ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 17 de julho de 2010 15:55:39                                               

 
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CULTURA

O leitor imersivo e as diversas linguagens

   

Rodrigo da Costa Araujo[1]

publicado em 02/07/2010

     

 

 

 

 “... escutar, olhar, ler equivale finalmente a constituir-se. Na abertura ao esforço de significações que vem do outro, trabalhando, esburacando, amarrotando, recortando o texto, incorporando-o em nós, destruindo-o, contribuímos para erigir a paisagem de sentido que nos habita. O texto serve aqui de vetor, de suporte ou de pretexto à atualização de nosso próprio espaço mental. Confiamos às vezes alguns fragmentos de texto aos povos de signos que nos nomadizam dentro de nós. Essas insígnias, essas relíquias, esses fetiches ou esses oráculos nada têm a ver com as intenções do autor nem com a unidade semântica viva do texto, mas contribuem para criar, recriar, reatualizar o mundo de significações que somos”.    [LEVY, Pierre. O que é o Virtual? Ed. 34. p. 37]

 

        Nesta epígrafe, extremamente significativa, Pierre Levy propõe novas formas de ler e atualizar o texto, como também, o processo de virtualização e a construção de novos sentidos. Para ele, ao mesmo tempo em que rasgamos o texto pela leitura ou pela escuta, amarrotamos esse texto lido. Dobramo-lo sobre si mesmo.Tal trabalho da leitura, para ele, pressupõe o ato de rasgar, amarrotar, torcer, recosturar o texto para abrir um meio vivo no qual possa se desdobrar o sentido. O espaço do sentido, nesse processo, não preexiste à leitura e, é ao percorrê-lo que o fabricamos ou o atualizamos. Afirma, ainda, que, enquanto dobramos esse texto sobre si mesmo, estabelecemos relações com outros textos, a outros discursos, a imagens, a afetos, a toda a imensa reserva flutuantes de desejos e de signos que nos constitui. Quando isso acontece, segundo suas leituras,  não é mais do sentido do texto que nos ocupa, mas a direção e a elaboração de nosso pensamento, a precisão de nossa imagem no mundo, a culminação de nossos projetos.

 

 

        Pensando assim, o texto não é mais amarrotado, dobrado sobre si mesmo, mas recortado, pulverizado, distribuído, avaliado segundo critérios de uma subjetividade que produz a si mesma. Todos esses processos de atualização, segundo o filósofo, remontam e reforçam o conceito de hipertexto e novas formas de conceber o leitor e a leitura. Esse processo construtivo do hipertexto, de um modo geral, exige um leitor atento, possuidor de habilidades técnicas, capaz de ser co-autor de uma obra, consciente das transformações que ajuda a construir e do poder da técnica que utiliza.

        Aproximando dessas mesmas relações obra-autor-espectador, Lúcia Santaella, sabiamente, em Navegar no ciberespaço.  Perfil do leitor imersivo [2004] se refere à abertura da obra e a três tipos de leituras[2], como também, as interações a partir das habilidades sensoriais, perceptivas e cognitivas que estão envolvidas nesse processo.

Ilustração do livro infantil Zubair e os Labirintos [2007], de Roger Mello

 

        O primeiro tipo - o leitor contemplativo - o leitor mediativo da idade pré-industrial; o leitor da era do livro impresso e da imagem expositiva, fixa, é aquele que se concentra em uma atividade interior, labiríntica e pessoal. “Esse leitor não sofre, não é acossado pelas urgências do tempo” (SANTAELLA, 2004, p.24), trata-se apenas de um leitor que contempla e medita.

        Inspirado nas obras de Walter Benjamin e Baudelaire, o segundo tipo, - o leitor movente, fragmentário - representa o leitor do mundo em movimento, de misturas sígnicas, e esse leitor, segundo a pesquisadora, é filho da revolução Industrial e dos grandes centros urbanos. Um leitor de fragmentos e de sensações evanescentes e instáveis. As habilidades desse leitor são inquestionáveis, pois ele, além da capacidade de conviver com os diversos signos, também sabe administrar a velocidade e a intensidade que as imagens circulam nesse universo. A flexibilidade desse segundo leitor, segundo a autora, abriu caminho ao tipo de leitor mais recente - o imersivo -, isto é, ele prepara a sensibilidade perceptiva para o surgimento do leitor que navega “entre nós e conexões alineares pelas arquiteturas líquidas dos espaços virtuais” (SANTAELLA, 2004, p.11).

        E no terceiro tipo, - o leitor imersivo, virtual - Santaella apresenta o leitor que emerge nos espaços incorpóreos e fluídos da virtualidade, em um roteiro multilinear entre “nos”, multisequencial, hipersubjetivo, feito um grande caleidoscópio tridimensional, onde as transformações sensoriais, perceptivas e conjuntivas inauguram novas sensibilidades corporais, físicas e mentais.

 

 

        O leitor virtual ou imersivo, segundo Santaella, surge da multiplicidade de imagens sígnicas e de ambientes virtuais de comunicação imediata. Esse novo leitor nasce inserido dentro dos grandes centros urbanos e é acostumado desde cedo com a linguagem efêmera e provido de uma sensibilidade perceptiva-cognitiva quase que instantânea. Ele, segundo Santaella, e de acordo com essas características, é inserido no ambiente hipermídia, coloca em ação mecanismos, ou mesmo, habilidades de leitura muito distintas das empregadas pelo leitor do texto impresso. Por outro lado, elas se distinguem, ainda, daquelas que são empregadas pelo leitor de imagens ou espectador de cinema ou televisão. Essas habilidades de leitura multimídia acentuam-se mais ainda, quando a hipermídia migra do suporte CR-Rom para circular nas potencialidades infinitas do ciberespaço.

        Esse tipo de leitor, segundo Santaella (2004, p.33): “[...] é obrigatoriamente mais livre na medida em que, sem a liberdade de escolha entre nexos e sem a iniciativa de busca de direções e rotas, a leitura imersiva não se realiza. [...] [Trata-se de] um leitor em estado de prontidão, conectando-se entre nós e nexos, num roteiro multilinear, multisequencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com os nós entre palavras, imagens documentação, músicas, vídeo etc”.

 

 

Abertura do hipertexto: A Interminável Chapeuzinho, de Angela Lago

Site: [http://www.angela-lago.com.br]

 

 

        Com a proliferação crescente das redes de telecomunicação, especialmente da internet que liga vários pontos ou informações, surge, nesse contexto, outro conceito de leitor que possui novas formas de percepção e cognição nos atuais suportes e estruturas híbridas e alineares do texto escrito.

Site de Angela Lago

 

        Apesar dessas classificações, segundo a estudiosa no assunto, não é possível ver diferenças entre os três tipos de leitores citados, porém há habilidades que os diferem. Esse livro -, Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo -, nesse caso, consistiu exatamente em conhecer ou mapear o leitor imersivo, suas transformações sensórias, perceptivas, cognitivas e, consequentemente, sua maneira de sentir as transformações. Portanto, mapeando esses tipos de leitores, e culminando no leitor imersivo, e, ainda, atrelados a literatura infantil, percebemos que, tanto cada um deles, quanto o trabalho significativo com a linguagem, apontam mudanças cognitivas emergentes como instrumentos importantes na formação desse leitor crítico e múltiplo, proficiente na leitura oral, contemplativa, movente e imerviva.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

LAGO, Angela. O Interminável Chapeuzinho. Disponível em: www.angela-lago.com.br. Acesso em 25/04/2010.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo. Editora 34.1996.

MELLO, Roger. Zubair e os labirintos. São Paulo. Cia das Letrinhas.2007

SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço. O perfil do leitor imersivo. São Paulo. Paulus. 2004.

Imagens:
bitbiblio.blogspot.com/2008_04_01_archive.html

comunycarte.blogspot.com/2009/12/inteligencia...


 

[1] Doutorando em Literatura Comparada e Mestre em Ciência da Arte [2008] pela Universidade Federal Fluminense. Professor de Teoria da Literatura, Literatura infanto-juvenil e Arte Educação da FAFIMA - Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Macaé. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada, atuando principalmente nos seguintes temas: Decadentismo, artes, semiótica e literatura, códigos e linguagens, literatura e cinema, literatura infanto-juvenil. Faz parte dos grupos de pesquisa GEITES/UFES [Universidade Federal do Espírito Santo, do Grupo de Estéticas de Fim-de-século da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] e do Grupo Literatura e outras artes da UFF.

 

[2] Esses três tipos de leitura, também, de algum modo representam o modo de “abertura da obra de arte” na contemporaneidade. Principalmente em poéticas interativas. 

 

 

Como citar este artigo:

 

ARAUJO, Rodrigo da Costa. O leitor imersivo e as diversas linguagens. Revista Partes. Cultura. Julho de 2010. Disponível em:<http://www.partes.com.br/cultura/livros/leitorimersivo.asp>. Acesso em ___/__/__.

 
  

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::sobre o autor::

Rodrigo da Costa Araújo é Mestre em Ciência da Arte pela UFF, professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e doutorando, também, pela UFF – Universidade Federal Fluminense. E-mail: rodricoara@uol.com.br
 

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