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A história de Mariam e Laila é de certa
forma a história de muitas mulheres, que ao invés de se “esconder” atrás da
burca, estão escondidas igualmente em seus postos de trabalho, em seus
casamentos opressivos, na fome de seus filhos, no roxa choque de seu sexo.
O autor novamente se reporta à Cabul, sua
cidade natal, para traçar a esta trama; as personagens são construídas
lentamente, e todas vão ganhando alma, antes mesmo de seus corpos, o que
parece ser intencional, como quem explica olores para dizer o que são
flores.
Todo o texto é carregado de forte emoção,
compreenda-se aqui, cada página; o virtuoso é que, além da construção do
próprio romance por assim dizer, ele nos releva o cotidiano
político-econômico e social do Afeganistão, a partir do olhar (muitos deles
rasos d’água), de quem lá vive e ou, sobretudo Viveu (antes de morrer, ou
ter parte de seu corpo mutilada por minas terrestres, juntar as partes dos
corpos de seus filhos estraçalhados sobre telhados e ruas).
Um dos melhores livros que já li,
emocionou-se profundamente, além de tirar minha própria burca, que com sua
trama fechada ofuscava-me a visão para os acontecimentos daquele país.
“Rashid
fez um bolinho de arroz com a mão. Botou aquilo na boca, mastigou e, depois
com uma careta, cuspiu tudo na
sofrah.
- O que ouve? Perguntou Mariam...
-O que houve? – repetiu ele, como um miado,
imitando-a. – O que houve é que você fez besteira novamente.
-Mas deixei ferver por mais cinco minutos
que o habitual.
-Isso é uma mentira deslavada!
-Juro...
Rashid sacudiu o resto de comida das mãos e
afastou o prato, derrubando molho e arroz na sofrah. Mariam o viu se
levantar como uma bala, sair de casa batendo a porta.
Ajoelhou-se no chão e tentou catar os grãos
de arroz para botá-los de volta no prato, mas suas mãos tremiam tanto que
precisou esperar que o tremor melhora-se.O medo lhe apertava o peito. Tentou
respirar fundo algumas vezes. Viu o seu rosto pálido refletindo na vidraça e
desviou os olhos.
Depois ouviu a porta da frente se abrindo e
Rashid voltando para a sala.
-Levante-se daí – disse ele. Levante-se e
venha cá.
Então, ele agarrou a sua mão, abriu-a e
depositou ali um punhado de pedrinhas.
-Ponha isso na boca.
-O que?
-Ponha... isso...na...boca.
-Pare, Rashid. Eu...
Com aquelas mãos vigorosas, ele agarrou o
seu rosto. Meteu dois dedos em sua boca, obrigando-a a abri-la, e enfiou ali
aquelas pedrinhas duras e frias.
Mariam tentou lutar contra aquilo, mas ele
continuou a enfiar as pedrinhas em sua boca com o lábio superior erguido num
sorriso de desdém.
-Agora, mastigue – disse ele.
Com a boca cheia de pedrinhas e terra,
Mariam tentou balbuciar uma suplica. As lágrimas lhe escorriam pelo canto
dos olhos.
-MASTIGUE – berrou ele, e aquele hálito de
cigarro atingiu em cheio o seu rosto.
E ela mastigou. Lá no fundo de sua boca,
alguma coisa estalou.
-Ótimo – disse Rashid. Suas mandíbulas
tremiam. – Agora você sabe o gosto do arroz que faz. Agora sabe o que tem me
dado nesse casamento. Comida ruim, e nada mais.
E foi embora deixando Mariam cuspindo
pedrinhas, sangue e pedaços de dois molares quebrados.” Pág. 94 e 95 |