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“A
IMPORTÂNCIA DA POESIA NA INFÂNCIA”:
ANDERSON PIRES DA SILVA(CES)
CATARINA
XAVIER GONÇALVES MARTINS(CES)
Resumo:
O presente artigo apresenta reflexões de como a
infância é vista na poesia de Manuel Bandeira e os recursos que
o poeta utiliza para representar a produção poética e agradar.
Analisamos a maneira como a infância é relacionada e mediada na
poética modernista de Manuel Bandeira e como a palavra e a
memória são matérias-primas que o poeta utiliza para a
construção de seus poemas. Ainda destacamos a importância desse
gênero literário ilustrado e da música no desenvolvimento da
lingüística e a contribuição na formação de leitores na escola
contemporânea.
Palavra chave: Manuel Bandeira, infância, poesia, música.
This article presents reflections on how childhood is seen in
the poety of Manuel Bandeira and resources that the poet uses to
represent the poetic and please the children. We analyze how the
child is related to and mediated the modernist poetry of Manuel
Bandeira and as word and memory are raw materials that the poet
uses to construct his poems. We also highlight the importance
and illustrated literary genre of poetry and music in the
development of linguistic and contribution in shaping
contemporary readers in scho.
Keywords: Manuel Bandeira, childhood, poetry, music,
“A IMPORTÂNCIA DA POESIA NA INFÂNCIA”.
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Introdução:
Neste texto pretendemos refletir como a infância é
vista na poesia de Manuel Bandeira, os recursos que o poeta
utiliza para representar à produção poética e a premente
necessidade de valorizar a poesia feita para pequenos.
Acreditamos que a criança, através da poesia, transforma a
palavra em brinquedo e o sonho em realidade. Tudo isso de
maneira natural, estimulando o gosto e o prazer pelo ato de ler.
Manuel Bandeira nasceu em Recife, em 1886, e faleceu
no Rio de Janeiro, em 1968. Foi professor, poeta, cronista,
crítico e historiador literário. Trata-se de um grande poeta
modernista, escreveu seus poemas com qualidade estética. Soube
conduzir-se à criança com a palavra poética, concedendo-lhe
tratamento mágico.
O poeta, ao escrever seus poemas, lembra a sua
infância, pois em diversos momentos fala de sua vida para o
público infantil. Bandeira tornou-se capaz de nos convencer de
todos nossos devaneios e das crianças e merece ser lembrado
através dos seus poemas com as crianças.
A infância revela ao poeta um mundo encantado,
carregado de alegria, inspirador que recupera um tempo perdido.
Esse mundo infantil nos lembra a própria infância do poeta, que
viveu sua meninice em Recife.
A poesia infantil brasileira se iniciou no século XIX
e expandiu-se nos primeiros anos do século XX. Entre os
brasileiros que nessa época escreveram poesia para crianças,
podemos exemplificar Olavo Bilac. Os versos instrutivos que
compunha suas poesias, considerados “edificantes”, no sentido de
contribuir para formar cidadãos de bons sentimentos,
comprometidos com a tarefa educativa da escola. Para as
crianças, porém, Bilac usava uma linguagem simples tirando a
imaginação da criança. Como exemplo o poema “A Casa”, no qual o
poeta valoriza a família e o lar como sagrados.
Vê como as
aves tem, debaixo d’ asa,
O filho
implume, no calor do ninho!...
Deves
amar, criança, a tua casa!
Ama o
calor do maternal carinho!
Dentro da
casa em que nasceste és tudo...
Como tudo
é feliz, no fim do dia,
Quando
voltas das aulas e do estudo!
Volta,quando tu voltas, a alegria!
Aqui deves
entrar como num templo, [...]
A poesia de Bilac mostra, através dos versos, a
importância da família e o amor que os filhos devem sentir por
seus familiares. Na época, quando o poeta escreveu essa poesia,
tinha como função ensinar valores cívicos e morais às crianças.
A criança era vista como “adulto em miniatura”, tirando sua
capacidade de imaginar.
Nos últimos anos, com os estudos do historiador
francês Philippe Áries(1981), ficou evidenciado a natureza
histórica e social da criança ao articular a infância, história
e sociedade, fundamentando assim uma posição contrária à
“miniaturização da criança”.Dessa forma, a valorização da
infância e a difusão do conceito moderno, acentuam o caráter
diferenciado dela, na sua dependência e fragilidade, o que
assegura a necessidade de proteção. A idéia de infância moderna
foi universalizada. Além disto, a escola através da poesia,
pode provar sua utilidade quando se tornar o espaço para a
criança refletir sobre sua condição pessoal. E também, ao longo
desse mesmo século, cresceu o esforço pelo conhecimento da
infância em várias áreas do conhecimento. Outros poetas modernos
e contemporâneos surgiram, a poesia infantil conquistou espaço
e seus leitores.
A poesia destaca o papel que a imaginação desempenha
na vida da criança, as diversas possibilidades de representação
do real e os modos próprios de estar no mundo e de interagir com
ele. Sem dúvida, o contexto histórico-social em que foram
produzidas as poesias de Manuel Bandeira é influenciado tanto
pelo conceito de infância vigente da época, quanto pelo olhar do
poeta modernista.
Manuel Bandeira já havia notado, desde muito cedo,
que em suas memórias da infância estavam os elementos
necessários para lançá-lo a uma criação mais ousada e renovadora
em que a construção dos versos se dá a partir dos elementos mais
simples e familiares. O poeta se utilizava com freqüência das
suas lembranças da infância para escrever seus poemas. Ele
invocava as cenas e as personagens que estruturavam sua vida no
passado a partir das lembranças da infância. É com auxílio desse
tempo que ele chega ao presente e até mesmo ao futuro de sua
obra, uma vez que tal processo estabelece o devir da poética de
Bandeira.
Podemos notar a infância na poética bandeiriana, assim
como a poesia encarna um poder transformador, como se possuísse
um poder mágico de mudar o mundo. O mundo infantil, com sua
magia, adquire esse poder de transformar a realidade em sonho,
através do lúdico e do encanto que é transformado em poemas. O
poeta vê a infância como um tempo bom em que à imaginação e as
brincadeiras lúdicas sobrepõem-se ao mundo adulto rígido,
racional e com várias nuanças de problemas existenciais,
afetivos, amorosos, etc. Podemos exemplificar com o poema
“Porquinho da Índia”:
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho da índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do
Fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
_ O meu porquinho da índia foi minha primeira
namorada.
O poeta nos traz de volta a infância, destaca a
pureza, a inocência de uma criança que dedica todo o seu afeto a
um animal de estimação. É escrito com jeito de criança, porém o
poeta cria um ambiente mais emotivo, com palavras no diminutivo,
para atingir a infância. O toque de humor fica por conta do
verso final, espécie de conclusão em que introduz a fala do eu
lírico. O passado é visível nos versos.
A infância se contrapõe, aos poucos, às privações de uma
vivência transitoriamente marcada pela fraqueza física e pela
contradição de ampliar o presente além das rigorosas normas que
a doença constituía. A confiança e a perfeição com que o poeta
narra os acontecimentos da sua infância sugerem, conteúdo da
memória, de maneira natural. O seu discurso é lançado ao leitor,
mas ele mal consegue perceber o caráter construtivo das
lembranças. Desse modo, o relato da infância de Bandeira revela
uma edição de acontecimentos bibliográficos que busca mostrar as
implicações destes para o desenvolvimento de sua poesia.
Segundo Nelly Novaes, Manuel Bandeira rompe com os
esquemas tradicionais e sua linguagem torna-se lúdica,
irreverente e fragmentada. Ele desperta no leitor um efeito
novo, pois utiliza a repetição como recurso. Para que o poema
fique significativo, explora a sonoridade o ritmo das palavras
soltas. Por isso, os poemas modernos agradam os ouvidos das
crianças. Podemos exemplificar com fragmentos do poema Trem de
ferro:
Café com
pão
Café com
pão
Café com
pão
Virge
Maria que foi isso maquinista?
Agora
assim
Café com
pão
Agora
assim
Voa,fumaça[...]
O poema apresenta canto e ritmo jocoso, e se desenvolve
em torno de uma necessidade básica da criança, combinada a uma
situação de prazer que é a viagem. É também um diálogo entre o
poeta e o leitor/ouvinte. (NOVAES, 2000, p.237).
Procuramos entender a infância e as crianças na
sociedade contemporânea, de modo a compreender a delicada
complexidade e a dimensão criadora das ações infantis.
Encontramos interessantes contribuições na obra do filosofo
alemão Walter Benjamin (2002). Conhecer a infância e as
crianças favorece ao homem ser sujeito crítico da história que
ele produz. Para o autor, “a criança mistura-se com as
personagens de maneira muito mais íntima do que o adulto. O
desenrolar e as palavras trocadas atingem-na com força inefável,
e quando se levanta está envolta pela nevasca que soprava da
leitura”.Ainda segundo o autor, “é possível fazer da criança um
ser natural, ele faz uma crítica a concepção equivocada que os
adultos mantinham da criança, considerando-a incompleta e
incapaz”. (BENJAMIN, 2002, p.57).
Acreditamos que a criança vê seu universo projetado
sendo capaz de tratar a palavra como um brinquedo, logo ela cria
um universo de sonho e realidade, de maneira muito mais natural
do que o adulto. Walter Benjamin sublinha a diferença entre a
imaginação infantil e o conceito que o adulto faz do universo
lúdico da criança.
Como podemos observar em Benjamin a imaginação da
criança por si só já é fantasiosa. Bandeira ao escrever
“Porquinho da Índia,” pensa a fantasia na criança. A poesia
devido a sua estrutura formal, pode ser instrumento de
comunicação rápida com a infância. Benjamin faz uma critica a
infantilização da criança como:
“Não
devemos traduzir o mundo para as crianças, e lhe entregar tudo
pronto,porque, segundo ele, as crianças, são capazes de sozinhas
relaborarem e elaborarem significados para o que está em sua
volta. Constroem seu mundo de coisas, a partir dos materiais e
resíduos espalhados pelo mundo. Nesses detritos,elas reconhecem
o rosto que o mundo das coisas assume para elas,e só para elas.A
criança aceita perfeitamente coisas sérias,mesmos as mais
abstratas e pesadas,desde que sejam honestas
espontâneas”.(BENJAMIN, 2002,p.237)
E é justamente com
Benjamin que podemos exemplificar que a as crianças são seres
capazes.Elas constroem a partir de resíduos ou sobras, pois é
na poesia, que a infância estabelece novas relações e
combinações. Com as crianças, é possível mudar o rumo das
coisas ou mesmo o conceito que se tinha (ou se tem) de infância.
Em lugar de manipular conceitos (como antes), a poesia
explorava as virtualidades da matéria verbal: a sonoridade e o
ritmo das palavras soltas. Dessa maneira, em geral, os breves
poemas agradam os ouvidos infantis.
Os pressupostos de Benjamin nos levaram a realizar um
trabalho com poesias, tendo como objetivo levantar, a partir da
leitura das poesias de Manuel Bandeira, os recursos de que se
valem o poeta para promover a produção poética e a criança. Os
poemas foram retirados do volume Meus primeiros versos:
Berimbau e outros poemas.
Segundo Nelly Novaes (2000), “um projeto que contempla
a poesia, deve ter claro a concepção de infância e enxergar a
literatura e a música como um fenômeno da linguagem”,
estabelecer relações entre literatura, história e cultura
entender a leitura como um diálogo entre leitor e o texto e ver
a escola como espaço de cultura.
Acreditamos no poder da poesia e da música de
despertarem na criança o gosto pela leitura através da fantasia,
da emoção do som e imagem que elas produzem.
A criança e a poesia:
Na poesia de Bandeira, há o toque lúdico, o humor, o ritmo
musical envolvente, o lirismo e clareza de linguagem. O poeta
construiu poemas que evocam a infância, envolvendo brincadeiras
de rua, associando a música às situações divertidas do
cotidiano. Esta articulação da poesia com ritmo musical também é
uma maneira que ele utilizou para recordar e valorizar o
folclore e a linguagem coloquial.
Sabemos que as crianças da atualidade, com os avanços
tecnológicos e a rapidez da informação, convivem com diferentes
imagens no cotidiano através dos diversos gêneros textuais,que
circulam na sociedade. No entanto, elas necessitam da
visualização de imagens para despertar sua atenção. A poesia,
tão sensível e sutil que torna-se difícil penetrar nesse
universo infantil, ditado pela mídia, pela velocidade e pelo
barulho desse mundo contemporâneo. Torna-se uma competição
injusta, se levarmos em consideração que para ler poesia, os
alunos precisam estar tranqüilos e concentrados em um ambiente
adequado. Como conseguir atenção das crianças, onde a imagem e o
barulho são tudo na atualidade?
Uma alternativa para incentivar leitura de poemas,
nas crianças, já há muito tempo usada pelo mercado editorial, é
o apelo visual do livro, uma harmonia entre texto, ilustração e
o projeto gráfico. Outra opção muito interessante que a
criançada gosta é a musica; podemos exemplificar com o DVD da
Adriana Partimpim. A imagem não rouba a cena da poesia, pelo
contrário, enriquece o texto e desperta o interesse e gosto da
criança pelo ato de ler e ouvir. E ainda, baseado nos
pressupostos de Walter Benjamin:
“A criança
redige dentro da imagem. Por isso, ela não se limita a descrever
imagens: ela as escreve e rabisca [...]. Essas imagens são mais
eficazes que quaisquer outras na tarefa de iniciar a criança na
linguagem e na escrita. No reino das imagens coloridas, ela
sonha seus sonhos até o fim”. (BENJAMIN, 2008,p.242).
Ao realizarmos trabalho com música da Adriana
Partimpim, quanto o de poemas ilustrados de Bandeira, foram de
grande valia para a turma, pois de acordo com Benjamin, “A
ilustração faz a fantasia infantil mergulhar, sonhadoramente, em
si mesma”. Essas imagens estimulam na criança a leitura,
penetrando nas ilustrações, ela redige dentro da imagem e do
som. (BENJAMIN, p.239).
Manuel Bandeira constrói sua obra, tal como Benjamin
(2008) identifica a forma com que as crianças fazem história, ou
seja, a partir da história de cada um, elas constroem seu mundo
de coisas, a partir dos materiais e resíduos espalhados pelo
mundo. “Nesses detritos, as crianças identificam o rosto das
coisas e assume para elas”. Bandeira elege para matéria de
poesia a pobreza, os objetos, a sua doença e tudo que relembra
sua infância com a família em Recife.
Adriana Calcanhoto, conhecida pelas crianças como
Adriana Partimpim, desde a infância adotou a música na sua
trajetória existencial. Suas canções agradam tanto as crianças
quanto os adultos, trazendo um repertório diversificado da
música popular brasileira. A cantora, sabendo que a música faz
parte da vida infantil desde muito cedo, como as cantigas de
ninar, os brinquedos sonoros, poesias e todo tipo de jogo
musical, compôs DVDs envolvendo poesia de poetas brasileiros,
inclusive o poema “Os sapos” de Manoel Bandeira. Esses momentos
de troca e comunicação sonoro-musicais favorecem o
desenvolvimento afetivo e social da criança.
O trabalho com música e poesia na escola é essencial
para que os alunos entrarem em contato com a própria música, de
modo prazeroso e interessante. Serve para garantir os estudos
lingüísticos e o seu sucesso, não podendo deixar de lado a
capacidade de aprimorar a expressão musical das crianças, além
de colaborar com a humanização dos indivíduos, tornando-os mais
sensíveis, criativos e reflexivos. Alicia Maria Almeida
Loureiro afirma que:
“Significa
que é fundamental o papel da escola no estudo da cultura
musical, pois nela, como terrenos de mediação, poderão ocorrer
as trocas de experiências pessoais, intuitivas e diferenciadas.
Daí a necessidade de não perdermos de vista as práticas musicais
que respondem os movimentos sociais e culturais que vão além dos
muros da escola mas que refletem, mais cedo ou mais tarde, no
interior da sala de aula”. (LOUREIRO,2010,p121).
Considerando as idéias de Loureiro, a música exerce
papel importante na escola, pois é justificada pelo
desenvolvimento do ser humano, por meio da conscientização da
interdependência entre o corpo e a mente, entre a razão e a
sensibilidade, entre a ciência e estética. (Loureiro, 2010,
p.142)
Com isso, percebe-se que a música não pode estar dissociada das
práticas cotidianas dos alunos, uma vez que as atividades
musicais que envolvem o canto, a poesia, o movimento e a
improvisação, já fazem parte do ambiente das crianças, no meio
familiar ou fora dele.
A música e poesias rítmicas devem ter lugar em destaque na
educação lingüística, pois ajudam no desenvolvimento da leitura
e também na parte afetiva e social. Podemos pensar na música
como instrumento poderoso na educação, não só na lingüística,
pois através do seu uso estimulamos uma área do cérebro não
desenvolvida entre outras linguagens oral e escrita. Além disso,
a música melhora a capacidade de concentração e potencializa a
memória.
O trabalho com músicas e poesias conhecidas das crianças
traz um bom resultado no desenvolvimento da aprendizagem como um
todo. Ao ler e ouvir, os aprendizes precisam chegar até a
palavra, pois descobrir o que está escrito na música e na
poesia, não implica simplesmente em trabalhar os sons, mas as
palavras. Ainda de acordo com Nelly Novaes:
“Poesia
é também imagem e som. As palavras são signos que expressam
emoções, sensações, idéias... através de imagens ( símbolos,
metáforas, alegorias...) e de sonoridade(rimas,ritmos...). É
esse jogo de palavras, o principal fator da atração que as
crianças tem pela poesia, transformando em canto ( as cantigas
de ninar, cantigas de roda...). Ou pela poesia ouvida ou lida em
voz alta, que lhes provoque emoções, sensações, impressões, numa
interação lúdica e gratificante.” (NOVAES, 2002, p.222)
A palavra é a matéria-prima de que dispõe o poeta
Manuel Bandeira para realizar seu trabalho e também Adriana
Partimpim, para compor suas músicas se utiliza da palavra. Já as
crianças utilizam as palavras para recriar e produzir cultura
através de sua realidade.
A poesia é apenas um dos usos entre todas as
possibilidades da língua e talvez, o mais criativo. Ela pode ser
pictórica, plástica, dramática, musical, afetiva, moral e lúdica
etc... Deveria ser um dos argumentos para que a escola passasse
a ver a poesia não como “perda de tempo”, mas como uma das
maneiras de derrubar certos preconceitos em relação ao gênero
literário, pois as primeiras brincadeiras são feitas de rimas e
trocadilhos.
Em meio a essa crise da vida contemporânea, como
professora de projeto de literatura, fomos buscar na poesia de
Manuel Bandeira, suporte para a realização de um trabalho com
poemas, com as turmas de quarto e quinto anos do Ensino
Fundamental de uma escola municipal em Juiz de Fora, Minas
Gerais. O brincar com as palavras leva a descobertas incríveis,
por isso realizamos um trabalho com algumas poesias de Manuel
Bandeira e especialmente o poema: “Na rua do sabão”.
Este poema se aproxima
do cotidiano e da rotina das crianças de periferias, suas
brincadeiras de rua, caracteriza o ambiente onde elas crescem
e também lembra meninos soltando pipas, uma atividade muito
comum na infância. As cantigas folclóricas compõem uma
característica tipicamente ligada às crianças e Manuel Bandeira
retrata bem isso no poema: “Na rua do sabão”.
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs os
[gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que – pequena coisa tocante na
escuridão do céu.
Levou tempo para cair fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se
[e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente....
Como se o enchesse o soprinho tísico do [ José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apuros
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas
[posturas
municipais]
Ele foi subindo...
muito serenamente...
Para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar – nas águas puras
[do mar alto.
Este poema é muito
importante por representar um progresso no estilo poético de
Manuel Bandeira devido à linguagem coloquial e o uso do verso
livre. O início deste poema dá-se pela conhecidíssima cantiga
popular que incentiva o leitor a cantá-la imitando-lhe a uma
criança.
A utilização desse refrão popular na primeira estrofe,
faz com que o leitor, conhecedor da canção, inicie a leitura do
poema cantando alegremente como uma criança. Mas este sentimento
de alegria da abertura não se prolonga nos versos seguintes. E o
poeta mostra verdadeiramente o que vai tratar em seu poema: a
triste situação de um menino pobre e doente. Desse modo, a
alegria inicial não passa de uma falsa imagem.
Esta colagem do refrão, feita por Bandeira, além de
transportar a musicalidade da canção popular para seu poema
recria o linguajar popular, recurso estético próprio do
modernismo, trazendo para ele (o poema) uma linguagem próxima ao
dia a dia.
A segunda estrofe mostra a fase de construção do balão
por um menino pobre (filho de uma lavadeira) e doente (que tosse
muito), uma representação da criança que pode ser comparada à do
próprio poeta, também doente. Após o esforço empreendido pela
criança doente (“Levou tempo para criar fôlego. / Bambeava,
tremia todo e mudava de cor.”), o balão sobe e alcança o céu
escuro, representando uma espécie de vitória do menino que mesmo
doente (“com seu soprinho tísico”) alcança o inacessível céu. De
forma mágica e lúdica, superando toda maldade das crianças da
“Rua do Sabão” que gritavam para que o balão caísse e que também
o apedrejavam, juntamente com a lei de proibição municipal ao
balonismo – neste momento representado pela figura de um homem e
seu mundo puramente racional sem capacidade imaginativa – o
balão alcança o céu.
Conclusão:
Concluímos que na poética bandeiriana, a infância é
usada pelo poeta como uma forma de recordar o seu passado
relembrando os bons tempos de infância com sua família, bem como
as brincadeiras de rua, as cantigas do folclore brasileiro, o
que representam traço de brasilidade, algo comum aos poetas do
Modernismo.
Nas poesias de Bandeira, observamos um diálogo
entre imagem e texto, garantindo a qualidade pictórica das
obras, sem perder a riqueza do texto poético. Apesar da
linguagem coloquial dos poemas de Bandeira, percebemos o
envolvimento e entusiasmo dos alunos com o trabalho realizado.
O trabalho com poesia e música na escola, ajuda
os aprendizes aperfeiçoarem o vocabulário, a leitura, a
linguagem oral, entrem em contato com a cultura e atinjam o
universo da infância. Estimulando desde cedo a consciência
crítica do leitor.
Referências :
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(internet) Disponível em: 23/02/2010 ( http://).
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família.
2.ed.Rio de Janeiro: LTC,1981.
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Paulo.Brasiliense,2008.
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CALCANHOTO, Adriana, Partimpim, Volumes I,II
LOUREIRO, Alicia, Maria. O ensino de música na escola
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NOVAES, Nelly, Coelho. Literatura Infantil: teoria,
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