ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 02 de março de 2009 20:51:02                                               

 
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CULTURA - Literatura

Clarice Lispector para crianças

   

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 02/03/2009

                    

           

Clarice Lispector (1925-1977) é, sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Sua prosa, insólita, por excelência, é saudada por diversos críticos, traduzida em diversos países, e motivo para diversas indagações. No entanto, sua obra publicada para o público infanto-juvenil nada, ou quase nada se comenta. Muitos leitores até não conhecem.

           

Dialogando com a literatura adulta, a sua produção para crianças é repleta de intertextualidades, paródias e paráfrases, e, por seu caráter inovador nos meados as década de sessenta, estabeleceu uma nova linguagem no gênero destinado ao leitor mirim. “O mistério do coelho pensante”, “A mulher que matou os peixes”, “A vida íntima de Laura” e “Quase de verdade” são os títulos que agradam a todas as idades, apesar de serem classificados de “literatura-infantil”.

            Esses livros, na verdade, utilizam o narrador adulto para dialogar com as crianças sem disfarçar sua condição de adulto e sem abrir mão de discutir atitudes importantes para qualquer ser, como a liberdade, o direito de ser, a morte, a alienação, a inexorabilidade do tempo e a condição do ser. Todos eles inauguraram uma nova linguagem na literatura infanto-juvenil brasileira carregada de contradições, conflitos e indagações na relação adulto-criança, mãe-filho.

           

Invertendo diversos papéis, essas obras literárias sugerem que o adulto é que deve intrometer-se no mundo e nas sensações infantis para compreendê-los, possibilitando, assim, novas propostas de relacionamento criança-adulto-mundo. A questão dos animais nessas pequenas histórias contadas pelas narradoras é um dado para a afirmação de que animais e pessoas (crianças) se equivalem no mundo da literatura. Eles,- os animais -, que muitas vezes intitulam esses livros, gozam, no mundo clariceano, de uma liberdade incondicionada, espontânea, originária, que nada – nem a domesticação  degradante de uns- seria capaz de anular. Se o reino que eles formam está, firmemente assentado na própria natureza, é porque se acham integrados ao ser universal de que não se separam e de que guardam a essência primitiva, ancestral e inumana.

            A criança, nesse contexto alegórico, está ao mesmo plano dos “bichos convidados”. “Eu só convido os bichos que eu gosto. E, é claro, convido gente grande e gente pequena”, diz a narradora. Em “A vida íntima de Laura” a galinha reforça alguns questionamentos que irão se repetir em muitos dos outros livros: a sinceridade no tratamento com a criança, o questionamento do próprio gênero “literatura infantil”, o equilíbrio ente a realidade e a fantasia, o papel da mulher, da dona de casa e o próprio absurdo desse cotidiano.

           

Conversar intimamente é nota dominante na ficção clariceana, seja na obra infanto-juvenil, seja na obra adulta. Tudo, de certa forma, nos remete à condição “misteriosa” da literatura que só acaba quando a criança descobre outros mistérios. Dessa maneira, entre bichos e outras reflexões, a autora cria sua teoria do próprio gênero “literatura infanto-juvenil”, metalinguisticamente, através das histórias que narra. Para ela, portanto, a literatura para crianças deverá ser aquela em que o adulto criador se integrará no seu próprio relato, na história contada, integrando-se na fantasia e na sensibilidade infantis. De condutor do fio da narrativa ele passará a ser conduzido por esta. Para isto, ele deverá despir-se de sua postura de adulto e, junto com a criança, através da palavra em sua função poética e mágica, estabelecer uma diálogo de textos, onde a vida e as relações sociais poderão ser questionadas pela fantasia que puderem engendrar.

           

A literatura clariceana para crianças, como a de adulto, seria, portanto, o ponto de partida para surgirem outros mistérios. A vida é um mistério, dizia Clarice Lispector, e só a arte pode dar-lhes respostas, através de novas perguntas e de novos mistérios.

[1] Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Macaé. E-mail: rodricoara@uol.com.br

 

 
  

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::sobre o autor::

Rodrigo da Costa Araújo é Mestre em Ciência da Arte pela UFF, professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e doutorando, também, pela UFF – Universidade Federal Fluminense. E-mail: rodricoara@uol.com.br

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