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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 01 de setembro de 2008 21:53:03                                               

 
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CULTURA - Literatura

O fascínio de Clarice Lispector: pose para uma fotografia

   

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 03/08/2008

                    

 

 

“Nunca saí sem estar maquiada e trajada às vezes com algum requinte: turbante, xale, vários colares e grandes brincos. O branco, o preto e o vermelho eram uma constante em seu guarda-roupa. O batom geralmente era de tom rubro forte; o rímel negro, colocado com sutileza, aumentava a obliqüidade e fazia ressaltar o verde marítimo dos olhos. Indiscutivelmente era mulher interessante, de traços nobres e, talvez, inatingível.” [2]

Clarice Lispector

 

Clarice Fotobiografia (2008), de Nádia Battella Gotlib, editado pela EDUSP (Editora da Universidade de São Paulo), não é uma análise especificamente barthesiana, mas também não lhe é alheia, uma vez que a autora confessa logo de início “Talvez Roland Barthes ajude a entender esse impulso em direção à figura do autor, de quem ficam apenas as cinzas, a partir de cada obra publicada” (GOTLIB, 2008, p.13). O texto barthesiano, porém, será o intertexto prenunciado para olhar o registro visual, a visualização da vida em diversos momentos.

A Câmara Clara, de Roland Barthes (1915-1980) é outro livro aludido no prefácio para anunciar uma espécie de reflexão comparativa entre escrita e fotografia, ficção e visualidade, marcas em termos de coordenadas temporais e espaciais, em que, tanto uma como outra, se propõem, se executam e se tocam. Intertextualmente, a vida é retratada aos fragmentos, aos flashes de instantes significativos que marcaram a trajetória da escritura/escritora. Assim, o texto fotográfico falará certamente mais, de (uma ou várias) Clarice (s) do que de Roland Barthes. Ainda que Roland Barthes seja inevitável sempre que o prazer se inscrevera na produção criativa e na intensificação do desejo de falar do retrato, do retratado, da ficção que se inscreve em cada cena, em cada gesto ou olhar dessa visualização clariceana.

“Ver Clarice”, então, parece pressupor aceitar o fragmento, a visão caleidoscópica, a escolha do ambíguo, o que se apresenta sobre a forma de uma fotobiografia labiríntica, em olhares enviesados, registros que singularizam instantes. Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib é ensaio/álbum luminoso de leitura do retrato que se desdobra. Enquanto marcas “físicas e ficcionais”, os retratos configuram-se aí como lugar de inscrição e rasura de signos cuja ilegibilidade (ou jogo de legibilidade?) seduz e desafia o olhar de Nádia, (e também dos leitores) congestionado pelo silêncio e pela escritura dessa escritora que é ícone na literatura brasileira e referência para muitos escritores contemporâneos. Por isso a pesquisadora diz: “A prova e o enigma: juntos, compõem o repertório dos registros com os quais se envolverá o leitor/espectador dessa fotobiografia” (GOTLIB, 2008, p.14).

Entre o que se vê e o que lê, diz a biógrafa, é possível que de vez em quando, ao folhear este livro, “um outro fantasma de escritor aflore, pela associação imediata que possa se estabelecer” (entre o lido e o visto). Contraditoriamente, essa “visão fotográfica” de Clarice parece privilegiar o desejo de uma câmara escura (sombria), ou seja, o gesto que a máquina fotográfica, através de seu negativo, nos permite visualizar. Diferente, portanto, daquilo que a câmara clara permite copiar exatamente como o objeto é observado. Embaçados, os perfis que se traçam, nessas fotografias, parecem dialogar com uma câmara escura, feito extensão do globo ocular e que podem ser lidos e que não se apresentam como cópias exatas dos objetos observados.

Clarice por Loredano (2002) In: Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib, p. 477

 

Por isso mesmo, esse jogo “câmara clara e câmara escura”, o ensaio fotográfico, talvez opte pela câmara obscura onde a escrita e a leitura clariceanas se produzem, zona ambígua de penumbra onde se joga e se pode (ou não) alcançar o instante luminoso da epifania dos entendimentos.

Dividido em treze capítulos, o livro feito um álbum, mapeia cidades e registra cenas: “Da Ucrânia ao Brasil...”; “Em Maceió...”, “Em Recife...”; “No Rio de Janeiro...”; “Em Belém do Pará...”; “Em Nápoles...”; “ Em, Berna...”; “Em Torquay...” e por último, “ Ainda no Rio de Janeiro...” são rubricas que reforçam uma narrativa-memória-visual criada a partir de imagens legendadas que marcam o percurso da escritora.

Passado, presente e futuro são revelados pela visão e que nos são dados a ver, primeiramente, pela visualidade do texto, segundo, pela visualização das imagens. Espécie de biografia-literária-fotográfica sugerindo ao leitor um entendimento anterior da obra literária para, então, estabelecer relações com as fotografias.

As fotografias freqüentes nesse livro-álbum dialogam com as ficções da escritora no sentido delas mesmas encenarem o próprio ato de escrever, a circunstância da criação- seja na ficção ou na biografia – nos rastros perdidos das experiências, nas mensagens ilegíveis dos detalhes, nas ruínas de documentos do “sentido único” da decifração. Daí a opção do ensaio pela descontinuidade e fragmentação dos retratos, em detrimento de um percurso retilíneo e compacto, como se mimetizasse a lógica de uma vida que se constitui pela metamorfose incessante, pelas metáforas e metonímias, pela implosão da referencialidade: labirinto, medusa, espelho partido.

As fotos de Clarice que compõem a capa (dura) e a contracapa, como também a capa que embala o livro (quatro no total) revelam o jogo de múltiplas faces e olhares. Aí também, prenunciado nessas imagens, está o movimento mais fascinante do livro e do texto de Nádia - o encontro da ensaísta com a escritora, espécie de recuperação da memória clariceana através do ensaio que, à maneira de Clarice Lispector, dá-se a ler/ver como “A Câmara fotográfica singularizou o instante. E eis que automaticamente saí de mim para me captar tonta de meu enigma, diante de mim, que é insólito e estarrecedor por ser extremamente verdadeiro, profundamente vida nua amalgamada na minha identidade” (LISPECTOR, Clarice. Um Sopro de Vida, 1978, p.68).

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Capa do livro: Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib

Contrapa do livro: Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib

 

As duas fotografias em preto em branco que abrem o livro focam os olhos, a boca e o nariz, traços fotografados que por sua vez, dão volume ao próprio rosto. O rosto, emoldurado aí, ressalta o cabelo e a maquiagem gerados pelo tom claro-escuro. Nesses efeitos fotográficos, os ornamentos que realçam o rosto reforçam uma identidade disfarçada que se dá a ver nos recursos de embelezamentos e simplicidade, no revelar e esconder defeitos ou imperfeições. De qualquer forma, essas fotografias iniciais deixam claro que, se a maquiagem muito forte, esconde o rosto; se leve, revela e ilumina. Clarice, no vigor dessas duas capas do livro, além de revelar seus duplos, calca a fotografia fazendo emergir não a representação de um rosto, mas sim, os diversos efeitos de uma máscara.

Nesse jogo visual, as capas, como máscaras narrativas velam e revelam a personagem que representa. Essas fotografias, de alguma forma, não criam uma máscara de uma personagem qualquer, mas a sua própria máscara, como um duplo, um outro, uma dobra de si que explicita o próprio conceito de auto-retrato na linguagem da fotografia. Dessa forma, essas capas, emolduradas em fotografias da autora, não se apresentam como um traço autobiográfico ou fotobiográfico, mas como quis Roland Barthes um biografema fotográfico. Traços que se revelam pelos fragmentos de um corpo feminino em representação.

Clarice Fotobiografia é, em muitos sentidos, mais que um livro de registros fotográficos, um livro de memória visual da escritora. Por meio de uma nova gramática e uma nova sintaxe visual, projeta a vida irradiada sobre a circulação dos diversos fragmentos, dando visibilidade incomum, rara entre nós, ao diálogo intertextual entre o texto e a fotografia. Essa “cartografia visual e afetiva”, então, desenhada e mapeada por Nádia repercute, para o leitor/espectador, em respostas que se abrem para outras indagações. Quem é Clarice Lispector? O que mais esperar dessa escritora?

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

ARAUJO, Rodrigo da Costa. O Rumor de Clarice Lispector. In: Cronópios. Portal de Literatura e Arte. Acesso em: 21/07/2008. http://www.cronopios.com.br

_______. Reverberações Clariceanas. Macaé-RJ. Revista Ao Peda-Letra/ Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. 2008. p.137-150.

BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Julio C. Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984.

BORELLI, Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1981.

GOTLIB, Nádia Battella. Clarice. Uma Vida que se Conta. São Paulo. Ática. 1995.

_______. Clarice Fotobiografia. São Paulo. EDUSP, 2008.

LISPECTOR, Clarice. Um Sopro de Vida. (Pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

 

 

 

 

 

 

 


 

[1] Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Macaé. E-mail: rodricoara@uol.com.br

 

[2] LISPECTOR, Clarice. In: Olga Borelli, Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1981. p.13

 

 

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