
La trahison des images. René Magritte. 1929
huile sur toile, 59 x
65 cm
Los Angeles County Museum
"Criar uma imagem
consiste em ir retirando do objeto todas as suas dimensões, uma a
uma: o peso, o relevo, o perfume, a profundidade, o tempo, a
continuidade, e, é claro, o sentido"
Jean Baudrillard
(1997, p.32)
A Arte da
Desaparição
(1997) é mais uma obra em que o filósofo Jean Baudrillard
(1929-2007) mostra o hiper-real na arte, e, também, nas novas
tecnologias. Segundo os ensaios desta coletânea, a arte
contemporânea teria caído em sua própria armadilha estendida na
esperança de que o real se deixe aprisionar. Com esta premissa, a
arte enredada em seu próprio complô - o de uma realidade que ri de
si mesma - o crítico estabelece provocações e polêmicas. E, por isso
mesmo, afirma: "a arte tornou-se iconoclasta. O iconoclasmo moderno
não consiste mais em quebrar as imagens, mas em fabricar imagens,
uma profusão de imagens em que não há nada para ver" (1997, p.189).
Reforçando esse
discurso, ele mesmo confirma: "Por trás da orgia das imagens, alguma
coisa se esconde. O mundo furtando-se por trás da profusão das
imagens é o caso de uma outra forma de ilusão talvez, uma forma
irônica" (1997, p.90). O mundo pós-moderno, para ele, está cerrado
por simulacros e hiper-realidade, onde tudo é apresentado de maneira
"pornográfica", de maneira que não é mais necessário pensar sobre o
que nos é apresentado. A ironia hoje, manipulada pela arte, é apenas
mais um compromisso com o "estado das coisas", que encena o mais
banal que o banal como estética do insignificante. Em A Arte
da Desaparição,
Baudrillard mostra justamente isso: a passagem entre aparências e
artifícios nos deslocamentos do pensamento sobre a arte.

René Magritte, “Decalcomania," 1966
A vertigem do real,
"simulação encantada", espécie de trompe-l'oeil[1]
- mais falso -são palavras chave para resumir o primeiro ensaio - "O
Trompe-L'oeil". Utilizando esta técnica da pintura e os efeitos
que isso causa no olho do espectador, Baudrillard afirma: "Com isso,
essa surpresa despeja-se no mundo circundante chamado "real",
revelando-nos que a "realidade" não é nunca senão um mundo encenado,
objetivado segundo as regras da profundidade, que ela é um
princípio, a escultura e a arquitetura do tempo, mas um princípio
somente, e um simulacro a que põe fim a hipersimulação experimental
do trompe-l'oeil" (1997, p.18).
O trompe-l'oeil,
nesse caso, é utilizado como argumento para reforçar a produção de
imagens na sociedade pós-moderna: "o trompe-l'oeil não é
mais a pintura. Como o estuque, de que é contemporâneo, ele pode
fazer tudo, tudo arremedar, tudo parodiar. Torna-se o protótipo de
um uso maléfico das aparências" (1997, p.20).
Reforçando que "a
simulação envolve todo o edifício da representação como simulacro",
no ensaio "Iconoclastas" (p.23) Baudrillard sabe que "é perigoso
desmascarar as imagens, já que elas dissimulam que não há nada por
trás delas" (p.27). Fiel ao seu objeto, o autor de Simulacro e
Simulação, considera que o leitor/espectador seja secretamente
um iconoclasta. Não daqueles que fabricam uma profusão em que não há
nada para ver, mas que, semelhante aos estudos sobre fotografia,
pode-se questionar sobre o que nessa imagem desaparece, o que se
torna invisível ao olhar, sendo que essa invisibilidade não é da
ordem do visual, do óbvio, mas da ordem da encenação, do olhar e não
do olho. "O desejo de fotografar talvez venha dessa constatação:
visto da perspectiva de conjunto, do lado do sentido, o mundo é
bastante decepcionante. Visto no detalhe, e de surpresa, ele é
sempre de uma evidência perfeita" (1997, p.34).
A grande força
semiológica de suas reflexões consiste na refutação do pensamento
científico tradicional e no embasamento de sua filosofia em uma
aposta na virtualidade de uma realidade construída, uma
hiper-realidade, em que se discute a estrutura do processo em que a
cultura de massa produz uma realidade virtual. E foi este aspecto de
seu pensamento crítico que influenciou os criadores do filme
Matrix, ainda que o filósofo tivesse dito algumas vezes que o
filme representa mal a sua teoria.
Ele acreditava que
suas ideias estariam melhor aplicadas em filmes como O Show de
Truman e Cidade dos Sonhos, nos quais se percebe que a
diferença entre o real e o virtual é algo bem mais sutil. O teórico
da "desaparição do real" ou "arte da desaparição" reforçou, neste
livro, sua característica singular de "ficção teórica", um gênero
entre a crônica, a filosofia e o entretenimento conceitual, com
insights e hipóteses polêmicas como "vertigem estética das
formas", "vertigem eclética dos prazeres", substituídos na cultura
do espetáculo por simulacros, imagens e signos em rotação.
Discursos, que, segundo ele, não cessam de se autoproduzir e
circular, neutralizando e anulando uns dos outros pelo excesso e
pelo vazio de sentido.
Enfim, Baudrillard em
A Arte
da Desaparição
mostra seu pensamento em dois grandes capítulos: Aparências e
Artifícios. Os dois juntos resumem o pensamento do filósofo
sobra a arte. O primeiro apresenta "as aparências", o jogo das
formas que se relacionam com os termos da representação e da
anti-representação modernista, como também a estética especular em
torno do objeto e sujeito, real e ilusão. Nesse mundo vertiginoso,
não ficam de fora o espelho dos objetos no encontro com o sujeito em
trope-l'oeil, a crença dos iconoclastas nas imagens, o
objeto material da fotografia.
Em Artifícios
- o segundo capítulo do livro - Baudrillard fala da forma da
desilusão, do complô da arte contemporânea e do artefato alquímico
do efeito esplêndido de Warhol.Com esses deslocamentos entre os
objetos da arte e da arte dos objetos, o estudioso marca seu
percurso ao mundo semiológico da imagem, da crise contemporânea do
mundo com sua representação em imagem. Assim, feito e refeito jogo,
Baudrillard reforça seu discurso no mundo abismal dos simulacros,
sempre escondidos entre aparências e artifícios.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BAUDRILLARD, Jean.
A Arte da Desaparição. Tradução de Anamaria Skinner. Rio de
Janeiro. Ed. UFRJ, 1997.
Nota:
[1]
Trompe-l'oeil é uma
técnica
artística que, com truques de
perspectiva, cria uma
ilusão
óptica que mostre objetos ou formas que não
existem realmente. Provém de uma expressão em língua
francesa que significa engana o olho e é usada
principalmente em
pintura
ou
arquitetura. Recurso técnico-artístico empregado
com a finalidade de criar uma ilusão de ótica, como indica o
sentido francês da expressão: tromper, "enganar",
l'oeil, "o olho". Seja pelo emprego de detalhes
realistas, seja pelo uso da
perspectiva e/ou do claro-escuro, a imagem
representada com o auxílio do trompe l'oeil cria no
observador a ilusão de que ele está diante de um objeto real
em três dimensões e não de uma representação bidimensional.
O objetivo do procedimento é, portanto, alterar a percepção
de quem vê a obra. O termo, ainda que de início aplicado à
pintura de períodos em que predomina o
naturalismo - por exemplo, na Grécia Antiga e no
Renascimento italiano, se generaliza no
vocabulário crítico e passa a referir-se a qualquer forma de
ilusionismo acentuado empregado nas artes. Na arquitetura, a
decoração ilusionista em que a pintura de forros e paredes
altera a percepção do tamanho do espaço (denominada
quadratura), é considerada um tipo de trompe l'oeil.
Andrea Pozzo (1642 - 1709) é um dos maiores praticantes
desse ilusionismo decorativo, típico do
barroco.
Seu mais importante trabalho de quadratura é o enorme
afresco
Alegoria da Obra Missionária dos Jesuítas,
1691/1694, no forro da igreja de S. Ignazio, em Roma. (
Enciclopédia Itaú Cultural: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/)