“A leitura é sempre o
esforço conjugado de compreender e de incorporar”
(SCHOLES, Robert.
Protocolos de Leitura. Edições 70, 1991, p.25)
A epígrafe acima,
pode, caso reescrita, - (“A ilustração é sempre um esforço
conjugado de compreender e de incorporar”) - ser um resumo para
o livro Pelos Jardins Boboli - Reflexões sobre a arte de
ilustrar livros para crianças e jovens (2008), de Rui
Oliveira. Mas, ao lermos o livro à luz do seu título, este
transforma-se num texto mais rico e proveitoso, com extremo
sabor estético, e também enigmático. Afinal, caminhar pelos
Jardins Boboli, é observar cada detalhe, ter a força visual e a
delicadeza dos signos escondidos.
À semelhança de
Umberto Eco em Seis passeios pelos bosques da ficção
(1994), também o título de Rui de Oliveira projeta no imaginário
pistas semiológicas e textuais. Metalinguisticamente, como
sinais e encaminhamentos, Os Jardins de Boboli é um
espaço do Palácio Pitti, em Florença, e, como certo convite ao
olhar, caracteriza-se pela grande beleza e por uma semiótica
contemplativa ao caminhar por sua arquitetura exuberante. Esse
gesto, na opinião do autor, é um convite à contemplação, uma
recreação para o espírito.
Com essa força do
olhar, extremamente diferente de Umberto Eco, em Seis
Passeios, Rui de Oliveira divide a contemplação em cinco
partes ou capítulos. Nessa metáfora dos Jardins Boboli,
as reflexões sobre a ilustração passam a ser vista como leituras
e registros visuais do imaginário da pós-modernidade, que se
apresentam sob a forma de uma decifração ou superposição de
códigos. Essas “reflexões sobre a arte de ilustrar livros para
crianças e jovens” - subtítulo explicativo - do livro de Rui -
são encaminhamentos luminosos do livro infantil contemporâneo
que se desdobram, tentaculares e fragmentários, na
multiplicidade de leituras que procuram lhe dar forma.
A primeira parte do
livro expõe aspectos gerais da imagem, - a ilustração, com seus
códigos e sintaxes próprios configura-se aí como lugar de
inscrição e rasura de signos cuja ilegibilidade seduz e desafia
o olhar de Rui, congestionado pelas sub-narrativas ou pelas
mágicas e truques das variadas leituras desse mundo.
Das tensões entre o
texto e o ilustrador alternam-se reflexões fundamentais: “São
muitos os olhares que podemos ter diante de uma ilustração.
Nenhuma ilustração possui uma leitura absoluta do texto, muito
menos o leitor da imagem. A leitura será sempre parcial,
segmentada e particularizada. Vemos aquilo que esperamos ver”.
(2008, p 32).
Em outros momentos,
traçando diferenças fundamentais entre ilustração e pintura, o
ensaísta chama a atenção afirmando, atentamente, que a
ilustração possui sua própria história. O ilustrador utiliza, em
seu trabalho intertextual, o mesmo instrumental técnico e até o
mesmo suporte do pintor - aquarela, acrílica, guache, tela.
Esses aspectos configuracionais se assemelham a uma pintura, mas
existem diferenças fundamentais entre uma e outra.
Enquanto a ilustração
sempre narra uma história, e vincula-se semioticamente a
temporalidade dos fatos, aos momentos mais significativos, a
pintura apresenta-se, aos olhos do espectador, como narrativa ou
não. A ilustração é sempre uma representação figurativa, a
pintura, por sua vez, assume aspectos variáveis. Ambas possuem
diferentes funções quanto às suas características estéticas,
embora a pintura seja reproduzida em livros de arte e a sua
apreciação integral se verifica por meio da contemplação da obra
original em museus ou galerias. Diferentemente da pintura, a
ilustração é reproduzida em livros de forma múltipla.
“Passeando” por esse
(campo) minado que o ensaísta-ilustrador tem diante de si, o
ilustrador-esteta sabe pelas suas próprias palavras que “o
virtuosismo da imagem e a interpretação do ilustrador não podem
ser mais importantes que a obra. Apesar de vivermos em uma época
em que as releituras são sinônimos de originalidade e
pessoalidade. Frequentemente nos detemos e apreciamos a leitura,
e não no texto original”. (2008, p. 33). Lê-la é então
entregar-se a um jogo aberto, ao equilíbrio entre a “imaginação
verbal e a imaginação visual”, é fazer reverberar no espaço do
livro as conotações dos Jardins de Boboli: perplexidade,
surpresa, atenção, encantamento, beleza, assombros no percurso
do olhar. Interessa mais perseguir os rastros perdidos das
experiências, as mensagens ilegíveis do texto, as metáforas e
ambiguidades invisíveis sob o texto do que aprisionar seus
signos na armadura do sentido único da decifração.
Daí a opção do ensaio
pela descontinuidade e fragmentação da escrita (reflexões) em
detrimento de um percurso retilíneo e compacto, como se
mimetizasse alguns princípios da ilustração – a lógica de um
saber que se constitui pela metamorfose incessante, pela
demolição das assertivas dogmáticas, pela implosão do olhar
único. A margem do ensaio, feito verbetes explicativos e
ilustrados, é palco desse saber que fragmenta a ilustração para
descortinar as várias leituras que a imagem contém, os signos
que esconde em seus subterrâneos, as inúmeras histórias ou
discursos que ainda pode contar /ver.
Na segunda parte do
livro, Pelos Jardins Boboli, é um passeio pela história
da arte, centrado no significante, na forma, em exemplos
recorrentes ao mundo do Renascimento e do Maneirismo. A
ilustração, ainda, mistura-se, segundo o ensaísta, a sintaxe
cinematográfica e a outras linguagens artísticas, como a música,
a literatura, a ópera e o teatro. Como em A Biblioteca de
Babel, de Jorge Luis Borges as ilustrações para Rui
Oliveira, é o centro alcançado do labirinto, a rede simbólica
que o eu à deriva atravessa e que elege simultaneamente como
lugar teórico e “texto” privilegiado da experiência - objeto de
paixão.
A quarta e quinta
partes falam, respectivamente, do saber da ilustração, da paixão
de ilustrar, da tarefa metateórica a que se propõe o livro:
“reflexões sobre a arte de ilustrar.” O movimento mais
fascinante e original do texto de Rui estão nesses capítulos que
resumem o confronto do ensaísta com a arte de ilustrar (que é
sua) e dela mesma enquanto imagem. A ilustração é recuperação da
memória visual através do ensaio que a maneira intertextual
traça momentos de experiência e de pesquisa. Novamente,
confirma-se o que já foi dito em outros capítulos: “Ilustrar é a
arte de sugerir narrativas” (p. 114) ou “ilustrar é aludir” à
música, à pintura, à literatura, ao teatro e à ópera [...] não
unicamente para decifrar frios enigmas, ou esotéricas esfinges,
muito menos para comparar formas distintas de arte. Essas
abrangentes referências compõem um mosaico no qual a ilustração
é uma pedra e ao mesmo tempo, todas as outras pedras. Essas
linguagens citadas nos possibilitam uma interpretação mais
flexível do ato de ver a ilustração; e ver é pensar”. (p.120).
Pelos Jardins
Boboli - Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças
e jovens é, em muitos sentidos, mais do que um livro
teórico, um livro de fundação. Por meio de uma leitura
intertextual e uma nova sintaxe da imagem, projeta formas
multidisciplinares sobre a circulação dos discursos da imagem e
suas mediações, dando visibilidade incomum, do diálogo entre o
texto literário e a ilustração. A “vigília do olhar’’, então,
desenhada com a mão e olho do mestre repercute, para leitores de
imagens (ou vários leitores) em resposta que se abrem para
outras indagações.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
ECO, Umberto. Seis
passeios pelos bosques da ficção. São Paulo. Companhia das
Letras, 1994.
OLIVEIRA, Rui.
Pelos Jardins Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros
para crianças e jovens. Rio de Janeiro. Nova Fronteira,
2008.
SCHOLES, Robert.
Protocolos de Leitura. Lisboa: Edições 70, 1991.