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Resumo:
Determinados conceitos trabalhados no campo filosófico são de
grande valia para o literário também. A partir de tal premissa,
o presente ensaio tem por objetivo principal pensar a
responsabilidade do escritor da narrativa, bem como da
literatura pensada como arte, a partir dos conceitos de
engajamento (ADORNO)
e leitura alegórica
(BENJAMIN). Para tal, utilizar-se-á a leitura/interpretação de
Ensaio sobre a Cegueira
de José Saramago, a fim de relacionar suas provocações com tais
reflexões frankfurtianas.
Palavras-chave: engajamento; leitura alegórica; escritor.
Qual é o papel do escritor em uma cultura tão prenhe de
contradições? Que responsabilidades esse tem no momento de
produção de uma poderosa (des)construção de discurso que compete
à literatura? Tendo esta a possibilidade de não acatar verdades
pré-estabelecidas de outros discursos, a quem a literatura é
percebida como importuna?
Em torno de tais questões é que nasce o interesse de uma
reflexão crítico-filosófica de uma das mais conhecidas obras de
José Saramago. Bem como é possível, no mínimo, compreender o
quão política é a função da literatura, enquanto arte, bem como
das demais manifestações artísticas. No entanto, como bem
especifica o título deste ensaio, o mesmo tem a intenção de
interpretar o romance
Ensaio sobre a cegueira, cotejando-o com duas riquíssimas
contribuições de Theodor Adorno e Walter Benjamin. Para tal,
interessante se torna um breve comentário acerca do enredo da
obra.
Uma súbita cegueira começa com um único homem, durante a sua
rotina habitual e em seguida uma cadeia sucessiva de cegueira
(branca) começa a formar-se. O governo resolve intervir, e todos
infectados são confinados em um hospício com recursos bastante
limitados, onde irão desvendar aos poucos as características
primitivas da espécie humana. Apenas uma mulher (esposa de um
oftalmologista) secretamente manterá a sua visão, presenciando
visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na história:
poder, ganância, carinho, desejo, vergonha; opressores;
oprimidos; subjugadores e subjugados. No momento em que a mulher
que vê consegue livrar-se do hospício, depara-se com a ausência
de guarda: cadáveres, lixo, detritos, todo o tipo de imundice se
instalara pela cidade. Os cegos seguem seus instintos como
animais, alojando-se em moradas desconhecidas. O romance tem seu
fim quando subitamente, exatamente pela ordem de contágio, o
mundo cego dá lugar ao mundo imundo e bárbaro, e a
igreja se encontra com os santos de olhos vendados, podendo ser
entendida como um dos extratos mais poéticos da narrativa: se os
céus não vêem, então que ninguém veja, numa alusão ancorada nas
reflexões de Nietzsche, "se deus está morto, então tudo posso".
Contudo, as memórias e rastros não se atenuam.
Lembrando Édipo rei e algumas outras obras já se torna notório
que a temática da cegueira não é novidade. Como recém comentado,
neste romance o enredo parte de uma súbita e inexplicável
epidemia de cegueira e a partir desta os mais básicos e tão
prestigiados valores de uma sociedade são abalados e a cegueira
física começa a ser facilmente interpretada como
cegueira moral.
Esta talvez seja a mais aparente relação que se possa
estabelecer entre este romance e a teoria benjaminiana: o seu
conceito de leitura
alegórica. Pensando em como a literatura
trabalha com a memória do leitor. Saramago se utiliza do
tema da cegueira para abordar a maneira com que o homem
contemporâneo (ou pós-moderno) encara, ou
vê, o seu tempo.
Ele lança mão de uma situação
insólita, dizendo
algumas coisas com a intenção que estas signifiquem outras.
Exatamente esta é a caracterização de Walter Benjamin para o
conceito que acabou de ser evocado, visto que, discursar
alegoricamente quer dizer utilizar a linguagem literal para
remeter o interlocutor a um outro nível de significação. Como
faz o autor em questão, ao dizer uma coisa para que outra seja
compreendida.
Não somente na construção da temática geral do romance, como
também nos demais aspectos que compões seu todo, é possível
perceber a maneira alegórica de Saramago ao constituir sua
narrativa. À guisa de exemplificação, curiosa é a maneira como
os personagens são referenciados, sendo-lhes feita uma relação
qualquer a alguma de suas características, quase sempre
ancoradas aos olhos: o velho da venda preta; a cega das
insônias; a rapariga dos óculos escuros; o menininho estrábico.
Fazendo com que o leitor compreenda a maneira como cada um (não)
é percebido em sua sociedade, os rótulos atribuídos ao próximo
bem como o fácil esfacelamento das identidades.
Outro claro exemplo a ser observado é o local onde uma
nova-velha forma de
poder começa a ser exercida: um espaço de isolamento, um
manicômio desativado, mal cuidado e abandonado, rodeado de lixo.
Local propício à desordem e egoísmo, onde o poder é exercido em
virtude do medo que se tem do outro. O que pode facilmente ser
estabelecida uma relação com as diversas formas de poder que
permeiam a organização política social.
No que compete à teoria adorniana, o caráter
engagée de Saramago é
o que mais se revela na leitura desta obra, visto que para
Adorno o engajamento resvala para a mente do escritor apesar de
todos os semi-tons materialistas. O filósofo alemão advoga que a
obra de arte torna-se convocação de sujeitos, porque não é outra
coisa se não o manifesto desses sujeitos, de suas decisões (ou
não decisões). Dessa forma, a convocação de Saramago se
apresenta já em sua epígrafe: “Se podes olhar, então vê. Se
podes ver, repara (1995, p.09). Constituindo o todo da obra a
partir de um desejo de mudança política.
Para Theodor W. Adorno, é neste aspecto que reside a distinção
entre o escritor engajado
e o escritor tendencioso,
já que, enquanto este institui medidas e atos legislativos,
aquele se esforça por uma atitude, refletindo em torno das
alternativas e questionando a existência/impossibilidade de um
discurso único.
Ainda que José Saramago se utilize da maneira de contar
corriqueiramente apontada como
narrador intruso,
para narrar o que acontece com uma cidade que sofre de uma
epidemia de cegueira, ele elabora suas alegorias sem impor que o
leitor comungue de seu partido, visto que, de acordo com a
função do leitor, cada um tem ciência de como o mundo lhe
parece. Contudo, não abre mão de suas provocações. Pode-se
perceber a veracidade de tal adversativa pelas diversas vezes em
que o mesmo evoca em sua narrativa provérbios bastante
conhecidos, ou ainda mais engajado, provoca a reelaboração
desses provérbios, fazendo com que o leitor perceba como se dá a
evolução, no sentido darviniano, dos quadros sociais, como
segue:
Já lá dizia o outro que na terra dos cegos quem tem um olho é
rei. Deixa lá o outro, Este não é o mesmo, Aqui nem os zarolhos
se salvariam (...) O outro também dizia que quem parte e reparte
e não fica com a melhor parte , ou é tolo, ou no partir não tem
arte, Merda, acabe lá com o que diz o outro, os ditados põem-me
nervoso. (1995,
p.103)
Unificando agora os conceitos de Benjamin e Adorno refletidos
aqui, leitura alegórica
e engajamento,
vale pensar na forma como se apresenta o título da obra.
Lembrando que “ensaio” também significa algo experimental, uma
tentativa, Saramago se abstêm de definir seus termos, como é
permitido e prestigiado na literatura. Pensado como arte, o
ensaio se define pela interação recíproca entre a formação de um
todo e as partes que o compõe. Saramago não tenta dar uma
explicação clara e racional da sociedade, bem como surpreende
pela ausência de marcas usuais da historicidade, o que o torna
mais engajado pois a tentativa de imposição de determinados
padrões ao mundo está atrelada à bárbara dominação da natureza
pelo homem, além do fato de esta ausência temporal ser
permissiva de uma maior reflexão acerca dos significados das
alegorias.
Assim sendo, as situações elaboradas pelo autor não se assemelha
a uma entidade lógica definida e distintiva, e sim formatos
novos e incertos de apreender a realidade, um movimento que, em
vez de tentar paralisá-lo como diversas vezes faz a ciência a
fim de compreendê-lo, a forma de ensaio tenta acompanhá-lo.
Adorno, em Notas sobre
Literatura, também refletiu acerca desta forma livre, breve
e assistemática, situada entre o poético e o didático, de
expor ideias, críticas e reflexões, defendendo que seus
conceitos devem ser abordados de modo que um dê suporte ao
outro, articulando-se por meio da configuração que traz o
ensaio. Para o autor, os diferentes elementos que se contrapõem
uns aos outros são reunidos para conjugar um contexto legível.
Tanto que seu exemplo favorito para descrevê-lo é o da
constelação, visto que, no ensaio, os elementos se cristalizam
como uma configuração por meio de movimentos. Metaforicamente, o
filósofo aponta que a constelação é um campo de força,
exatamente como todo estrutura intelectual é necessariamente
transformada em um campo de força sob o olhar do ensaio (ADORNO,
1984).
Logo, é possível perceber a responsabilidade social e política
que carrega consigo um escritor, acolhendo as contradições nos
momentos em que a sociedade prefere bani-las, pondo-as em
constante movimento. Procurando brechas para utilizar a
linguagem não somente para fins prático-comerciais, e sim como
uma tentativa de reorganização do sistema.
Referências Bibliográficas:
ADORNO, T. W. L’essai
comme forme.
In:Notes
sur la littérature. Paris, Flammarion, 1984.
______. Engagement.
In:Notes
sur la littérature. Paris, Flammarion, 1984.
BENJAMIN, W. Obras
Escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo,
Brasiliense, 2003.
______. Passagens.
Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 2006.
SARAMAGO, José. Ensaio
sobre a Cegueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
Graduada em Letras Port-Francês e respectivas
literaturas pela UFPel, mestranda do PPGE da mesma
universidade, sob orientação de Gomercindo Ghiggi.
Integrante do Grupo de Pesquisa FEPráxiS, Filosofia,
Educação e Práxis Social. Bolsista CAPES.
Ainda abordando esse mesmo desejo de uma mudança
política,
outra maneira de se pensar o engajamento do escritor
nesta obra, que porém aqui não será discutido, é ao
evocar lacunarmente o conceito bakthiniano de
polifonia,
narrativa constituída pela voz de todos. Ironicamente o
autor português produz
uma polifonia de
cegos, provocando uma alegórica leitura do que tem
sido a democracia nos últimos tempos: a participação e o
direito à opinião para todos, todos que nada veem.
Entende-se aqui este tipo de narrador como aquele que,
por vezes, interage com o leitor, fazendo julgamentos,
geralmente não toma parte dos acontecimentos, mas
expressa sua opinião, estabelecendo com o leitor um
canal de discussão, aberto à participação da matéria
narrada.
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