O conto Informe de um Gago, escrito por Sérgio
Sant’Anna, agrupa um conjunto de características do conto urbano
(final século XX), como o diálogo coloquial, o espaço, o tempo. Ele
é narrado em primeira pessoa (sendo que o narrador é anônimo durante
todo o enredo), no tempo pretérito, com parênteses, no meio e no fim
da trama para expressar a opinião, ou, um informe sobre os gagos.
Esse parecer é feito por um segundo narrador, externo à estória.
A unidade dramática desse conto se dá desde o início.
Na primeira parte, Esmeralda abandona seu amante gago para viver com
outro. Ela arruma suas malas e o gago a acompanha até a esquina:
- Fi...ca co...migo! [...]
- Será que você não vai se convencer
nunca? [...] Um sujeito raquítico, com esse peito encovado. Que foi
licenciado do banco porque gagueja diante das pessoas, mas fala
sozinho e gesticula no meio da rua. Está vendo porque eu não queria
despedidas? [...] (SANT’ANNA, 1997, p. 701)
Nesse conto, como dito anteriormente, há a presença
de outro narrador que “pausa” a estória para apresentar seu parecer
sobre os gagos:
Os gagos não são estúpidos como
parecem. Muito pelo contrário, o que um gago não consegue é
acompanhar a velocidade vertiginosa do seu pensamento e as palavras
são como um estorvo que ele tropeça [...]. (SANT’ANNA, 1997, p. 701)
Dalton Trevisan, também contista contemporâneo como
Sant’Anna, escreve seu conto O Vampiro de Curitiba,
apresentando Nelsinho como narrador. Embora também narrado em
primeira pessoa, no conto não há “pausas” para expressar pareceres.
O próprio Nelsinho opina sobre as mulheres: [...] beijo de virgem é
mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia
feliz. (TREVISAN, s/d, p.09).
Para Moisés (1973), o foco narrativo na primeira pessoa
faz com que o narrador interprete através do seu ângulo pessoal,
oferecendo de si uma imagem sempre otimista, e dos outros, negativa,
ou pouco boa, como se pode observar nessa passagem:
- Não, eu não vou te julgar,
Esmeralda, mas teve um tempo em que o seu futuro era eu [...]
- Mas você exagerou, Esmeralda: o meu
gesticular é discreto, apenas um homem que rabisca o ar, com o punho
junto à cintura, o que lhe dá a sensação de que suas palavras e
pensamentos se escrevem. (SANT’ANNA, 1997, p. 701)
O crítico também considera o conto unívoco e
univalente, que compõe uma unidade de início meio e fim, cujo
passado e o futuro do enredo é sem importância.
O conto constitui uma fração
dramática [...] duma continuidade em que o passado e o futuro
possuem significado menor, ou nulo. (MOISÉS, 1973, p. 125)
A partir dessa citação, pode-se observar que o conto é o
presente, o hoje, o agora. Entretanto em Informe de um Gago,
assim como em Missa do Galo, de Machado de Assis, o passado
se faz necessário para a unidade dramática. No primeiro conto, o
gago busca na lembrança a resposta a ser dada à Esmeralda:
E você se engana, Esmeralda, se acha
que poderá se libertar de mim. [...] Talvez então se dê conta de que
ficou esse tempo todo comigo justamente porque sou gago. (SANT’ANNA,
1997, p. 703)
Já, em Missa do Galo, o narrador retorna aos seus
dezessete anos e procura na conversa que teve com Conceição o
entendimento para o que ele sentira naquela hora em que estiveram
juntos: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora,
há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” (ASSIS, s/d, p.
1)
De acordo com Moisés (1973), sendo o tempo pretérito
dominante no conto, a noção de presente mantém-se por causa do foco
narrativo que está na primeira pessoa. Logo,
O leitor passa a impressão de que
está sendo participado de ocorrências quase contemporâneas à
leitura, como se a realidade viva lhe fosse revelada em pleno
processo dinâmico [...], o protagonista dirige expressamente ao
leitor, ou interlocutor, como se apenas contasse um “caso” a
determinado ouvinte, que é sempre a pessoa que naquele momento se
deleita com a narrativa. (MOISÉS, 1973, p. 134-135)
A noção de espaço, segundo Moisés, também deve ser em
âmbito restrito, salvo a presença de mais locais geográficos que
servem para suprir a necessidade do conflito em cena. Em Informe
de um Gago, há dois espaços onde acontecem os fatos: o
apartamento e a esquina da rua. Esses lugares são necessários para o
desenvolvimento da trama – o apartamento onde ocorre a tensão e a
esquina onde Esmeralda se despede. Outro exemplo de conto que contém
vários espaços é O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto.
Nessa trama, Castelo conta ao seu amigo Castro o sucesso que tivera
como professor de javanês, e nisso o enredo se desenvolve em vários
locais, como o bar onde castelo conta sua história, as ruas do Rio,
a mansão do velho barão, o congresso na Europa, entre outros, que
servem de base para que o conto flua coerente e objetivo. O tempo,
nesse conto, não é unitário. O presente, ali, é a conversa entre
Castro e Castelo no bar. Toda a narração é feita no passado e em
varias “fases”: “Passei a ser uma glória nacional [...] Dentro de
seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos
[...]”. (BARRETO, s/d, p. 12)
Observa-se que a noção de tempo no conto, assim como
o espaço, oferece ao corpus textual maior coerência e
entendimento dos fatos que estão sendo narrados. Mesmo havendo mais
de uma unidade, a narrativa de Informe de um Gago e O
Homem que Sabia Javanês obedece a uma estrutura harmoniosa,
objetiva. Conforme Moisés (1973), a impressão coerente e singular
ocorre pelo fato do conto operar com a ação e não com caracteres, a
fim de que o leitor se espelhe nas situações conflituosas do enredo.
Quanto à questão das personagens, Moisés (1973) afirma que,
[...] as personagens tendem a ser
estáticas: porque as surpreende no instante climático de sua
existência, o contista as imobiliza no tempo, no espaço, na
personalidade. (MOISÉS, 1973, p. 127)
Observa-se, então, que a tarefa da personagem é mostrar
seu caráter sem se importar em “crescer” diante do leitor. Para a
personagem, o que importa é colocar no apogeu a sua situação humana.
Em Informe de um Gago, o próprio narrador deixa claro a
consciência de seu caráter:
E o que nele se estampava, a par do
capricho egoísta, a baba lasciva [...] eram o meu gozo aflito e
minha consciência aguda. A consciência de que não podíamos deixar de
ser como éramos. Mais ainda do que isso, a de que eu queria ser quem
eu era. (SANT’ANNA, 1997, p. 703)
Além disso, a presença do outro narrador na estória
transmite, além da opinião, um informe sobre o temperamento da
pessoa gaga:
Os gagos são grandes amantes,
discretos, silenciosos, objetivos, concentrados. [...] E já temem
tornar-se tediosos falando, os gagos são ainda mais tímidos para se
tornarem repulsivos e pegajosos com carícias em excesso e fora de
hora [...]. (SANT’ANNA, 1997, p. 703)
Simões Lopes Neto, em O Negro Bonifácio, começa
seu conto baseado nas características da personagem principal, e a
partir disso, desenvolver a trama: “Se o negro era maleva? Cruz! Era
um condenado! Mas, taura, isso era, também!” (NETO, s/d, p. 12)
A partir da descrição do caráter da personagem, pode-se
ter uma noção de como será a estória. Assim como Informe de um
Gago, a ação inicial de Esmeralda transmite o conflito que está
para acontecer:
Esmeralda não me olhava de frente,
enquanto terminava de fazer a mala [...]
- Não torne as coisas mais difíceis.
– Esmeralda desvencilhou-se de mim. (SANT’ANNA, 1997, p. 701)
A forte presença da metáfora também é comum entre os
contos descritos anteriormente. Segundo Moisés (1973), a linguagem
objetiva do conto pede para que as metáforas sejam de curto espectro
e de imediata compreensão para o leitor. Nessa característica, ambos
os textos (de Simões Lopes Neto e de Sant’Anna) utilizam a metáfora
de maneira correta e de fácil entendimento de leitura:
Os olhos de Tudinha eram assim a modo
olhos de veado-virá, assustado: pretos, grandes, com a luz dentro,
tímidos e ao mesmo tempo haraganos [...] (NETO, p. 12)
O vestido largado no chão ainda
conservava um pouco da forma e volume de um corpo, como um balão
apagado [...] (SANT’ANNA, 1997, p.702)
Percebe-se que a metáfora, aqui, aproxima o leitor ao
interior do narrador. A utilização desse recurso faz com que sua
leitura se torne interessante e descontraída, além de transmitir sua
opinião, sua idéia sobre o assunto:
Então o amor canino de um gago pela
mulher é camuflado pela prudência, desconfiança e sensualidade
furtiva dos gatos. (SANT’ANNA, 1997, p. 703)
Segundo Moisés (1973), a trama do conto é linear e
objetiva. Ao iniciar o conto, ele já está próximo do epílogo,
fazendo com que a precipitação domine o conto e que o leitor conheça
os momentos anteriores ao clímax dramático. O enredo se organiza de
acordo com os acontecimentos da vida e os pormenores se acumulam
numa lógica de fácil percepção leitora, entretanto, mantendo o tom
enigmático:
As ocorrências se mostram
integralmente ao leitor, mas carregam dentro de si, sem que ele o
saiba, um mistério, um nó dramático a ser desfeito, o qual não
reside em qualquer truque de técnica [...] (MOISÉS, p. 132)
No caso de Informe de um Gago, o final enigmático
se dilui ao longo do conto, pois o que ali importa é a análise
interna dos acontecimentos, ou melhor, da pessoa gaga (feita por um
segundo narrador), e a partir dos fatos, expressar sua opinião,
sempre, claro, conseguindo realizar o intento do conto, que é a de
narrar uma história que convença o leitor. O emprego da primeira
pessoa, conforme Moisés (1973), atribui ao conto uma unidade de
narrativa, graças à concentração de efeitos, e ao caráter plausível
que lhe é essencial.
REFERÊNCIAS CONSULTADAS:
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária – Introdução à problemática
da Literatura. 5ª Ed. Melhoramentos: São Paulo, 1973.
SANT’ANNA, Sérgio. Contos e Novelas Reunidos. Cia das Letras:
São Paulo, 1997.
SEBEN,
Paulo. Material didático organizado para disciplina de Conto
Brasileiro. UFRGS. S/D (coletânea de contos).
* Professora, poeta, crítica
literária.