Clarice Lispector (1925-1977) é, sem dúvida, um dos
maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Sua prosa,
insólita, por excelência, é saudada por diversos críticos, traduzida
em diversos países, e motivo para diversas indagações. No entanto,
sua obra publicada para o público infanto-juvenil nada, ou quase
nada se comenta. Muitos leitores até não conhecem.
Dialogando com a literatura adulta, a sua produção
para crianças é repleta de intertextualidades, paródias e
paráfrases, e, por seu caráter inovador nos meados as década de
sessenta, estabeleceu uma nova linguagem no gênero destinado ao
leitor mirim. “O mistério do coelho pensante”, “A mulher que matou
os peixes”, “A vida íntima de Laura” e “Quase de verdade” são os
títulos que agradam a todas as idades, apesar de serem classificados
de “literatura-infantil”.
Esses livros, na verdade, utilizam o narrador adulto
para dialogar com as crianças sem disfarçar sua condição de adulto e
sem abrir mão de discutir atitudes importantes para qualquer ser,
como a liberdade, o direito de ser, a morte, a alienação, a
inexorabilidade do tempo e a condição do ser. Todos eles inauguraram
uma nova linguagem na literatura infanto-juvenil brasileira
carregada de contradições, conflitos e indagações na relação
adulto-criança, mãe-filho.
Invertendo diversos papéis, essas obras literárias
sugerem que o adulto é que deve intrometer-se no mundo e nas
sensações infantis para compreendê-los, possibilitando, assim, novas
propostas de relacionamento criança-adulto-mundo. A questão dos
animais nessas pequenas histórias contadas pelas narradoras é um
dado para a afirmação de que animais e pessoas (crianças) se
equivalem no mundo da literatura. Eles,- os animais -, que muitas
vezes intitulam esses livros, gozam, no mundo clariceano, de uma
liberdade incondicionada, espontânea, originária, que nada – nem a
domesticação degradante de uns- seria capaz de anular. Se o reino
que eles formam está, firmemente assentado na própria natureza, é
porque se acham integrados ao ser universal de que não se separam e
de que guardam a essência primitiva, ancestral e inumana.
A criança, nesse contexto alegórico, está ao mesmo plano
dos “bichos convidados”. “Eu só convido os bichos que eu gosto. E, é
claro, convido gente grande e gente pequena”, diz a narradora. Em “A
vida íntima de Laura” a galinha reforça alguns questionamentos que
irão se repetir em muitos dos outros livros: a sinceridade no
tratamento com a criança, o questionamento do próprio gênero
“literatura infantil”, o equilíbrio ente a realidade e a fantasia, o
papel da mulher, da dona de casa e o próprio absurdo desse
cotidiano.
Conversar intimamente é nota dominante na ficção
clariceana, seja na obra infanto-juvenil, seja na obra adulta. Tudo,
de certa forma, nos remete à condição “misteriosa” da literatura que
só acaba quando a criança descobre outros mistérios. Dessa maneira,
entre bichos e outras reflexões, a autora cria sua teoria do próprio
gênero “literatura infanto-juvenil”, metalinguisticamente, através
das histórias que narra. Para ela, portanto, a literatura para
crianças deverá ser aquela em que o adulto criador se integrará no
seu próprio relato, na história contada, integrando-se na fantasia e
na sensibilidade infantis. De condutor do fio da narrativa ele
passará a ser conduzido por esta. Para isto, ele deverá despir-se de
sua postura de adulto e, junto com a criança, através da palavra em
sua função poética e mágica, estabelecer uma diálogo de textos, onde
a vida e as relações sociais poderão ser questionadas pela fantasia
que puderem engendrar.
A literatura clariceana para crianças, como a de
adulto, seria, portanto, o ponto de partida para surgirem outros
mistérios. A vida é um mistério, dizia Clarice Lispector, e só a
arte pode dar-lhes respostas, através de novas perguntas e de novos
mistérios.