RESUMO: Um breve
comentário e observação da transformação da estrutura narrativa no
romance moderno aplicada no romance Angústia de Graciliano Ramos;
analisando como a desrealização ocorre por meio do pensamento do
personagem que afeta a estrutura narrativa, e o tempo diegético.
RESUMEN:
Un breve comentario y observación de la transformación de la
estructura narrativa de la novela moderna aplicada en el romance
Angústia de Graciliano Ramos; un análisis de cómo la derealization
se produce a través de lo pensamiento que afecta a toda la
estructura narrativa, y el tiempo diegético.
Quando lançamos os olhos
para o passado, e relemos romances de cavalaria como Amandis de
Gaula, passando pelos clássicos romances do séc. XIX como os de
Victor Hugo, e afins, notamos o longo processo de transformação
sofrido pelo gênero. O processo de transformação do romance passou
por gradativos progressos até a tingir a forma plena que encontramos
em obras do séc. XX, nas quais a estrutura surge mais complexa e
trabalhosa para os leitores, porém não menos instigante. No
desenvolvimento do romance moderno, muitas transformações ocorreram,
em especial no tempo e espaço, que se apresentam sob nova
configuração em conseqüência da eliminação da distância; o que
terminou trazendo para as obras o chamado ‘tempo místico’ e
uma série de recursos como a desrealização para um nova e particular
visão do mundo.
As obras modernas promovem
uma aproximação relativamente maior, e esta aproximação que ocorre é
de tal forma intensa, que seu enfoque é quase microscópico; na
eliminação da distância e intensificação da proximidade ocorre uma
transformação do real onde em decorrência da intimidade alcançada os
contornos perdem-se: a observação é difusa e especifica em excesso,
fragmentada para espelhar o próprio ser humano cujo pensamento
sobrepõe-se a linearidade temporal.
Entre as obras de nossa
literatura, a de Graciliano Ramos com seu romance Angústia, é
uma das que pode exemplificar essa desrealização no romance; o que
encontramos é uma estrutura narrativa que abandona a divisão dos
capítulos e a linearidade temporal para acompanhar o pensamento
confuso da personagem protagonista. O título do escritor alagoano
incorpora características da desrealização desde seu princípio
quando inicia a narrativa já após o drama central do livro, e
desencadeia um relato que avança lentamente em direção ao ápice e
ponto de partido do romance; dizemos lentamente, haja vista
que neste retrocesso maior e central afloram ainda breves digressões
que invocam um tempo muito anterior do passado e da infância de Luís
(o protagonista).
É complexo analisar o
fator temporal neste romance, todavia esta complexidade deve-se
especialmente ao fato de que o tempo possui uma construção circular,
como acontecem em Falkner, na qual o passado frequentemente
invade a narrativa, gerando um tempo diegético que não se obriga a
tecer uma ordem cronológica usual. No relato de Luís, a mente
abalada da personagem muitas vezes retorna à infância, resgatando
por alguns momentos histórias antigas que são logo abandonadas com a
rapidez do pensamento; assim sendo, o pensamento rege a estrutura
temporal, e enquanto o passado emerge, traz com ele o fluxo do
inconsciente sobre o consciente.
“A técnica complexa de
Falkner, a inversão cronológica dos acontecimentos, a construção
circular, a irrupção do passado no presente e, com isso, do
inconsciente no consciente são a expressão formal e precisa de um
mundo em que a continuidade do tempo empírico e o eu coerente do eu
epidérmico já não tem sentido.” (COUTINHO,1969, p. 90)
“Lembrei-me da fazenda de
meu avô. As cobras se arrastavam no pátio. Eu juntava punhados de
seixos miúdos que atirava nelas até mata-las.” (RAMOS, 2003, p. 76).
Destarte, o que observamos
em Angústia é um tempo mítico, porquanto segue o fluxo de
pensamento da personagem, não respeitando um tempo cronológico; há
ainda outros elementos que acompanham a desordem temporal e refletem
indiretamente a desordem e confusão mental da figura de Luís. Ao
considerar esta relação, talvez seja possível afirmar que tal falta
de ordem em unidades como o tempo e espaço, seja uma forma de
resistência ao senso comum de ordem imposto superficialmente na
realidade interna do romance, uma realidade a qual Luís pode
inconsciente tentar se opor com a desrealização.
“Olhei-as, mas entre os
olhos e as mãos havia um nevoeiro que engrossava. As paredes
tornaram-se inconsistentes. Fechei os olhos.” (RAMOS, 2003, p. 206).
Um dos elementos que
denuncia a eliminação da distância no livro de Graciliano Ramos é a
apresentação e imagem fragmentária das personagens; uma vez que o
enfoque exagerado fixa a atenção e prende-se a pequenos detalhes não
há uma visão total nítida da figura, de modo que mesmo ao final da
narrativa, é possível que a imagem de algumas personagens permaneça
incompleta para o leitor, como Marina ou Vitória, ou até espaços
físicos como a casa do protagonista.
O pensamento do
protagonista é confuso e conflitante, da mesma maneira que sua
psicologia vive em conflito interior com a realidade que a rodeia, a
narrativa espelha este conflito igualmente. O título do romance
refere-se à intensa angústia existencial experimentada por Luís, que
é um indivíduo que não encontra um meio pleno de adaptação à
sociedade, apesar de estar aparentemente encaixado no fluxo social.
As características da personagem constituem pontos relevantes que
apontam sua sensibilidade: a moderada reclusão social, o intelecto
acusado por sua figura, o comportamento disperso de fugas e
invocações do passado, além da deformação da realidade em redor.
Luís é um ser oprimido
pelos padrões sociais e prisioneiro da tediosa rotina diária em que
foi encaixado pelos costumes da sociedade, por isso, o seu
sentimento de revolta e sua constante inquietude e angústia são
realmente conseqüências inevitáveis. Todavia, a questão de maior
relevância é o fato de que ele possui a consciência de sua
insatisfação e opressão.
O protagonista conhece e
vivencia a necessidade de libertação dos padrões impostos, com
efeito, o desejo de libertação manifestado em alguns momentos de
reflexão é um dos problemas mais evidenciados para o leitor atento,
como se observa na citação selecionada:
“A porta escancarada
convidava-me a abandonar tudo, a sair sem destino – um, dois, um,
dois - e não parar tão cedo. Nenhum sargento me mandaria fazer meia
volta. Os meus passos me levariam para oeste, e à medida que me
embrenhasse no interior, perderia a peias que me impuseram, como a
um cavalo que aprende a trotar. Tornar-me-ia de novo meio cigano,
meio selvagem, [...], as mesmas que vi há muitos anos enfeitadas de
flores secas e fitas desbotadas.” (RAMOS, 2003, p. 77).
Portanto, em um breve
comentário, é possível notar a desrealização no romance Angústia de
Graciliano Ramos, e avaliar como ela ocorre por meio da variação no
tempo diegético. Este tempo busca acompanhar os pensamentos
conflitantes da personagem protagonista, o que inevitavelmente
altera a estrutura narratológica quando desordena suas unidades –
tempo e espaço, e afeta o enredo por alterar a visão da personagem
apresentando-lhe uma realidade particular.
BIBLIOGRAFIA
RAMOS, Graciliano. –
Angústia. – Coleção Biblioteca Folha. SP. 2003, 222p.
COUTINHO, Afrânio. A
literatura no Brasil. Editorial Sul Americana S.A. RJ, 1969.