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Última atualização feita em:20-06-2005 17:56
 
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 Cultura

O vencedor se desiludiu mas espera o que virá
Por Gustavo Dumas

“Pequena Miss Sunshine” supera o cinema de desalento com humor e deboche a valores do espetáculo

 

Por Gustavo Dumas[*]

 

 
Um pai-de-família almofadinha, profissão motivador (?!), prega a fórmula dos nove passos para se tornar um vitorioso a uma pequena platéia entediada. Uma menina gordinha recebe a notícia de que terá que atravessar meio país para participar de um concurso de Miss Qualquer Coisa e sai gritando pela casa, tamanho o seu contentamento. O maior, segundo o próprio, estudioso de Proust nos EUA perde o bonde da carreira e o namorado para outro e tenta ridiculamente o suicídio. Um aborrecente com cara de bocó não fala uma palavra há tempos porque aguarda uma vaguinha em seleção para o regime militar e enquanto isso se esforça para desprezar quem está à sua volta. A figura da mãe se faz presente, no limite da histeria, como o elo estressado de todos; o papel de contraponto cabe ao pai do pai-de-família almofadinha, sincero e debochado como ele só, apreciador de heroína e mulheres. O que toda essa gente faz num filme que, se bem formos observar, não tem um protagonista definido? “Pequena Miss Sunshine” põe todo este cenário em movimento, quando tais personagens se juntam para levar a doce Olive ao concurso de beleza, a bordo de uma kombi caindo aos pedaços e na freqüência motora de seus problemas de convivência e diferenças ontológicas.

 

O resultado? Richard, o pai-de-família que se apresentava como vencedor, perde, como todos, e se livra do discurso babaca de auto-ajuda e da soberba barata de capitalista moderninho. Já o pai deste morre no decorrer do trajeto, não sem antes suspirar para Richard que se orgulhava mais de suas tentativas e não tanto de seus êxitos. A mãe, Sheryl, permanece elo e suporte para o que virá adiante. O meninote Dwayne fracassa no plano de tornar-se herói da aviação e fala: demonstra sensibilidade e inteligência, como o tio gay, Frank, em franca recuperação da debilidade emocional em que se encontrava pela dupla perda que afetava diretamente o que um acadêmico mais costuma cultuar, o ego. Todos fracassam, no que inicialmente almejavam. Olive “ganha”, no entanto, o concurso de Miss: atentando contra a ditadura do hormônio e protagonizando um espetáculo bizarro para os padrões estéticos impostos pela indústria da beleza, ela provoca a ira dos “vencedores” e a graça nos “vencidos” presentes, com uma coreografia corrosiva aos valores da sociedade de consumo.

 

“Pequena Miss Sunshine” vai adquirindo, com seu desenvolvimento rumo a um clímax que alardeia a sua propaganda antiespetáculo, um caráter de filme eminentemente político. Esforçando-se para justificar o manjado rótulo de “filme independente”, não se omite a fazer a crítica da estupidez alegre e plástica de mercado, tampouco a mostrar com relativa crueza os sentimentos de desencanto que tal modelo de sociedade incitou e administrou – quiçá para vender ainda mais produtos para o corpo e para a alma –, mas dá um passo além: propõe, com humor, a superação do desalento e da apatia, após adquirida a consciência de que a alegria de mercado é uma superfície rasa a sustentar, digamos, “espiritualmente” um modelo hegemônico que, se não ruiu, feriu-se gravemente nos últimos anos.

 

“Pequena Miss Sunshine” (EUA, 2006) é, ainda, um filme americano, e que tem parentesco evidente com outro filme centrado numa família americana e seus problemas e diferenças ontológicos: se “Beleza Americana” (EUA, 1999) é o retrato do desnorteio e do desalento diante do fim da magia do american way of life, “Pequena Miss Sunshine” revela que o golpe foi assimilado e que existe uma América disposta a se repensar.  Entre a realização de um e de outro filme, há ainda uma tenebrosa e longa Era Bush e um 11 de setembro de 2001 para dirimir as dúvidas sobre o fato de que o império não joga mais sozinho, sem falar nas experiências antineoliberais que conquistaram terreno na América Latina nos últimos anos. Em tempo: “Pequena Miss Sunshine” demorou cinco anos para ser produzido. O leitor que faça as contas...  

 

Vale ressalvar que a proposta fílmica dos diretores estreantes Jonathan Dayton e Valerie Faris, muito longe da originalidade genial de um Lars von Trier ou mesmo do lirismo melancólico de Sam Mendes no “Beleza Americana” a que nos reportamos anteriormente, não é lá muito ousada, na linguagem. O excelente roteiro combina elementos de pastiche, escárnio, nonsense e, sim, tensão, com diálogos eficientes. A direção é segura, e a atuação do elenco idem, em que é destaque o equilíbrio do conjunto. Merece nota a composição canastrona do personagem Richard, fiel ao tipo social que ali vai ser, em verdade, desconstruído em seus valores arraigados.  

 

Concebido, portanto, em um período histórico de reorientação geopolítica, o que, traumas à parte, por si só já exigiria bastante reflexão; e margeando um universo em que o vencedor é um cidadão idiotizado e o indivíduo é apenas um consumidor em potencial, imbecilizado como sujeito social, “Pequena Miss Sunshine” provoca risos ao promover a corrosão interna, no seio do microcosmo que é a família pequeno-burguesa que nucleia o enredo, de valores que o capital tem como caros e estruturais. O filme expõe estes valores ao ridículo, como se não bastassem os sorrisos bestiais dos uniformizados vendedores de financiamentos imperdíveis na loja sem regra em que se transformou a rua, para não fugir a um exemplo, dentre tantos com que nossos olhos saturados se acostumaram a esbarrar entre pernas que tanto correm e se atropelam em nosso dia-a-dia. O vencedor, neste sistema condenado, anda de kombi numa estrada de belos carros, descobre que está falido e encontra-se a nove passos é do precipício, mas segue sem nele se atirar, aprendendo a rir de sua própria ruína e a humanizar suas relações com o próximo. Ou seja: há uma espécie de desordem interna generalizada que solicita a cada um que resista, neste momento, até que tudo (ou mesmo nada) mude. Nesse contexto, diante da exigência íntima e ulterior de se recuperar a dignidade, o imperativo do ganhar perde, pois, substância, vide ainda o exemplo do “Rocky Balboa” (EUA, 2006) ora em circuito.

 

O que virá, após esse movimento que começa num alheamento pela via da ignorância subalterna ao mercado, trilha o desalento e o desencanto depois que o véu do fetiche é desvelado e culmina em catarse e liberação diante do estatuto do banal estilizado e do saturado espetáculo de um gasto capitalismo, só o tempo dirá.

 

[*] Gustavo Dumas é escritor e revisor de textos. Publicou, em 2005, assinando como Zeh Gustavo, o livro de poesias “Idade do Zero”, pela Escrituras Editora.


 
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Gustavo Dumas é escritor e revisor de textos. Publicou, em 2005, assinando como Zeh Gustavo, o livro de poesias “Idade do Zero”, pela Escrituras Editora.
Foto:
Ciço Pereira
zehgustavo@yahoo.com.br

 

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