
João do Rio
JOÃO DO RIO: UM “PINTOR” EXPRESSIONISTA
Rodrigo da Costa Araujo[i]
Esteta e iconoclasta acima de tudo, João do Rio, pseudônimo
literário de João Barreto, ou mesmo, João Paulo Emílio Cristóvão dos
Santos Coelho Barreto, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, - cidade que
escolheu para, também, nomeá-lo, por isso imortalizando-a -, em 05
de agosto de 1881 e faleceu na mesma cidade em 23 de junho de 1921,
dentro de um táxi na atual Rua Bento Lisboa, no Catete. Além de
escritor, era jornalista, tradutor e teatrólogo - um amante
incondicional das artes.
João do Rio: cadeira 26, ocupante 2
(2009), de Lêdo Ivo e lançado recentemente em Série Essencial, da
ABRL (Academia Brasileira de Letras) traz informações básicas, porém
significativas sobre o autor da Alma Encantadora das Ruas. A
série se propõe oferecer uma brevíssima apresentação dos ocupantes
das 40 cadeiras da ABL ao longo da História, bem como sobre os
patronos da instituição.
O livro, apesar de extremamente breve, resume, elegantemente, nas
palavras do poeta, romancista e ensaísta Lêdo Ivo, a vida e
trajetória do escritor dândi que, além de fazer da sua própria
cidade seu nome, soube, como ninguém, imortalizar sua arte a partir
da memória dela, se por memória entendemos a zona obscura em torno
do passado e do futuro. A breve apresentação do escritor pode ser
descrita como um filme da vida de João do Rio em seis tomadas,
capítulos ou rubricas intituladas: 1. “Rio civiliza-se”, 2. “Uma
Questão de estilo”, 3. “Tiros na Avenida”, 4. “Noite equívoca”, 5.
“O homem que viaja”, 6. “Passos na praça deserta”.
A vida/obra incluída nessas rubricas assume espécie de guia,
retratos atravessados pelo frêmito do art nouveau, momentos
que descrevem, elegantemente, fluxos, pistas - uma vida que se
mistura com a obra, feita de textos. Aqui estão, numa síntese feita
em recortes, num livro de apresentações, os elementos essenciais com
que se ergueu, ao longo do tempo, a poética de João do Rio. Para
Ledo Ivo, o cronista que imortalizou a cidade do Rio de Janeiro,
tinha “uma prosa imagística, de uma vivacidade e modulação
incomparáveis, desfilam a frivolidade, a banalidade e a hipocrisia
de uma sociedade cosmética e desespiritualizada”, ou mais ainda “ele
escrevia como se pintasse. Ou fotografasse. Mestre das entressombras,
o impressionista João do Rio possuía também uma palheta
expressionista habilitada para a produção de paisagens e cenas
claras e cruas” (p.12).
O livro não pretende “canonizar” o autor de As Religiões do Rio.
Ele se canonizou à sua maneira misturando-se com uma audácia e uma
transgressão incomuns a muitos escritores que exaltaram a cultura
carioca. Soube fazer isso com uma maestria e originalidade
indiscutíveis, já longe ou sempre aos olhos dos ideais estéticos e
da influência finissecular de Oscar Wilde, assumindo um estilo
inconfundível e veloz que poderíamos reconhecer no seu famoso livro
Cinematógrafos, de 1909. Nele estão, como num
caleidoscópio de singelos fragmentos, a cidade e as cenas cariocas
que brilham nas mãos dos seus ambíguos narradores e personagens.
Se a cidade, aos olhos do poeta-dandy francês é a
Paris do século XIX, para João do Rio, no século XX, essa leitura se
multiplica, se fabrica e se condensa vertiginosamente, na
modernidade, como lugar teórico e espaço privilegiado da experiência
- objeto semiológico de paixão. Ao dirigir a sua atenção sobre essa
efervescência da cidade carioca e dos signos, sobre o palimpsesto e
sobre a linguagem eminentemente artística, a cidade-texto, nesta
pequena apresentação, configura-se como lugar de potência e
inscrição, como rasura e significante cuja ilegibilidade seduz e
desafia o olhar do leitor/espectador.
Com toda a cautela de quem não quer imprimir quaisquer marcas
definitivas à escrita andante e ainda enrijecer as móbiles que
permitem ao escritor a vida, Lêdo Ivo soube vê o célebre escritor
carioca como uma estrutura estelar repleta de desvãos que escondem
as faces perdidas, e na qual os signos equivalentes estão soltos
para inserir outros rostos, que tantos pseudônimos (Joe, Paulo José,
José Coelho, Caran d’Ache, Claude, José Antonio José, Máscara Negra,
Godofredo de Alencar, Barão de Belfort entre outros tantos
disfarces) podem também consentir mentiras e verdades, num jogo de
mostrar-se e ocultar-se, algo assim como uma cintilação ou mesmo um
flâneur baudelairiano.
Esse leque de rubricas da trajetória literária do escritor proposto
por Lêdo Ivo configura, como o título-paratexto desse artigo aponta,
a vida e estilo de um dandy iconoclasta. Da literatura ao
jornalismo, da leitura da cidade às ruas, do cinema à explosão de
imagens na página/tela, à textura da cor, ao andar pelas esquinas e
noites, à experimentação do insólito, enfim, não faltará ler a vida
pela obra, pelos fragmentos à deriva e relações interartes ou pelas
rebeldias na escritura de um esteta.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
IVO, Lêdo. João do Rio: cadeira 26, ocupante 2. Rio de
Janeiro. ABL. 2009.