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“Pequena Miss Sunshine” supera o
cinema de desalento com humor e deboche a
valores do espetáculo
Por Gustavo Dumas[*]

Um pai-de-família almofadinha, profissão
motivador (?!), prega a fórmula dos nove passos
para se tornar um vitorioso a uma pequena
platéia entediada. Uma menina gordinha recebe a
notícia de que terá que atravessar meio país
para participar de um concurso de Miss Qualquer
Coisa e sai gritando pela casa, tamanho o seu
contentamento. O maior, segundo o próprio,
estudioso de Proust nos EUA perde o bonde da
carreira e o namorado para outro e tenta
ridiculamente o suicídio. Um aborrecente com
cara de bocó não fala uma palavra há tempos
porque aguarda uma vaguinha em seleção para o
regime militar e enquanto isso se esforça para
desprezar quem está à sua volta. A figura da mãe
se faz presente, no limite da histeria, como o
elo estressado de todos; o papel de contraponto
cabe ao pai do pai-de-família almofadinha,
sincero e debochado como ele só, apreciador de
heroína e mulheres. O que toda essa gente faz
num filme que, se bem formos observar, não tem
um protagonista definido? “Pequena Miss Sunshine”
põe todo este cenário em movimento, quando tais
personagens se juntam para levar a doce Olive ao
concurso de beleza, a bordo de uma kombi caindo
aos pedaços e na freqüência motora de seus
problemas de convivência e diferenças
ontológicas.
O resultado? Richard, o pai-de-família que se
apresentava como vencedor, perde, como todos, e
se livra do discurso babaca de auto-ajuda e da
soberba barata de capitalista moderninho. Já o
pai deste morre no decorrer do trajeto, não sem
antes suspirar para Richard que se orgulhava
mais de suas tentativas e não tanto de seus
êxitos. A mãe, Sheryl, permanece elo e suporte
para o que virá adiante. O meninote Dwayne
fracassa no plano de tornar-se herói da aviação
e fala: demonstra sensibilidade e inteligência,
como o tio gay, Frank, em franca recuperação da
debilidade emocional em que se encontrava pela
dupla perda que afetava diretamente o que um
acadêmico mais costuma cultuar, o ego. Todos
fracassam, no que inicialmente almejavam. Olive
“ganha”, no entanto, o concurso de Miss:
atentando contra a ditadura do hormônio e
protagonizando um espetáculo bizarro para os
padrões estéticos impostos pela indústria da
beleza, ela provoca a ira dos “vencedores” e a
graça nos “vencidos” presentes, com uma
coreografia corrosiva aos valores da sociedade
de consumo.
“Pequena Miss Sunshine” vai adquirindo, com seu
desenvolvimento rumo a um clímax que alardeia a
sua propaganda antiespetáculo, um caráter de
filme eminentemente político. Esforçando-se para
justificar o manjado rótulo de “filme
independente”, não se omite a fazer a crítica da
estupidez alegre e plástica de mercado, tampouco
a mostrar com relativa crueza os sentimentos de
desencanto que tal modelo de sociedade incitou e
administrou – quiçá para vender ainda mais
produtos para o corpo e para a alma –, mas dá um
passo além: propõe, com humor, a superação do
desalento e da apatia, após adquirida a
consciência de que a alegria de mercado é uma
superfície rasa a sustentar, digamos,
“espiritualmente” um modelo hegemônico que, se
não ruiu, feriu-se gravemente nos últimos anos.
“Pequena Miss Sunshine” (EUA, 2006) é, ainda, um
filme americano, e que tem parentesco evidente
com outro filme centrado numa família americana
e seus problemas e diferenças ontológicos: se
“Beleza Americana” (EUA, 1999) é o retrato do
desnorteio e do desalento diante do fim da magia
do american way of life, “Pequena Miss
Sunshine” revela que o golpe foi assimilado e
que existe uma América disposta a se repensar.
Entre a realização de um e de outro filme, há
ainda uma tenebrosa e longa Era Bush e um 11 de
setembro de 2001 para dirimir as dúvidas sobre o
fato de que o império não joga mais sozinho, sem
falar nas experiências antineoliberais que
conquistaram terreno na América Latina nos
últimos anos. Em tempo: “Pequena Miss Sunshine”
demorou cinco anos para ser produzido. O leitor
que faça as contas...
Vale ressalvar que a proposta fílmica dos
diretores estreantes
Jonathan Dayton e Valerie Faris, muito longe da
originalidade genial de um Lars von Trier ou
mesmo do lirismo melancólico de Sam Mendes no
“Beleza Americana” a que nos reportamos
anteriormente, não é lá muito ousada, na
linguagem. O excelente roteiro combina elementos
de pastiche, escárnio, nonsense e, sim, tensão,
com diálogos eficientes. A direção é segura, e a
atuação do elenco idem, em que é destaque o
equilíbrio do conjunto. Merece nota a composição
canastrona do personagem Richard, fiel ao tipo
social que ali vai ser, em verdade,
desconstruído em seus valores arraigados.
Concebido, portanto, em um período histórico de
reorientação geopolítica, o que, traumas à
parte, por si só já exigiria bastante reflexão;
e margeando um universo em que o vencedor é um
cidadão idiotizado e o indivíduo é apenas um
consumidor em potencial, imbecilizado como
sujeito social, “Pequena
Miss Sunshine” provoca risos ao promover a
corrosão interna, no seio do microcosmo que é a
família pequeno-burguesa que nucleia o enredo,
de valores que o capital tem como caros e
estruturais. O filme expõe estes valores ao
ridículo, como se não bastassem os sorrisos
bestiais dos uniformizados vendedores de
financiamentos imperdíveis na loja sem regra em
que se transformou a rua, para não fugir a um
exemplo, dentre tantos com que nossos olhos
saturados se acostumaram a esbarrar entre pernas
que tanto correm e se atropelam em nosso
dia-a-dia. O vencedor, neste sistema condenado,
anda de kombi numa estrada de belos carros,
descobre que está falido e encontra-se a nove
passos é do precipício, mas segue sem nele se
atirar, aprendendo a rir de sua própria ruína e
a humanizar suas relações com o próximo. Ou
seja: há uma espécie de desordem interna
generalizada que solicita a cada um que resista,
neste momento, até que tudo (ou mesmo nada)
mude. Nesse contexto, diante da exigência íntima
e ulterior de se recuperar a dignidade, o
imperativo do ganhar perde, pois, substância,
vide ainda o exemplo do “Rocky Balboa” (EUA,
2006) ora em circuito.
O que virá, após esse movimento que começa
num alheamento pela via da ignorância
subalterna ao mercado, trilha o desalento e
o desencanto depois que o véu do fetiche é
desvelado e culmina em catarse e liberação
diante do estatuto do banal estilizado e do
saturado espetáculo de um gasto capitalismo,
só o tempo dirá.
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Gustavo Dumas é escritor
e revisor de textos. Publicou, em 2005,
assinando como Zeh Gustavo, o livro de
poesias “Idade do Zero”, pela Escrituras
Editora.
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