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“Nunca saí sem estar maquiada e trajada às
vezes com algum requinte: turbante, xale, vários colares e grandes brincos.
O branco, o preto e o vermelho eram uma constante em seu guarda-roupa. O
batom geralmente era de tom rubro forte; o rímel negro, colocado com
sutileza, aumentava a obliqüidade e fazia ressaltar o verde marítimo dos
olhos. Indiscutivelmente era mulher interessante, de traços nobres e,
talvez, inatingível.”
[2]
Clarice
Lispector
Clarice Fotobiografia (2008), de Nádia Battella Gotlib, editado pela
EDUSP (Editora da Universidade de São Paulo), não é uma análise
especificamente barthesiana, mas também não lhe é alheia, uma vez que a
autora confessa logo de início “Talvez Roland Barthes ajude a entender esse
impulso em direção à figura do autor, de quem ficam apenas as cinzas, a
partir de cada obra publicada” (GOTLIB, 2008, p.13). O texto barthesiano,
porém, será o intertexto prenunciado para olhar o registro visual, a
visualização da vida em diversos momentos.
A Câmara Clara, de Roland Barthes (1915-1980) é outro livro aludido
no prefácio para anunciar uma espécie de reflexão comparativa entre escrita
e fotografia, ficção e visualidade, marcas em termos de coordenadas
temporais e espaciais, em que, tanto uma como outra, se propõem, se executam
e se tocam. Intertextualmente, a vida é retratada aos fragmentos, aos
flashes de instantes significativos que marcaram a trajetória da
escritura/escritora. Assim, o texto fotográfico falará certamente mais, de
(uma ou várias) Clarice (s) do que de Roland Barthes. Ainda que Roland
Barthes seja inevitável sempre que o prazer se inscrevera na produção
criativa e na intensificação do desejo de falar do retrato, do retratado, da
ficção que se inscreve em cada cena, em cada gesto ou olhar dessa
visualização clariceana.
“Ver Clarice”, então, parece pressupor aceitar o fragmento, a visão
caleidoscópica, a escolha do ambíguo, o que se apresenta sobre a forma de
uma fotobiografia labiríntica, em olhares enviesados, registros que
singularizam instantes. Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella
Gotlib é ensaio/álbum luminoso de leitura do retrato que se desdobra.
Enquanto marcas “físicas e ficcionais”, os retratos configuram-se aí como
lugar de inscrição e rasura de signos cuja ilegibilidade (ou jogo de
legibilidade?) seduz e desafia o olhar de Nádia, (e também dos leitores)
congestionado pelo silêncio e pela escritura dessa escritora que é ícone na
literatura brasileira e referência para muitos escritores contemporâneos.
Por isso a pesquisadora diz: “A prova e o enigma: juntos, compõem o
repertório dos registros com os quais se envolverá o leitor/espectador dessa
fotobiografia” (GOTLIB, 2008, p.14).
Entre o que se vê e o que lê, diz a biógrafa, é possível que de vez em
quando, ao folhear este livro, “um outro fantasma de escritor aflore, pela
associação imediata que possa se estabelecer” (entre o lido e o visto).
Contraditoriamente, essa “visão fotográfica” de Clarice parece privilegiar o
desejo de uma câmara escura (sombria), ou seja, o gesto que a máquina
fotográfica, através de seu negativo, nos permite visualizar. Diferente,
portanto, daquilo que a câmara clara permite copiar exatamente como o objeto
é observado. Embaçados, os perfis que se traçam, nessas fotografias, parecem
dialogar com uma câmara escura, feito extensão do globo ocular e que podem
ser lidos e que não se apresentam como cópias exatas dos objetos observados.

Clarice por Loredano (2002) In: Clarice
Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib, p. 477
Por isso mesmo, esse jogo “câmara clara e câmara escura”, o ensaio
fotográfico, talvez opte pela câmara obscura onde a escrita e a
leitura clariceanas se produzem, zona ambígua de penumbra onde se joga e se
pode (ou não) alcançar o instante luminoso da epifania dos entendimentos.
Dividido em treze capítulos, o livro feito um álbum, mapeia cidades e
registra cenas: “Da Ucrânia ao Brasil...”; “Em Maceió...”, “Em Recife...”;
“No Rio de Janeiro...”; “Em Belém do Pará...”; “Em Nápoles...”; “ Em,
Berna...”; “Em Torquay...” e por último, “ Ainda no Rio de Janeiro...” são
rubricas que reforçam uma narrativa-memória-visual criada a partir de
imagens legendadas que marcam o percurso da escritora.
Passado, presente e futuro são revelados pela visão e que nos são dados a
ver, primeiramente, pela visualidade do texto, segundo, pela visualização
das imagens. Espécie de biografia-literária-fotográfica sugerindo ao leitor
um entendimento anterior da obra literária para, então, estabelecer relações
com as fotografias.
As fotografias freqüentes nesse livro-álbum dialogam com as ficções da
escritora no sentido delas mesmas encenarem o próprio ato de escrever, a
circunstância da criação- seja na ficção ou na biografia – nos rastros
perdidos das experiências, nas mensagens ilegíveis dos detalhes, nas ruínas
de documentos do “sentido único” da decifração. Daí a opção do ensaio pela
descontinuidade e fragmentação dos retratos, em detrimento de um percurso
retilíneo e compacto, como se mimetizasse a lógica de uma vida que se
constitui pela metamorfose incessante, pelas metáforas e metonímias, pela
implosão da referencialidade: labirinto, medusa, espelho partido.
As fotos de Clarice que compõem a capa (dura) e a contracapa, como também a
capa que embala o livro (quatro no total) revelam o jogo de múltiplas faces
e olhares. Aí também, prenunciado nessas imagens, está o movimento mais
fascinante do livro e do texto de Nádia - o encontro da ensaísta com a
escritora, espécie de recuperação da memória clariceana através do ensaio
que, à maneira de Clarice Lispector, dá-se a ler/ver como “A Câmara
fotográfica singularizou o instante. E eis que automaticamente saí de mim
para me captar tonta de meu enigma, diante de mim, que é insólito e
estarrecedor por ser extremamente verdadeiro, profundamente vida nua
amalgamada na minha identidade” (LISPECTOR, Clarice. Um Sopro de Vida,
1978, p.68).

Capa do livro: Clarice Fotobiografia,
de Nádia Battella Gotlib

Contrapa do livro: Clarice Fotobiografia,
de Nádia Battella Gotlib
As duas fotografias em preto em branco que abrem o livro focam os olhos, a
boca e o nariz, traços fotografados que por sua vez, dão volume ao próprio
rosto. O rosto, emoldurado aí, ressalta o cabelo e a maquiagem gerados pelo
tom claro-escuro. Nesses efeitos fotográficos, os ornamentos que realçam o
rosto reforçam uma identidade disfarçada que se dá a ver nos recursos de
embelezamentos e simplicidade, no revelar e esconder defeitos ou
imperfeições. De qualquer forma, essas fotografias iniciais deixam claro
que, se a maquiagem muito forte, esconde o rosto; se leve, revela e ilumina.
Clarice, no vigor dessas duas capas do livro, além de revelar seus duplos,
calca a fotografia fazendo emergir não a representação de um rosto, mas sim,
os diversos efeitos de uma máscara.
Nesse jogo visual, as capas, como máscaras narrativas velam e revelam a
personagem que representa. Essas fotografias, de alguma forma, não criam uma
máscara de uma personagem qualquer, mas a sua própria máscara, como um
duplo, um outro, uma dobra de si que explicita o próprio conceito de
auto-retrato na linguagem da fotografia. Dessa forma, essas capas,
emolduradas em fotografias da autora, não se apresentam como um traço
autobiográfico ou fotobiográfico, mas como quis Roland Barthes um biografema
fotográfico. Traços que se revelam pelos fragmentos de um corpo feminino em
representação.
Clarice Fotobiografia é, em muitos sentidos, mais que um livro de
registros fotográficos, um livro de memória visual da escritora. Por meio de
uma nova gramática e uma nova sintaxe visual, projeta a vida irradiada sobre
a circulação dos diversos fragmentos, dando visibilidade incomum, rara entre
nós, ao diálogo intertextual entre o texto e a fotografia. Essa “cartografia
visual e afetiva”, então, desenhada e mapeada por Nádia repercute, para o
leitor/espectador, em respostas que se abrem para outras indagações. Quem é
Clarice Lispector? O que mais esperar dessa escritora?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAUJO,
Rodrigo da Costa. O Rumor de Clarice Lispector. In: Cronópios.
Portal de Literatura e Arte. Acesso em: 21/07/2008.
http://www.cronopios.com.br
_______.
Reverberações Clariceanas. Macaé-RJ. Revista Ao Peda-Letra/
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. 2008. p.137-150.
BARTHES,
Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Julio C.
Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984.
BORELLI,
Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de
Janeiro: Nova fronteira, 1981.
GOTLIB,
Nádia Battella. Clarice. Uma Vida que se Conta. São Paulo. Ática.
1995.
_______.
Clarice Fotobiografia. São Paulo. EDUSP, 2008.
LISPECTOR, Clarice. Um Sopro de Vida. (Pulsações). Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1978.

[1]
Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre
em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da
Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de
Macaé. E-mail:
rodricoara@uol.com.br
[2]
LISPECTOR, Clarice. In: Olga Borelli, Clarice Lispector: Esboço para
um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1981. p.13
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