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ISSN 1678-8419                                                                                                           
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CULTURA
 
Ensaio sobre o Ensaio sobre a Cegueira: a leitura de Saramago à luz das reflexões frankfurtianas
Por: Priscila Monteiro Chaves*
Em:  26/12/2011

                                                                 

   

Resumo:

Determinados conceitos trabalhados no campo filosófico são de grande valia para o literário também. A partir de tal premissa, o presente ensaio tem por objetivo principal pensar a responsabilidade do escritor da narrativa, bem como da literatura pensada como arte, a partir dos conceitos de engajamento (ADORNO) e leitura alegórica (BENJAMIN). Para tal, utilizar-se-á a leitura/interpretação de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, a fim de relacionar suas provocações com tais reflexões frankfurtianas.

Palavras-chave: engajamento; leitura alegórica; escritor.

 

Qual é o papel do escritor em uma cultura tão prenhe de contradições? Que responsabilidades esse tem no momento de produção de uma poderosa (des)construção de discurso que compete à literatura? Tendo esta a possibilidade de não acatar verdades pré-estabelecidas de outros discursos, a quem a literatura é percebida como importuna?

Em torno de tais questões é que nasce o interesse de uma reflexão crítico-filosófica de uma das mais conhecidas obras de José Saramago. Bem como é possível, no mínimo, compreender o quão política é a função da literatura, enquanto arte, bem como das demais manifestações artísticas. No entanto, como bem especifica o título deste ensaio, o mesmo tem a intenção de interpretar o romance Ensaio sobre a cegueira, cotejando-o com duas riquíssimas contribuições de Theodor Adorno e Walter Benjamin. Para tal, interessante se torna um breve comentário acerca do enredo da obra.

Uma súbita cegueira começa com um único homem, durante a sua rotina habitual e em seguida uma cadeia sucessiva de cegueira (branca) começa a formar-se. O governo resolve intervir, e todos infectados são confinados em um hospício com recursos bastante limitados, onde irão desvendar aos poucos as características primitivas da espécie humana. Apenas uma mulher (esposa de um oftalmologista) secretamente manterá a sua visão, presenciando visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na história: poder, ganância, carinho, desejo, vergonha; opressores; oprimidos; subjugadores e subjugados. No momento em que a mulher que vê consegue livrar-se do hospício, depara-se com a ausência de guarda: cadáveres, lixo, detritos, todo o tipo de imundice se instalara pela cidade. Os cegos seguem seus instintos como animais, alojando-se em moradas desconhecidas. O romance tem seu fim quando subitamente, exatamente pela ordem de contágio, o mundo cego dá lugar ao mundo imundo e bárbaro, e a igreja se encontra com os santos de olhos vendados, podendo ser entendida como um dos extratos mais poéticos da narrativa: se os céus não vêem, então que ninguém veja, numa alusão ancorada nas reflexões de Nietzsche, "se deus está morto, então tudo posso". Contudo, as memórias e rastros não se atenuam.

Lembrando Édipo rei e algumas outras obras já se torna notório que a temática da cegueira não é novidade. Como recém comentado, neste romance o enredo parte de uma súbita e inexplicável epidemia de cegueira e a partir desta os mais básicos e tão prestigiados valores de uma sociedade são abalados e a cegueira física começa a ser facilmente interpretada como cegueira moral.

Esta talvez seja a mais aparente relação que se possa estabelecer entre este romance e a teoria benjaminiana: o seu conceito de leitura alegórica. Pensando em como a literatura trabalha com a memória do leitor. Saramago se utiliza do tema da cegueira para abordar a maneira com que o homem contemporâneo (ou pós-moderno) encara, ou , o seu tempo.  Ele lança mão de uma situação insólita, dizendo algumas coisas com a intenção que estas signifiquem outras. Exatamente esta é a caracterização de Walter Benjamin para o conceito que acabou de ser evocado, visto que, discursar alegoricamente quer dizer utilizar a linguagem literal para remeter o interlocutor a um outro nível de significação. Como faz o autor em questão, ao dizer uma coisa para que outra seja compreendida. 

Não somente na construção da temática geral do romance, como também nos demais aspectos que compões seu todo, é possível perceber a maneira alegórica de Saramago ao constituir sua narrativa. À guisa de exemplificação, curiosa é a maneira como os personagens são referenciados, sendo-lhes feita uma relação qualquer a alguma de suas características, quase sempre ancoradas aos olhos: o velho da venda preta; a cega das insônias; a rapariga dos óculos escuros; o menininho estrábico. Fazendo com que o leitor compreenda a maneira como cada um (não) é percebido em sua sociedade, os rótulos atribuídos ao próximo bem como o fácil esfacelamento das identidades.

Outro claro exemplo a ser observado é o local onde uma nova-velha forma de poder começa a ser exercida: um espaço de isolamento, um manicômio desativado, mal cuidado e abandonado, rodeado de lixo. Local propício à desordem e egoísmo, onde o poder é exercido em virtude do medo que se tem do outro. O que pode facilmente ser estabelecida uma relação com as diversas formas de poder que permeiam a organização política social.

No que compete à teoria adorniana, o caráter engagée de Saramago é o que mais se revela na leitura desta obra, visto que para Adorno o engajamento resvala para a mente do escritor apesar de todos os semi-tons materialistas. O filósofo alemão advoga que a obra de arte torna-se convocação de sujeitos, porque não é outra coisa se não o manifesto desses sujeitos, de suas decisões (ou não decisões). Dessa forma, a convocação de Saramago se apresenta já em sua epígrafe: “Se podes olhar, então vê. Se podes ver, repara (1995, p.09). Constituindo o todo da obra a partir de um desejo de mudança política.[1]

Para Theodor W. Adorno, é neste aspecto que reside a distinção entre o escritor engajado e o escritor tendencioso, já que, enquanto este institui medidas e atos legislativos, aquele se esforça por uma atitude, refletindo em torno das alternativas e questionando a existência/impossibilidade de um discurso único.

Ainda que José Saramago se utilize da maneira de contar corriqueiramente apontada como narrador intruso[2], para narrar o que acontece com uma cidade que sofre de uma epidemia de cegueira, ele elabora suas alegorias sem impor que o leitor comungue de seu partido, visto que, de acordo com a função do leitor, cada um tem ciência de como o mundo lhe parece. Contudo, não abre mão de suas provocações. Pode-se perceber a veracidade de tal adversativa pelas diversas vezes em que o mesmo evoca em sua narrativa provérbios bastante conhecidos, ou ainda mais engajado, provoca a reelaboração desses provérbios, fazendo com que o leitor perceba como se dá a evolução, no sentido darviniano, dos quadros sociais, como segue:

Já lá dizia o outro que na terra dos cegos quem tem um olho é rei. Deixa lá o outro, Este não é o mesmo, Aqui nem os zarolhos se salvariam (...) O outro também dizia que quem parte e reparte e não fica com a melhor parte , ou é tolo, ou no partir não tem arte, Merda, acabe lá com o que diz o outro, os ditados põem-me nervoso. (1995, p.103)

 

Unificando agora os conceitos de Benjamin e Adorno refletidos aqui, leitura alegórica e engajamento, vale pensar na forma como se apresenta o título da obra. Lembrando que “ensaio” também significa algo experimental, uma tentativa, Saramago se abstêm de definir seus termos, como é permitido e prestigiado na literatura. Pensado como arte, o ensaio se define pela interação recíproca entre a formação de um todo e as partes que o compõe. Saramago não tenta dar uma explicação clara e racional da sociedade, bem como surpreende pela ausência de marcas usuais da historicidade, o que o torna mais engajado pois a tentativa de imposição de determinados padrões ao mundo está atrelada à bárbara dominação da natureza pelo homem, além do fato de esta ausência temporal ser permissiva de uma maior reflexão acerca dos significados das alegorias.

Assim sendo, as situações elaboradas pelo autor não se assemelha a uma entidade lógica definida e distintiva, e sim formatos novos e incertos de apreender a realidade, um movimento que, em vez de tentar paralisá-lo como diversas vezes faz a ciência a fim de compreendê-lo, a forma de ensaio tenta acompanhá-lo.

Adorno, em Notas sobre Literatura, também refletiu acerca desta forma livre, breve e assistemática, situada entre o poético e o didático, de  expor ideias, críticas e reflexões, defendendo que seus conceitos devem ser abordados de modo que um dê suporte ao outro, articulando-se por meio da configuração que traz o ensaio. Para o autor, os diferentes elementos que se contrapõem uns aos outros são reunidos para conjugar um contexto legível. Tanto que seu exemplo favorito para descrevê-lo é o da constelação, visto que, no ensaio, os elementos se cristalizam como uma configuração por meio de movimentos. Metaforicamente, o filósofo aponta que a constelação é um campo de força, exatamente como todo estrutura intelectual é necessariamente transformada em um campo de força sob o olhar do ensaio (ADORNO, 1984).  

Logo, é possível perceber a responsabilidade social e política que carrega consigo um escritor, acolhendo as contradições nos momentos em que a sociedade prefere bani-las, pondo-as em constante movimento. Procurando brechas para utilizar a linguagem não somente para fins prático-comerciais, e sim como uma tentativa de reorganização do sistema. 

 

Referências Bibliográficas:

ADORNO, T. W. L’essai comme forme. In:Notes sur la littérature. Paris, Flammarion, 1984.

______. Engagement. In:Notes sur la littérature. Paris, Flammarion, 1984.

BENJAMIN, W. Obras Escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo, Brasiliense, 2003.

______. Passagens. Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.



* Graduada em Letras Port-Francês e respectivas literaturas pela UFPel, mestranda do PPGE da mesma universidade, sob orientação de Gomercindo Ghiggi. Integrante do Grupo de Pesquisa FEPráxiS, Filosofia, Educação e Práxis Social. Bolsista CAPES.

[1] Ainda abordando esse mesmo desejo de uma mudança política, outra maneira de se pensar o engajamento do escritor nesta obra, que porém aqui não será discutido, é ao evocar lacunarmente o conceito bakthiniano de polifonia, narrativa constituída pela voz de todos. Ironicamente o autor português produz uma polifonia de cegos, provocando uma alegórica leitura do que tem sido a democracia nos últimos tempos: a participação e o direito à opinião para todos, todos que nada veem.

[2] Entende-se aqui este tipo de narrador como aquele que, por vezes, interage com o leitor, fazendo julgamentos, geralmente não toma parte dos acontecimentos, mas expressa sua opinião, estabelecendo com o leitor um canal de discussão, aberto à participação da matéria narrada.

 

 

                                       

Como citar este artigo:

CHAVES, Priscila Monteiro. Ensaio sobre o Ensaio sobre a Cegueira: a leitura de Saramago à luz das reflexões frankfurtianas In: Revista Virtual P@rtes. Dezembro de 2011. Disponível em: < http://www.partes.com.br/cultura/literatura/ensaiosobreacegueira.asp>. Acesso em __ / __ / __.  

 

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::sobre o autor::
Priscila Monteiro Chaves é Graduada em Letras Port-Francês e respectivas literaturas pela UFPel, mestranda do PPGE da mesma universidade, sob orientação de Gomercindo Ghiggi. Integrante do Grupo de Pesquisa FEPráxiS, Filosofia, Educação e Práxis Social. Bolsista CAPES
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