipal e estadual das cidades de Pedro Osório e Cerrito no Rio Grande do sul.
Tem Pós-graduação em Literatura Contemporânea Brasileira - UFPEL e em Linguagens Verbais, Visuais e suas Tecnologias pelo IFSUL. 

 

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