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Este trabalho pretende, na
medida do possível, expor algumas das funções assumidas pela música na
capoeira escrava, que foram de suma importância para a sua própria
sobrevivência ao longo dos tempos. Nesse sentido, estudaremos aqui sua
função “mascaradora”, “ativadora”, rítmica e “memorialista”.
Palavras-chave: Capoeira; música;
identidade cultural; escravidão.
Abstract:
This paper
aims, as far as possible, expose some of the functions of the music in
the slave capoeira, which were critical to their survival over time.
Accordingly, here we will study its function "masked", "activator",
rhythmic and "memoirist".
Key words: Capoeira; music;
cultural
identity; slavery.
A capoeira, assim como todos
os elementos que a integra, tem sua origem mergulhada nas incertezas,
uma porque a história, as experiências e os ensinamentos da capoeira
foram repassados, na maioria das vezes, por meio da tradição oral entre
mestres e aprendizes ao longo dos tempos. Já os documentos escritos, em
quase sua totalidade foram produzidos por instituições que aspiravam sua
destruição. Todavia, o Conselheiro Ruy Barbosa, sob o cargo ministro da
Fazenda do Governo Provisório, em 1889, ordenou que fosse posto fogo nos
documentos referentes ao período escravista brasileiro (cf. MELLO, 1996,
p.29)
,
dificultando ainda mais os estudos sobre a história da capoeira.
Ferracini e Maia (2007, p.33)
pontuam que a capoeira surgiu da combinação entre escravidão, religião e
dança. Os escravos, subjugados por um sistema repressivo de escravidão,
necessitavam de uma “arma” para lutar contra seus adversários –
senhores, feitores, capitães. É nessa condição que a dança trazida do
continente africano se configura numa verdadeira arte marcial. Mas a
capoeira que surgia ia muito além de um mero estilo de luta, pois a
religião dos africanos cuidou de inserir-lhe valores de vida e respeito
aos ancestrais. Estava formada a capoeira escrava.
Hoje, não conseguimos imaginar
uma roda de capoeira sem a presença da música; a música se constituiu
como um elemento indissociável da capoeira, mas não foi assim sempre.
Segundo Carneiro (1977, p.19), a capoeira,
[...]
tratando-se de uma forma de luta pela liberdade, não seria de esperar a
presença de instrumentos musicais. Estes só apareceriam mais tarde,
quando os negros passaram a exercitar-se para combates futuros. Pertence
certamente a esta fase a gravura de “jogo de capoeira” de Rugendas,
Viagem Pitoresca Através do Brasil, 1835, devendo-se notar, porem, que o
único instrumento musical à vista é um tambor, que um negro toca com as
mãos, cavalgando-o.
A datação de quando a música
se incorporou à capoeira nos é fugaz, apenas especulamos que sua
incorporação ao jogo se deu gradualmente, tendo como principal função
mascarar sua forma agressiva. Porém, como veremos, a capoeira era uma
forma de manifestação negra e toda manifestação negra no período
escravista era reprimida, visto que poderia subentender liberdade para o
negro, ou seja, algo perigoso para uma sociedade predominantemente
escravocrata. Em Salvador, por exemplo, já no início do século XVIII, o
atabaque e a marimba – instrumento de percussão, vistos como subversivos
pelas autoridades – foram proibidos, numa tentativa de impedir o
“ajuntamento de negros” que “manchavam” a imagem da cidade (ABREU, 2008,
p.37). Acontece que em muitos casos os senhores permitiam a prática da
capoeira em suas fazendas – enquanto dança, brincadeira, é claro! –,
porque “viam nos batuques uma oportunidade para os escravos
esquecerem-se, por alguns momentos, da sua triste condição: o prazer
para esconder a dor” (ABREU, 2008, p.38).
Estamos cientes de que grande
parte da história dos negros foi construída com grandes batalhas e
estratégias para superar sua condição marginalizada e preservar sua
cultura e identidade. Com a capoeira não foi diferente. A capoeira era
tolerada em algumas ocasiões enquanto “divertimento de escravos” e não
enquanto prática de luta. É nesse sentido que a música surge com a
função de converter a imagem agressiva da capoeira em algo aceitável. O
berimbau, por exemplo, segundo Fontoura e Guimarães (2002, p.143) e
Moura (2004, p.86), que servia para dar ritmo ao treinamento da
capoeira, também servia para avisar aos jogadores a aproximação do
senhor ou de um feitor, ou seja, o momento de transformar a luta em
dança. Em outras palavras, quando a banda avistava algum feitor,
transmitia uma espécie de “código rítmico musical”, que guiava os
jogadores a abrandar os golpes, a deixar a luta com aparência de
brincadeira.
Não sabemos qual a primeira
função assumida pela música na capoeira: para dar ritmo ou camuflá-la
perante seus perseguidores, mas o fato é que ela tornou-se elemento
essencial para a prática da capoeira. Numa roda de capoeira, é a música
que determina o andamento do jogo; ela é a que norteia o jogador para o
que deve ser feito e quando ser feito. Conforme a música vai aumentando
de ritmo, os golpes vão se tornando mais velozes. A união entre ritmo
musical e movimento corporal transporta os jogadores a um patamar
mágico. O jogador se entrega àquele momento de “corpo e alma”.
O ritmo
das músicas não têm apenas caráter decorativo, serve de força ativadora
das energias dos capoeiras. Essa força está justamente no aumento
progressivo e repetitivo do ritmo das cantigas, que acabam exercendo
influência como hipnótica ou enfeitiçante, capaz de conduzir a um
transe, estado de embriaguez semelhante ao dos camdomblés. (MARCONDES,
1998, p.155)
Mesmo se no final do século
XVIII a capoeira não provesse de acompanhamento musical, torna-se nítida
sua tendência para a música. A presença dos capoeiras era comum nas
festas populares, nos enterros de negros e escravos e principalmente em
procissões religiosas, como expressa Gilberto Freyre, em Sobrados e
Muncambos: “[...] as procissões com banda de música tornaram-se o
ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato
da cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos
engenhos” (FREYRE, 1951, p.178-9).
A música na capoeira escrava
também tem a função de preservar a memória, os fundamentos, a cultura e
a identidade daqueles que compartilhavam da mesma condição degradante e
marginalizada – a capoeira não se limitava apenas aos negros, escravos
ou não, mas todos os que se sentissem excluídos da sociedade poderiam
dela participar. Por isso é que as letras das músicas da capoeira falam
dos mestres antigos, dos castigos deferidos contra os escravos, das
experiências nas senzalas, das armas utilizadas nos combates, e advertem
que, “Zum, zum, zum, capoeira mata um”.
Referências Bibliográficas
ABREU, Frederico José de. A
repressão à capoeira. Revista Textos do Brasil [online],
Ministério das Relações Exteriores, 2008, n. 14, p. 35-42, Disponível
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www.dc.mre.gov.br/imagens-e-textos/revista-textos-do-brasil/portugues/edicao-no-14-capoeira
Acessado em: 02/02/2010.
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2. Ed. Rio de Janeiro: Cadernos de Folclore, 1977.
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MOURA, Clóvis. Dicionário
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