Aos estilhaços, intertextualidades e vozes, como em O Prazer
do texto, o livro Fragmentos de um discurso amoroso (1977), de Roland
Barthes oferece-se à leitura distraída do amor. O leitor, ao folheá-lo,
escolhe múltiplas formas para caminhar entre os aforismos, entre os
fragmentos, entre “as rajadas de linguagem, que lhe brotam graças a
circunstâncias íntimas, aleatórias” (FDA, p.12)*Nessa rede de
“dis-cursos” ou vozes romanescas tudo, no livro, surge como “algo que se
leu, ouviu, experimentou”. (FDA, p.12). “Pouco importa, no fundo, que a
dispersão no texto seja rica aqui e pobre ali: há tempos mortos, muitas
figuras modificam-se; algumas, sendo hipóstases de todo o discurso de amor,
possuem a própria raridade - a pobreza - das essências: que dizer da
Languidez, da Imagem, da Carta de Amor, uma vez que é todo o discurso de
amor que está tecido de desejo, de imaginário e de declarações?” (FDA,
p.12-13).
No “inexprimível amor” é pois um apaixonado que fala e diz “ Querer
escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: esta terra de loucura
em que a linguagem é ao mesmo tempo muito e muito pouco excessiva (pela
expansão ilimitada do eu, pela subversão emotiva) e pobre (devido aos
códigos com os quais o amor a rebaixa e avilta)”. (FDA, p.128-130).
A escrita da paixão, composta de várias outras escrituras e fragmentos,
no livro comporta e se inscreve em estratégias de espetáculo do/sobre o
amor, seus riscos, glórias, seus lugares-comuns e esquizofrenias, concebida
para ser feita em uma situação análoga ao apaixonado. Nesse jogo discursivo
do amor entre a forma e o conteúdo, entre desafios e alegrias dos atores,
que se garante o espetáculo amoroso.
Apesar de não ser um texto dramático, Roland Barthes (1915-1980), propõe
uma semiologia dramática do amor para apresentar a sua “enunciação” (é ele
que o define, enunciação e não análise) do discurso amoroso. O livro, como
um diário da paixão, inicia com a seguinte frase “ é pois um apaixonado que
fala e diz”, e, até ao final, percebemos de fato surgir em palavras, numa
estrutura quase cênica, aquilo que todos já viveram - “ o elogio das
lágrimas”, “o ciúme”, “ Que fazer?”, “ O coração”, “A ressonância” e outros.
Arrumados assim, feito verbetes lúdicos de um dicionário do amor, o
livro, contraditoriamente, tenta extrapolar esse discurso instaurando o amor
pelo viés semiológico da leitura literária, pela vida, pela imaginação, pela
linguagem que assume vários caminhos. Talvez, porque, o viés amoroso seja o
que faz as pessoas se moverem e acreditarem em alguma coisa.
Por outro lado, os estilhaços de textos, feito um homem diante de um
espelho, recupera-se em fragmentos constantes. Fragmentos de desejos, de
realizações, de percepções. O homem diante da iniciativa de se autobiografar
no discurso ou nos discursos do amor do outro. Como em Roland Barthes por
Roland Barthes (1977) , livro também escrito em fragmentos, Fragmentos de um
discurso amoroso assinala a tentativa perturbadora, mas persistente, de dar
voz a um coração que se descobre vazio.
Entre
verbetes e significâncias do amor, o leitor, diante de vários enxertos,
deve-se perceber como mais um personagem de romance e deve se permitir
brincar, uma brincadeira séria de quem está submerso no texto, na linguagem,
atento às armadilhas do sentimento e do discurso amoroso. Assim, Fragmentos
de um Discurso Amoroso , é além de o “valor passado ao grau suntuoso do
significante”, também uma experiência de leitura. Um prazer absoluto diante
do texto e do homem que nele se mostra. “Escrever por fragmentos: os
fragmentos são então perdas sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda:
todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê?” (BARTHES, 1977,
p.108).
O amor
como desejo e representação presente nos fragmentos barthesianos não se
esgota nas palavras, nem se refere a realidade como tal. O discurso amoroso
e romanesco ao colocar-se como literatura e crítica semiológica ao mesmo
tempo, liberta-se das imposições da lógica tradicional e adquire a liberdade
de estruturar-se segundo seus códigos. O texto barthesiano é algo feito com
a linguagem, portanto a partir da linguagem, algo ao mesmo tempo a
transforma, acresce, aperfeiçoa, interrompe ou a reduz. É vivo e desejante.
O
leitor, acompanhando vertiginosamente o texto do amor, vai entrar em diálogo
com a escritura, produzindo outra escritura ( como esse ensaio). É, segundo
o semiólogo francês, o lugar em que o texto ou discurso do amor se reescreve
ao ser recebido e interpretado. O diálogo é uma escritura onde, segundo
Bakthin, se lê o Outro. O diálogo bakthiniano designa aos olhos dessa
escritura simultânea, como subjetividade e como comunicabilidade, ou melhor,
como intertextualidade, um diálogo amoroso cujos actantes são outros textos.
A
noção de sujeito amoroso da escritura - começa a dar lugar a uma outra, a da
ambivalência da escritura. Nesse sentido, Fragmentos do Discurso Amoroso é
um texto em constante destruição onde se esconde/desvela o jogo do signo. O
deciframento estilhaçado, como fragmentos metalingüísticos, aparece ao
leitor como uma escolha. O discurso do amor, sempre à deriva e instigador,
só existe a partir de uma recriação numa leitura subjetiva e
individualíssima. A cada fruidor o livro despedaçado apresenta-se diferente
de si mesmo, ao mesmo tempo completo e incompleto, pois “os signos não são
provas, pois qualquer pessoa os pode produzir, falsos ou ambíguos. Daí
resulta depreciar-se, paradoxalmente, a omnipotência da linguagem: uma vez
que a linguagem nada garante, tomarei a linguagem por única e última
garantia: não acreditarei mais na interpretação”. (FDA, p.234).
Nesse plano ou
palco do amor, Fragmentos de um discurso amoroso ( espécie de "mise-en-scéne" amorosa) é
um texto de objeto de prazer que está constantemente estruturando-se,
mantendo-se num estatuto da enunciação amorosa de seus leitores. Essa
estruturação infinita do discurso, Barthes chama de significância - espaço
específico onde se redistribui a ordem da língua - faz-se sensorial: o
sentido das coisas, essencialmente da palavra amorosa, nasce de nossos
sentidos, é sentido produzido sensualmente, o corpo e sua vivência,
fragmentação da cultura, disseminação amorosa de suas características
segundo fórmulas desconhecidas e virulentas.
Na "escritura-leitura do amor"
"quem pretende a verdade sóe encontra respostas com imagens fortes e vivas,
que se tornam ambíguas, flutuantes quando as tenta transformar em signos:
como em toda mântica, o cosultante apaixonado deve criar a sua própria
verdade" (FDA, p.234). Nessa brincadeira de discursos, nos fragmentos
justapostapostos, e em forma de palimpsesto, nasce um novo texto. Um texto
múltiplo do amor, uma constante busca de significações já que " a função da
escritura é colocar a máscara e, ao mesmo tempo, apontá-la". (BARTHES,
1974, p.136)
Feito o conto Amor, de Clarice
Lipector , Barthes cria o discurso ou recorta fragmentos de amor em que o
personagem depreende-se do mundo e experimenta a perda do eu. Em constantes
buscas internas dos personagens no discurso imagético do amor, tanto Ana,
como também outras vozes e o leitor, caracterizam-se pelo desdobramento do
eu que se vê no ato de produção , ator e espectador de sei mesmos, sujeitos
do espetáculo e objeto de gozo, captando uma consciência em fracionamento
pela dissolução do eu nos vários fragmentos.
Eros-cupido capta, em Clarice,
a protagonista do conto na alegoria do cego, enquanto Barthes, no espaço do
discurso amoroso, faz do leitor rodopios de perda e busca, reencontro na
linguagem da obra. Enamorados, Ana, do conto Anor e os leitores de
Fragmentos de um discurso amoroso ficam encantados com as máscaras do
discurso que ora se esconem, ora se revelam. O mundo e os signos amorosos
são descobertos pelos seus avessos, o irreal e o mágico o reelaboram.
Nessa poética em fragmentos,
com extrema delicadeza dos signos, Roland barthes propõe uma aventura
semiólogica em torno do amor que se dedica a desfazer o "tecido" amoroso
para montar como nele se superpõem na escritura palimpsêstica os
diversos códigos e os seus sentidos. O mundo semiológico do amor,
fragmentado e intertextual, caree de entranhas. ler o mundo dos signos e
dessas entranhas amorosas, portanto, é conseqüentemente, ter as "chaves"
desse código. Na perspectiva semiológica, ler e escrever o amor, como o ato
de leitura em barthes, são de tal sorte, momentos simultâneos de uma mesma
ação semiótica.
A leitura comparada a um ato
de amor, merece ou requer, como o ser amado, atenção, carinho, cuidado. A
criação é um caminho para se chegar até o outro, oara compartilhar
sentimentos, experiências amorosas, sonhos, enfim: para compartilhar a vida.
Por esse motivo a linguagem foi comparada por Bathes à experiência amorosa,
quando ele diz:“ A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem contra
o outro. É como se eu tivesse ao invés de dedos, ou dedos na ponta das
palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de
um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente,
colocar em evidência um significado único que ‘é eu te desejo’, e liberá-lo,
alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem tem prazer de
se tocar a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras,
acaricio-o, toco-lhe, mantenho este contato, esgoto-me ao fazer o
comentário ao qual submeto a relação.” (FDA, p. 98).
Escrever, para Barthes,
"é colocar-se num imenso intertexto, quer dizer: colocar a própria liguagem,
a sua própria produção de linguagem, no próprio infinito da linguagem.
(BARTHES, 1975, p.15). A noção de escritura amorosa barthesiana e os seus
efeitos de textualidade advém, pois, dessa concepção sinuosa e à deriva, mas
extremamente insinuante e reveladora. Tudo sugere um texto que pulsa e, sob
a pela da linguagem amorosa, o texto-mundo deseja vorazmente. A leitura dos
fragmentos, ao acompanhar a trajetória intertextual e labiríntica do
discurso romanesco, lança-se na aventura semiológica da escritura
barthesiana, habitando com o corpo vários discursos ficcionais, atendendo
aos apelos dos signos literários.
Barthes, transgressoramente,
nesse livro, parece estar no limiar de um romance, " ele toma, literalmente,
notas para um romance que não escreveu, notas que são ao mesmo tempo a
transcrição do seu livro que, afinal, não é um romance". (CALVET, 1993,
p.244). O que faz do livro uma espécie de metalinguagem do amor, " uma
prática de imitação, de cópia infinita" (BARTHES, 1975, p.14). " [...] uma
espécie de carrocel de linguagens imitadas. É a própria vertigem da cópia,
devido ao fato de as linguagens se imitarem sempre uma às outras, de a
linguagem não ter fundo, de não haver um fundo original da linguagem, de o
homem estar perpetuamente embaraçado por códigos de que nunca atinge o
fundo. A literatura é, de certo modo, essa experiência" (BARTHES, 1975,
p.16). De fato, tudo sugere o tempo todo as indagações: Quais serão os
códigos do amor? Haverá uma linguagem do amor?
Barthes-escritor, combinando
citações e suprimindo aspas parece confirmar que " não se copiam obras,
copiam-se linguagens" (BARTHES, 1975, p.22). Na linguagem dos enamorados
como seres solitários e incompletos, o discurso do amor surge como
sentimento incompreensível. O livro, através de inúmeras citações e exemplos
do tema confirma que é como o próprio ser amado descrevendo-se: lê-lo é
conhecer o desconhecido eternamente. " [...] tudo se representa, pois, como
uma peça de teatro". (FDA, p.133)." O apaixonado é, portanto, artista e o
seu mundo é bem um mundo às avessas, pois toda a imagem é o seu próprio fim
( nada para lá da imagem)". (FDA, p.170).
Em cada verbete, o sujeito do
discurso amoroso registra as angústias mais veementes de um coração
apaixonado e nos faz refletir acerca de ações banais, como a espera de um
telefonena (ou a dúvida quanto a ligar ou não), o ciúme inexplicável que
sentimos a ver um terceiro falando do nosso ser amado ou simplesmente o
delírio da paixão amorosa. Ciúmes, posses, discursos, signos, o desejo
amoroso - trata-se de um livro para quem ama poder amar ainda mais. Para
quem amou, sentir saudades e querer amar novamente. Ou para quem ainda
desacreditado no amor, queira um dia voltar a amar, mas que não se contente
com qualquer amor, e sim procure um amor ao menos parecido com aquele
descrito por Barthes. " Os signos do amor alimentam uma imensa literatura: o
amor é representado, reposto numa ética das aparências". (FDA, p.145).
Gozo da palavra romanesca,
gozo por articular signiticantes - ao lado da leitura barthesiana que
desvenda sentidos, gozo de criar, de reinventar o objeto do prazer, o prazer
do texto, o prazer de ler, o prazer de amar puro e simplesmente!
Notas:
* todas as citações faram alusão a abreviatura FDA - Fragmentos de um
Discurso amoroso.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso. Trad. Isabel
Gonçalves. Lisboa: Edições 70, s/d.
BARTHES, Roland. Para/ou onde vai a literatura. In:VÁRIOS. Escrever...
para quê? para quem? Lisboa, Edições 70, 1975.
BARTHES, Roland. Novos Ensaios Críticos. O grau zero da escritura. São
Paulo: Cultrix, 1974.
BARTHES, Roland. O Prazer do Texto.Trad. J. Guinsburg. São
Paulo: Perspectiva, 1977.
BARTHES, Roland. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Leila
Perrone-Moisés. São Paulo. Cultrix, 1977.
CALVET, Louis-Jean. Roland Barthes. Uma Biografia. Trad. Maria Ângela
Villela da Costa. São Paulo: Siciliano, 1993.
LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Laços de Família: contos. 24ª ed. Rio de
Janeiro, 1991. p. 29-42.