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Resumo:
O presente artigo tem por objetivo apresentar os pressupostos teóricos
da Etnolinguística,
disciplina que procura investigar os relacionamentos entre língua e
visão de mundo a partir do contexto em que a língua é produzida, e cujo
campo de estudo foi delimitado por Edward Sapir, que exigia para
ela o mesmo rigor de todas as ciências. Além
disso, apresenta também as tarefas da Etnolinguística conforme a
perspectiva de Eugênio Coseriu, que procurou delimitar com
precisão o objeto próprio dessa disciplina.
Palavras-chave:
língua, cultura, estudos etnolinguísticos, tarefas da Etnolinguística.
Abstract:
This paper aims to present the theoretical principles of the
Ethnolinguistic, a discipline that investigates the relationship between
language and worldview from the context in which language is produced,
and
whose field of study was limited by Edward Sapir, which required it the
same rigor of all sciences.
Furthermore, it also presents the tasks of Ethnolinguistic according to
Eugenio Coseriu’s perspective, which sought to define precisely the
proper object of this discipline.
Keywords:
language, culture, ethnolinguistic studies, Ethnolinguistic tasks.
Introdução
A linguagem está presente em todas as atividades humanas. Além de sua
função principal de estabelecer comunicação entre os homens, ela é
responsável pela sistematização de suas experiências em relação aos
fenômenos do mundo. A sociedade se constitui através da linguagem, visto
que é devido à sua existência que o homem transmite tudo que aprendeu,
conheceu ou experimentou a outras gerações. Portanto, ela é responsável
pela transmissão de todo o acervo cultural acumulado pela humanidade
durante séculos.
Os assuntos relacionados à linguagem sempre despertaram o interesse da
humanidade que, desde a Antiguidade, já se debruçava sobre vários
estudos a respeito de sua organização, bem como de seus constituintes.
Tais estudos continuaram e continuam, sob outras perspectivas, a serem
empreendidos até os dias atuais. No século XX, procurava-se investigar a
linguagem, abstraindo os elementos exteriores ao sistema lingüístico,
preocupando-se em separar os estudos da linguagem, enquanto instituição,
dos estudos da Lingüística. Esta deveria ter uma autonomia, enquanto os
problemas extralingüísticos deveriam ser tratados por outras ciências.
Porém, nos estudos lingüísticos, era latente a preocupação em relacionar
a linguagem com outras disciplinas. Em A Lingüística
como ciência, por exemplo, Sapir evidenciava que
É especialmente importante que os lingüistas, tantas vezes acusados, e
acusados com justiça, de não saberem enxergar além dos elaborados
padrões que depreendem em seu estudo, passem a perceber claramente o que
a sua ciência significa para a interpretação da conduta humana em geral.
Queiram eles ou não, terão de cada vez mais se interessar pelos
múltiplos problemas antropológicos, sociológicos e psicológicos que
invadem o âmbito da linguagem.
(SAPIR, 1969, p. 27)
Surgiram, assim, diversas ciências (ramificações da Lingüística) que
procuram estabelecer relações com a Lingüística: a Psicolingüística, a
Sociolingüística, a Antropolinguística, a Etnolinguística, etc. Esta
última procura estabelecer relação entre linguagem e cultura. A
linguagem, característica universal do homem, é eminentemente social,
estando intimamente relacionada com a cultura. Através dela, todas as
concepções do mundo são levadas ao homem.
Várias pesquisas foram realizadas em torno da linguagem enquanto
fenômeno social, como as de Malinowski que, ao analisar um texto
primitivo, mostrou que a língua está arraigada na realidade cultural,
nos costumes de um povo, não podendo, portanto, ser explicada sem
referência constante a estes. Levis-Strauss, por exemplo, ao analisar as
relações de parentesco como formas de comunicação, exige, para a
linguagem, a instauração da sociedade. Para ele, a cultura decorre da
linguagem. Mas foi o estudo de Sapir-Whorf o de maior destaque nesse
sentido. Eles consideraram a linguagem um poderoso símbolo de
solidariedade em que, de forma inconsciente, sobre os hábitos da
linguagem de um grupo, é construída a realidade.
Sem dúvida, a partir do desenvolvimento da Lingüística como ciência e da
Antropologia, a língua passou a ser analisada cientificamente como
elemento da cultura. A cultura, de acordo com Montagu,
representa a resposta do homem às suas necessidades básicas. É o modo
que tem o homem colocar-se à vontade no mundo. É o comportamento que
aprendeu como membro da sociedade. Podemos defini-la como o modo de vida
de um povo, o meio, em forma de idéias, instituições, potes e panelas,
língua, instrumento, serviços e pensamentos, criado por um grupo de
seres humanos que ocupam um território comum.
(MONTAGU, 1972, P. 131)
Já
a língua se apresenta, de acordo com Mattoso Câmara,
como um microcosmo da cultura. Tudo que esta última possui se expressa
através da língua; mas também a língua em si mesma é um dado cultural.
Quando um etnólogo vai estudar a uma cultura, vê com razão na língua um
aspecto dessa cultura. Nesse sentido, é o fragmento da cultura de um
grupo humano a sua língua. Mas, como ao mesmo tempo a língua integra em
si toda a cultura, ela deixa de ser esse fragmento para ascender à
representação em miniatura de toda a cultura. E ainda mais: como
elemento de cultura, a língua apresenta o aspecto muito curioso de não
ser em si mesma uma coisa cultural de per si, à maneira da religião, da
organização da família, da arte da pesca etc.; ela apenas serve dentro
da cultura como seu meio de representação e comunicação.
(MATTOSO CÂMARA, 1965, p.18)
Primeiros
estudos etnolinguísticos
As pesquisas etnolinguísticas datam do século XIX, quando os
norte-americanos passaram a estudar grupos tribais e suas respectivas
línguas, com o objetivo de identificar a sua organização,
classificando-os lingüística e etnicamente. Nessas pesquisas, cada
sociedade e cada língua foram analisadas em particular, sem estabelecer
relação entre as mesmas. Assim, não foi aplicado o método
histórico-comparativo da lingüística européia.
No final do século XIX, propondo estudar as sociedades indígenas em sua
própria estrutura, Franz Boas, da Universidade de Colúmbia, nos Estados
Unidos, realizou um trabalho pioneiro pesquisando línguas indígenas na
costa do Pacífico norte. A partir do método das ciências naturais, ele
descreveu com objetividade e rigor cada grupo, relacionando os fenômenos
culturais aos fenômenos lingüísticos e considerando ambos de natureza
inconsciente. Para ele, os fenômenos lingüísticos jamais chegam a ser
conscientes, enquanto os culturais podem atingir o nível da consciência
individual. Mas isso não compromete o relacionamento entre eles e,
assim, é possível utilizar-se de métodos etnológicos e lingüísticos nas
pesquisas, como se percebem na Etnolinguística. Boas deu um novo
direcionamento à lingüística, demonstrando que as afinidades entre
línguas podem ser explicadas também pela difusão originada do contato
entre grupos humanos. Influenciado por Boas, Edward Sapir deu
continuidade aos seus estudos etnolinguísticos das línguas indígenas.
Segundo ele, sendo a linguagem a expressão da capacidade de simbolização
e o resultado da integração do homem no contexto cultural, é possível
estabelecer relações entre a lingüística e a etnologia. A tradição
antropológica de Boas e Sapir na lingüística norte-americana tiveram
continuidade com Whorf, discípulo de Sapir, cuja premissa era a de que a
língua molda a concepção de mundo dos grupos humanos e, portanto, esta
depende da estrutura da língua falada pelo grupo.
Os estudos que relacionam linguística e antropologia tiveram
continuidade na lingüística norte-americana com a contribuição de vários
pesquisadores, como Greenberg, que estudou a dupla natureza da
lingüística: parte da ciência da cultura e parte da semiótica; Pike, que
propõe reunir os tipos de análise lingüístico e extralingüístico num
modelo comum; Goodenough, que analisou termos referentes ao sistema de
parentesco, aplicando um método lógico-matemático; Swadesh, que procurou
determinar, através de um estudo estatístico, o ritmo das alterações no
léxico das línguas, investigando lexias referentes a partes do corpo,
cores, fenômenos meteorológicos, etc. que sofrem constantes mudanças em
todas as línguas. Já na Europa, os estudos que envolvem lingüística e
antropologia não tiveram a mesma dimensão dos estudos realizados nos
Estados Unidos. No entanto, alguns se destacaram, como os de Edward
Tylor, que escreveu alguns capítulos sobre linguagem em Primitive
Culture (1871) e Antropology (1881); Malinosky, que defendia
uma teoria etnolingüística que orientasse os estudos em sociedades
primitivas relacionados com os estudos etnográficos destas; Firth que,
influenciado por Malinosky, investigou a utilização da linguagem em
diferentes sociedades, bem como os graus de comunicação estabelecidos
através dela.
O que é Etnolinguística?
Etnolingüística é uma disciplina que tem causado confusões no que tange
à terminologia, bem como ao seu objetivo de estudo. Por isso, muitos
estudiosos têm se dedicado à definição de seus fundamentos e suas
tarefas. Geralmente é concebida como a disciplina que estuda as relações
entre língua, cultura e sociedade. Com mais precisão, ela se define
como a disciplina lingüística que estuda a variedade e a variação da
linguagem em relação com a civilização e a cultura.
A Etnolinguística abrange domínios tanto da Lingüística quanto da
Antropologia, por isso não é uma disciplina isolada e autônoma. Ela se
preocupa em investigar os relacionamentos entre a língua e visão de
mundo, a partir do contexto em que a língua é produzida, analisando a
sua adaptação a este contexto e seu poder de expressão. Através dela, é
possível perceber de que forma a visão de mundo de um grupo está
relacionada às suas experiências, bem como se verifica a influência da
cultura no léxico e na gramática de uma língua, de acordo com as
atividades, sua estrutura social e o ambiente geográfico.
A Etnolinguística não analisa o fato lingüístico isoladamente,
mas sempre relacionado ao contexto em que ele foi produzido,
considerando os dados paralingüísticos e extralingüísticos. Assim, de
acordo com Dell Hymes, devem ser considerados: o emissor, o receptor, a
forma da mensagem linguística, os códigos, os canais de comunicação, o
tema e o contexto.
O campo de estudo da Etnolinguística foi delimitado por Edward
Sapir, para quem a Etnolinguística deveria ter o mesmo rigor de todas as
ciências. Porém os métodos de estudo da Etnolinguística podem variar
conforme a orientação e os interesses do estudioso.
Com o objetivo de definir as tarefas da Etnolinguística, Eugenio Coseriu
(1978) procura delimitar com precisão o objeto próprio dessa disciplina.
De acordo com ele, as definições da Etnolinguística são imprecisas e
amplas demais, fazendo-se necessária a repartição de seus estudos em
várias disciplinas, bem como a ampliação do objeto de estudo até então
lhe atribuído. Dessa forma, ele limita a Etnolinguística (disciplina
lingüística, não etnológica nem etnográfica) ao estudo da variedade e
variação da linguagem em relação com a civilização e a cultura.
Considerando o ponto de partida dos estudos, Coseriu (1978) faz
uma distinção entre uma Etnolinguística propriamente dita e uma e
“Etnografia lingüística”. Partindo da correlação linguagem-cultura,
a Etnolinguística propriamente dita ocupa-se dos fatos lingüísticos
determinados pelos “saberes” acerca das coisas, enquanto a Etnografia
lingüística trata da cultura, dos “saberes” acerca das “coisas”
expressos pela linguagem enquanto manifestação cultural.
Para melhor compreensão das tarefas dessa disciplina, Coseriu (1978)
propõe ainda três planos da estrutura geral da linguagem, aos quais
correspondem saberes e conteúdos lingüísticos distintos:
a)
o plano universal do falar geral, ao qual correspondem o saber
elocucional, independente da língua em uso, e a designação,
referência à realidade, a “coisas” e “estados de coisas”;
b)
o plano histórico das línguas, ao qual correspondem o saber
idiomático, domínio de uma língua e o significado, conteúdo
dado pelas oposições idiomáticas;
c)
o plano individual do discurso, ao qual correspondem o saber
expressivo, adequação do discurso ao contexto e o sentido,
conteúdo próprio do discurso determinado por fatores extralingüísticos.
Em razão disto, Coseriu define três linguísticas diferentes: a
do falar, a das línguas e a do discurso. E pela mesma razão, distingue
três planos para a Etnolinguística. Assim, ele propõe uma
Etnolinguística do falar em geral, uma Etnolinguística das línguas e uma
Etnolinguística do discurso, com tarefas e sentidos distintos. Estudar a
linguagem definida pelo conhecimento universal do mundo, pelos saberes
extralinguísticos concerne à Etnolinguística do falar. Já a
Etnolinguística da língua se preocupa com os fatos de uma língua
determinados pelos “saberes” acerca das “coisas” e, consequentemente,
pela estratificação social das comunidades e da linguagem em si. A
Etnolinguística do discurso, por sua vez, estuda os discursos, seus
tipos e estruturas determinados pela cultura de uma comunidade.
Por fim, ele salienta que, em sentido diacrônico, cabe à
Etnografia lingüística estudar “as mudanças na cultura manifestada pela
linguagem” e à Etnolinguística diacrônica, “as mudanças na
linguagem enquanto motivadas por mudanças na civilização e na cultura”.
Considerações
finais
A análise da língua de uma determinada comunidade, partindo dos
fatos lingüísticos para os fatos extralingüísticos, permite conhecer
melhor a realidade social desta. Em função dos fatores
extralingüísticos, podem ser explicitados vários fenômenos lingüísticos,
como o aparecimento de determinadas formas lingüísticas.
No que tange ao léxico de uma língua, por exemplo, os estudos
demonstram que este pode situar preferências culturais de uma dada
comunidade, refletindo mais as coisas que estão diretamente ligadas à
sua vida diária. Conforme a atividade dessa comunidade, seus membros
terão especificidade lexical mais desenvolvida nessa área, predominando
as referências aos objetos, materiais, ações, conceitos relacionados a
esta atividade. Assim, percebe-se a importância da cultura nos estudos
lingüísticos.
Referências
CÂMARA JR, Mattoso. Introdução às línguas indígenas brasileiras.
Rio de Janeiro: Universidade do Brasil, Museu Nacional, 1965.
COSERIU, Eugênio. Fundamentos e tarefas da Sócio- e da
Etnolinguística. I CONSEL. João Pessoa: 1978. (Mimeo).
DICK, Mª Vicentina de P. do Amaral. Aspectos de Etnolinguística: a
toponímia carioca e paulistana contrastes e confrontos. São Paulo:
USP.
ENCICLOPÉDIA Mirador Internacional. São Paulo: Enciclopédia Britânica do
Brasil, 1995. 20 v.
MONTAGU, Ashley. Introdução à Antropologia. São Paulo: Cultrix,
1972.
SAPIR, Edward. A Linguística como ciência. Rio de Janeiro:
Acadêmica, 1969.
WEEDWOOD. B. Introdução. In: História concisa da Linguística. São
Paulo: Parábola, 2002.
MALINOWSKI, Bronislaw. Antropologia. Trad. Eunice R.
Durham. São Paulo: Ática, 1986.
Como citar esse artigo
LIMA BARRETO, Evanice Ramos. Etnolinguística: pressupostos e
tarefas. P@rtes. (São Paulo). Junho de 2010.
ISSN 1678-8419.
Disponível em
<www.partes.com.br/cultura/etnolinguistica.asp>. Acesso em _/_/_.
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