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Conforme
expressou com acerto Antonio Cicero em “Finalidades sem fim”
(Companhia das Letras, 2005), o poeta contemporâneo, no
Brasil – como é o caso do Zeh Gustavo, que publicou
recentemente seu livro “Idade do Zero” (Escrituras Editora,
2005) –, vive e publica suas obras após as experiências
concretizadas pelas vanguardas do século passado:
modernismo, geração de 45, poesia concreta, poesia práxis.
Nesse sentido, ao poeta assim situado cabe a posse de toda
liberdade no uso da forma para expressar sua arte: versos
livres, sonetos, poemas concretos. Entretanto, é preciso
tomar certos cuidados, pois a linguagem serve para tudo –
até para não dizer nada.
Fizemos esse pequeno intróito por haver impressionado nosso
espírito a seguinte frase de Martim Heidegger, filósofo
alemão: a linguagem é a casa do [Ser]. Se a linguagem é a
casa do [Ser]; se o poeta é o criador da linguagem, que,
conforme já advertimos, serve para tudo, até para não dizer
nada; se do [Nada] nada podemos dizer, por nos faltar a
palavra adequada, como poderemos aceitar o fato de ser o
poeta, assim como o filósofo, o vigia desse passo, por meio
do qual o pensamento atinge o [Ser] pela via da linguagem?
Esse é o desafio que Zeh Gustavo assume para si, seguindo os
passos de Mário Chamie: atingir o [Ser] através da
linguagem, pelo caminho de sua desconstrução. A chave de sua
tentativa (se acertada ou não só o tempo dirá) é a
desconstrução do [Ser] pela linguagem, por através do
inverso da palavra. Nesse sentido, o verso “Optei: não-ser”
vai atravessar todo o livro. Zeh apresenta uma espécie de
“vício”: o uso repetido de prefixos de oposição, buscando
martelar, a ferro frio, quase que escrevendo a palavra ao
contrário, parecendo querer dizer que a negação do conceito
expresso na palavra escrita ainda afirma o que ela
significa.
Como o poeta de carne e osso que é, Zeh Gustavo, em alguns
poemas, combina uma tentativa de integração do [Eu] do poeta
com o [Estar] no mundo. Há nuances de poesia com preocupação
social em alguns momentos, porém sem exageros, como por
exemplo no poema “Escriturário” ou no poema “Caixa
Executivo”, nos quais a vida surge como uma ilusão, uma
ilusão que nos permite apreender o Real. Na verdade, o
escriturário escreve textos monótonos, bancários, folhas de
serviço, enquanto Zeh não desescreve sobre o [Nada], mas
sobre a Existência.
Nesse sentido, o segredo de Zeh está desvelado, sua busca se
dá pelo contrário: fazendo ode ao fastio de uma vida de
compensar cheques, despensando para não sucumbir diante do
quotidiano enfadonho, de trabalho realizado sem cor nesta
vida sem prazer diário, entre paredes de concreto e vidro,
onde vendemos o sangue de nossos melhores dias, o poeta
termina por celebrar a vida verdadeira que se passa sob a
luz do sol. Como ensinava Walter Benjamim: os homens, assim
como
as flores, também se voltam para onde nasce o sol.
Em certo sentido, Zeh demonstra, com seus poemas, que houve,
em momento anterior da poesia brasileira, uma implosão de
sentimentos – que ele não irá denunciar por delicadeza! –,
no qual o poeta, assim como uma estrela-anã, representa o
homem pós-moderno com sua força gravitacional superior à sua
força de expansão, se interiorizando até o infinito. Não
será essa a síntese de nosso tempo de exacerbado
individualismo burguês, sobre o qual Zeh nos faz refletir?
Por que não explodir como uma supernova ao invés de se
fechar sobre si mesmo, como um buraco negro? Zeh busca o ser
poeta, sem capitular ao lodo de autores pós-modernos
imitadores das gerações anteriores de Drummond, Bandeira e
Cabral.
Serviço:
Gustavo, Zeh. Idade do Zero. Prefácio de Mário Chamie. São
Paulo: Escrituras
Editora, 2005. 123pp. R$ 19,80.
Informações:
www.escrituras.com.br/liv_idade_do_zero.htm#http://liv_idade_do_zero.htm.
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