‘Quero
morrer
com uma
overdose de beleza’
[Vigílias.
In: O Medo. Al Berto. 2000. p.519]
‘fui todas
aquelas máscaras, e a que trago hoje é um imenso e paciente
trabalho de
composição, nela estão fragmentos de todas as outras’.
‘A escrita é a
minha primeira morada de silêncio
a segunda
irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras’
[Doze
moradas de silêncio. Salsugem. In: O Medo. Al
Berto 2000. p.252]
A impressão digital estampada, em close, na capa do livro
O Medo, de
Al Berto,
nome literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997)[1]
e as epígrafes postas acima, emblematizam a escritura albertiana
picada pela paixão do múltiplo, do fragmento e pela perda do toque
da identidade. O corpo em cena, ora revelando-se, velando-se, lido
como receptáculo nessa apresentação, sensível e carregado de
disfarces, entrega-se ao olhar hipnótico e sedutor do leitor, que o
induz a visualizar e descrever o delírio.
Esse corpo de mistérios, ele mesmo jogo entre l’obvie et l’obtus[2],
entre o visível e o invisível que, a luz da interpretação ou pelo
olhar atento do leitor/espectador, torna-se, agora, a enunciação ou
território, numa estrutura opaca, sombria e enigmática. Quem lê os
poemas de Al Berto percebe, além desses recursos estilísticos das
capas de seus livros, - corpo-imagem, corpo-texto -, as relações de
sua produção com as outras artes, outras linguagens, entende-se o
sentimento narcísico e desesperador por um desejo de se converter em
poema. Sua gestualidade, à feição de um texto a ser decifrado, de um
corpo que trama as suas vias e desvios, compõem-se igualmente de
nomes falsos, troca de identidades, operação de truques e
espelhamentos de mundos, reduplicando metaforicamente a produção
artística. Suas poesias instauram o complô: o escritor, ao agir como
criminoso, no roubo das citações de textos alheios, forja, ainda
identidades, e se esconde atrás de máscaras; o leitor-crítico, por
sua vez, ao destrinchar essas pistas, dirige seu olhar para tudo que
inspira suspeita e conspiração.
Esgarçando os limites entre Alberto e Al Berto sua poesia é fruto de
um narcisismo - como também fez Oscar Wilde, em O Retrato
de Dorian Gray
- de uma elaboração dramática perceptível em seus versos. Al Berto,
nesse sentido, e ao gosto do Decadentismo, assume-se como imagem
para ser contemplada, como esteta e função pública, como pose
esgarçada ao limite. Suas fotografias, tomadas como parâmetro,
paratextos e recompiladas nas capas de sua obra representam
visualmente o texto como recurso e encenação de sua produção
artística, escondem ou revelam o corpo integrando-o como temática.

Capa do livro O Medo, de Al Berto
Na capa[3]
d’ O Medo, a teatralidade, quase barroca da pose, expressa um
sentimento ambíguo entre o temor e o êxtase, entre o obscuro e o
iluminando, entre profano e o sagrado, jogo ele mesmo planejado e
irônico. A tensa gestualidade das mãos, sobretudo a direita, faz
desse paratexto[4]
que se repete de outros modos em muitos livros do autor, o
leitmotiv homoerótico e provocador. Ao mesmo tempo em que
esconde, ele também se deixa ver e entrevendo esse discurso,
confessa, - “Aqui está a figura de papel onde o corpo escondeu” (Al
Berto, 2007, p.39) - perfazendo caminhos oscilantes entre o dado e o
subentendido. O rosto, teatralizado na cena e em algumas fotos de
outros livros, põe-se como “cara a tapa”, e, também, mira-se
fixamente ao leitor, constrói-se, no confronto com seus textos, aos
fragmentos, entre o provável e o provocador, entre o vivido e o
representado, entre o disfarce e o melancólico - “Colas à pele o
remoto perfume das glicínias, e aos lábios o amargor dos corpos
condenados à solidão” ( Al Berto, 2007, p.78).

Fotografia do poeta Al Berto
Al Berto é um poeta que se esconde atrás da imagem pública criada
pelo desvio de seu próprio nome e expandida por meio de uma poesia
totalmente transgressora. Como
em Roland Barthes
par Roland Barthes
[1975], o poeta-esteta ao pretender registrar a experiência do
autor, não faz mais que capturar fragmentos e arranjá-los, criando
um simulacro de inteireza que se oferece ao leitor. Por isso mesmo,
não nos familiarizamos com Al Berto através de sua autobiografia,
mas sim através de sua crítica que vemos aos poucos compor esse
rosto, que não é único e nem coerente, que não é obra de um autor
que o entrega acabado, mas é obra do leitor que vai aos poucos
descortinando seus traços, inteirando-se de suas cores, pressupondo
sua escritura, seu ânimo.
"caminhar no
deserto, reencontrar a magia das palavras e usá-las com maior ou
menor inocência, como se as usássemos pela primeira vez, como se
acabássemos de as desenterrar das areias. as palavras, esses oásis
envelhecidos que me revestem o corpo como um trapo que sempre me
tenha pertencido... [...] a partir desse momento acumulei
infindáveis cadernos escritos; era esta a única maneira de remediar
o medo e de não possuir nada, e de ter possuído tudo." [Al Berto,
2000, p.362]
O corpo, nesse fragmento, é um corpo que escreve, revestido
de sentido pelo próprio ato de escrever na metalinguagem que lhe
compõe um traço, um gesto significativo de memória, caderno-corpo,
cadernos escritos, escrita do próprio corpo. O corpo escrito,
processo de autoficção que se repete na descoberta e
experimentações. Por outro lado, esse corpo, também, apresenta-se
como metáfora da escrita, do livro a ser lido, decifrado e
desfolhado ou folheado pelo leitor. À feição de um livro que se
abre, as letras apagadas desse corpo vão sendo acentuadas pelas mãos
e pelo tato decifrador; histórias de desejo que, infinitamente,
serão retomadas. Falando-se pelo corpo, carregando o texto de
simbolização, Al Berto constrói sua poesia e seu próprio jogo de
nomes (autor e pseudônimo) fixando-se nos significantes. Sistema
fiduciário de signos, sua poética trava um processo de simbiose que
resulta e se inscreve como representação da representação.
Procurando-se nessa vertigem e estilhaços, nesse jogo inacabado e
especular, o eu lírico confessa, como que ecoasse em toda a obra a
seguinte voz: “o espelho acende o meu reflexo. não me reconheço
nele” ou ainda “conheço-te, sou a tua imagem perdida uma noite
dentro do espelho” (Al Berto, 2000, pp. 131 e 363). Esse mesmo
processo de fragmentação e desvio em “eus”, de extensa carga
dramática e narcísica, carregado de marcas decadentistas, foi a
trajetória vital e poética de Mário de Sá Carneiro [1980-1916], um
dos ilustres estetas, antepassados da genealogia literária de Al
Berto. Não se pode falar, em seu caso, de um referente direto a
nível temático ou formal, porém de uma trama psicológica e de
questionamentos de ser. Sá Carneiro representa a origem mesmo da
modernidade literária portuguesa através do fascinante grupo em que
coincide com Pessoa e pintores como Almeida Negreiros ou Souza
Cardoso, todos eles em torno da revista Orpheu. A poética do
autor de Confissões de Lúcio supõe o deslumbramento de uma
linguagem nova a partir da retórica tradicional, o que, de certa
forma, anunciou, junto com Fernando Pessoa uma nova era, ecoando nas
entrelinhas da poética de Al Berto. Ambos - perseguidores da beleza
- anunciam, se espelham e ecoam, como palimpsesto, através da
fragmentação existencial e cultural, na produção poética de Al
Berto.

Capa do Livro Dispersos [2007], de Al Berto
Associando poesia e vida, como os dois autores
paradigmáticos da poesia portuguesa, Al Berto nutre a sua poética na
busca incessante pela beleza, na entrega como única forma de viver,
de escrever-viver. Nessa derradeira busca de si mesmo, o Grupo da
Revista Orpheu proporcionou uma visão de mundo feita de múltiplos
artistas que nutriam, por sua vez, as experiências irracionais e
deslocadas do Grupo Surrealista de Lisboa (1947), formando em torno
das figuras de Mário Casariny e Alexandre O’Neill. Um surrealismo
tardio, característico de Portugal, porém com singularidades de alto
nível que, de alguma forma, inspiraram os primeiros poemas de Al
Berto. Essa experiência surrealista conflui nos anos cinquenta e
reforça o viés onírico, visionário, místico e transgressor, sem a
qual é difícil fazer uma leitura compreensiva e crítica da poesia
portuguesa pós-moderna. Al Berto pertence a esse contexto em versão
anos sessenta, acompanhado de poetas já ilustres como Nuno Judice,
J.M. Fernandes Jorge, Luis Miguel Nava, Pinto do Amaral ou Joaquem
Manuel de Magalhães.
De sua escritura:
“definha-se
texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado.
morre-se com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser
que se esteja viciado, morre-se, quando já não é necessário escrever
seja o que for, mas o vício de escrever é ainda tão forte que o
facto de já não escrever nos mantém vivos. morre-se de vez em
quando, sem que se conheça exactamente a razão, morre-se sempre
sozinho. nunca fui um homem alegre. morro todos os dias, como
poderia estar alegre? sento-me e medito na busca de novas palavras.
tornou-se quase inútil escrevê-las; chega-me saber que, por vezes,
as encontro, e nesses momentos readquiro a certeza d’alguma
imortalidade” [Al Berto, 2000, p.365].
Nesse fragmento, apesar de sua aguda toxidez, ressoa também
a dupla vertente “escrever-morrer”. Definha-se na escrita e, se não
se escreve, preserva-se vivo para se tornar a escrever. Se é certo
que a escrita carrega a certeza da morte, - como afirma Blanchot -
algumas vezes irrompe também, certeira, a imortalidade, resultante
do encontro com “novas palavras” e sentidos. Palavras que,
justamente nesse atrito ou limites, renascem com força e beleza
poética.
O livro, receptáculo da escrita, objeto do desejo do poeta, parece
trazer-lhe, contudo, também algo da experiência da morte: se em sua
prece ambígua o poeta não deixa de pedir que a escrita o livre do
trabalho de escrever, é porque ele sabe que o livro pressupõe um
corte no fluxo das palavras; ele é, numa certa medida, silêncio.
Assim, a poesia al bertiana habita o paradoxo: frente ao desejo de
“ser livro”, como se tornar livro, se ele se livra de escrever?
Demiúrgica por natureza, a escritura de Al Berto se apresenta menos
comprometida com as problemáticas de caráter teórico e se apresenta
mais plural na experiência do real e dos sentimentos que gera. Nela
relativiza-se o conceito de poesia (confusão entre poesia e prosa,
diário íntimo e poesia) ao serem denunciadas as artimanhas que se
instauram em torno dessas questões. A marca de identidade
em O Medo
(2000) se volatiza em simulacros e reflexos, inscreve-se e
mistura-se nessa confusão ou confluência, dialogando com uma parcela
significativa da cultura de vidro de que nos fala Walter Benjamin,
onde desaparecem os traços e se esvazia a aura do objeto e do
sujeito. Do cenário de Lisboa ou de outras cidades por onde o poeta
percorreu, - originário do espaço transgressor -, cede lugar ao
espetáculo de sombras, ruínas de um tempo em que se acreditava na
assinatura e na propriedade autoral. Perdendo-se a aura do objeto,
são assinadas obras-primas e esconde-se por trás das capas
(fotografias) e textos.
“A vida,
afinal, talvez seja uma encenação do desespero” (Al Berto, 2001,
p.108)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Al Berto. O Medo. Lisboa. Assírio & Alvim. 2000.
______. O Anjo Mudo. Lisboa. Assírio & Alvim. 2001.
______. Dispersos. Lisboa. Assírio & Alvim. 2007.
BARTHES, Roland. Le plaisir du texte. Paris. Seuil.1973.
______. Roland Barthes par Roland Barthes. Paris. Seuil.
1975.
______. Leçon. Paris. Seuil. 1978.
______. L’obvie et L’obtus. Essais critiques III. Paris.
Seuil. 1982.
CEIA, Carlos. O que é afinal o Pós-Modernismo? Lisboa.
Edições século XXI.1998.
DIAS, Joaquim Cardoso. Dez cartas para Al Berto. Dez cartas de Al
Berto. Lisboa. Quase Edições. 2007.
GENETTE, Gerard. Palimpsestes:
La Littérature
au Second Degré,
Paris. Seuil. 1982.
______. Seuils. Paris. Seuil. 1987
GUIMARÃES, Gustavo Cerqueira. Espaço, Corpo e Escrita
em Al Berto:
À Procura do Vento num Jardim d’Agosto.
Belo Horizonte. Faculdade de Letras da UFMG. 2005.
MATARASSO, Pierre, e Petitfils, Henri. A vida de Rimbaud.
Trad. Antonio Carlos Viana. L&PM Editores. 1988.
PEREIRA, Edgard. Portugal. Poetas do fim do milênio. Rio de
Janeiro. Sette Letras. 1999.
PRIEDE, Jaime. Al Berto. Revista Quimera. Acesso em
21/11/2009.
RIMBAUD, Arthur. Uma Temporada no Inferno & Iluminações. Trad.
Lêdo Ivo. Rio de Janeiro, Ed.Francisco Alves, 1981.
SILVA, Tatiana Pequeno da. Al Berto: um corpo de incêndio no
jardim da melancolia. Rio de Janeiro. Faculdade de Letras da
UFRJ. 2006.
Rodrigo da
Costa Araújo
é professor de Literatura Brasileira e infanto-juvenil na FAFIMA –
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé, Mestre em
Ciência da Arte pela UFF e, também, Doutorando
em Literatura
Comparada
pela UFF. E-mail:
rodricoara@uol.com.br
Notas:
[1]
Al Berto nasceu a 11 de janeiro de 1948 em Coimbra, Portugal.
Seu nome de batismo era Alberto Raposo Pidwell Tavares. Estudou
em Lisboa, primeiramente, e mais tarde viajou a Bruxelas para
estudar pintura. Voltou a Portugal na década de 70, onde passou
a dedicar-se exclusivamente à escrita. Publicou vários livros de
poesia, como Meu Fruto de Morder, Todas as Horas (1980),
Salsugem (1984) e Horto de Incêndio (1997), mas
foi a coletânea O Medo, com poemas escritos entre 1974 e
1986, editada pela primeira vez em 1987, que trouxe o
reconhecimento da importância de Al Berto no panorama da poesia
portuguesa contemporânea, tornando-se o livro mais conhecido do
poeta português, ao qual seriam adicionados em posteriores
edições novos escritos do autor, mesmo após a sua morte. Al
Berto tornou-se um dos poetas mais conhecidos do Portugal
pós-Salazar, por fazer de “Al Berto” uma criação poética em que
a vida e a obra se entrelaçavam. Atualmente, sua obra é editada
pela prestigiosa Assírio & Alvim. Al Berto morreu em 1997.
[2]
Aqui faço uma alusão do livro de Barthes L’obvie et L’obtus.
Essais Critiques III.
[3]
Para Tatiana Pequeno da Silva em Al Berto:
um corpo de incêndio no jardim da melancolia
[2006, p.70] “a capa d´O Medo, publicado em 1987 pela
Contexto traz exatamente uma menção “Na capa: Retrato de Al
Berto encenado por Paulo Nozolino em homenagem à Caravaggio”. É
conhecida a admiração que o poeta nutria pela pintura
caravaggiana, uma vez que uma de suas maiores qualidades residia
exatamente na pertinência da pintura enquanto drama,
barroco, evidentemente, o que nos remete a uma suposição de que
a encenação de Nozolino remete conseqüentemente Al Berto e seu
Medo a uma via dos maiores símbolos da ascese que é o
Cristo na sua Paixão”.
[4]
Dentro da categoria do paratexto, Gerard Genette (1987, p. 374)
distingue o peritexto e o epitexto; o primeiro é constituído
pelos elementos textuais que, situando-se à margem do texto,
compõem o livro impresso: título, nome do autor, dedicatórias,
epígrafes, prefácios capa etc. Esses elementos são percebidos no
ato da leitura e direcionam as reações dos leitores,
interferindo na configuração de seu horizonte de expectativas.
Já o epitexto é constituído por elementos externos ao livro que
funcionam como orientações de recepção, tais como as cartas e
diário dos autores estudados aqui.