“... escutar, olhar, ler equivale finalmente a
constituir-se. Na abertura ao esforço de significações que vem
do outro, trabalhando, esburacando, amarrotando, recortando o
texto, incorporando-o em nós, destruindo-o, contribuímos para
erigir a paisagem de sentido que nos habita. O texto serve aqui
de vetor, de suporte ou de pretexto à atualização de nosso
próprio espaço mental. Confiamos às vezes alguns fragmentos de
texto aos povos de signos que nos nomadizam dentro de nós. Essas
insígnias, essas relíquias, esses fetiches ou esses oráculos
nada têm a ver com as intenções do autor nem com a unidade
semântica viva do texto, mas contribuem para criar, recriar,
reatualizar o mundo de significações que somos”. [LEVY,
Pierre. O que é o Virtual? Ed. 34. p. 37]
Nesta epígrafe, extremamente significativa, Pierre Levy
propõe novas formas de ler e atualizar o texto, como também, o
processo de virtualização e a construção de novos sentidos. Para
ele, ao mesmo tempo em que rasgamos o texto pela leitura ou pela
escuta, amarrotamos esse texto lido. Dobramo-lo sobre si
mesmo.Tal trabalho da leitura, para ele, pressupõe o ato de
rasgar, amarrotar, torcer, recosturar o texto para abrir um meio
vivo no qual possa se desdobrar o sentido. O espaço do sentido,
nesse processo, não preexiste à leitura e, é ao percorrê-lo que
o fabricamos ou o atualizamos. Afirma, ainda, que, enquanto
dobramos esse texto sobre si mesmo, estabelecemos relações com
outros textos, a outros discursos, a imagens, a afetos, a toda a
imensa reserva flutuantes de desejos e de signos que nos
constitui. Quando isso acontece, segundo suas leituras, não é
mais do sentido do texto que nos ocupa, mas a direção e a
elaboração de nosso pensamento, a precisão de nossa imagem no
mundo, a culminação de nossos projetos.

Pensando assim, o texto não é mais amarrotado, dobrado
sobre si mesmo, mas recortado, pulverizado, distribuído,
avaliado segundo critérios de uma subjetividade que produz a si
mesma. Todos esses processos de atualização, segundo o filósofo,
remontam e reforçam o conceito de hipertexto e novas formas de
conceber o leitor e a leitura. Esse processo construtivo do
hipertexto, de um modo geral, exige um leitor atento, possuidor
de habilidades técnicas, capaz de ser co-autor de uma obra,
consciente das transformações que ajuda a construir e do poder
da técnica que utiliza.
Aproximando dessas mesmas relações obra-autor-espectador,
Lúcia Santaella, sabiamente, em Navegar no ciberespaço.
Perfil do leitor imersivo [2004] se refere à abertura da
obra e a três tipos de leituras[2],
como também, as interações a partir das habilidades sensoriais,
perceptivas e cognitivas que estão envolvidas nesse processo.

Ilustração do livro infantil Zubair e os
Labirintos [2007], de Roger Mello
O primeiro tipo - o leitor contemplativo - o leitor
mediativo da idade pré-industrial; o leitor da era do livro
impresso e da imagem expositiva, fixa, é aquele que se concentra
em uma atividade interior, labiríntica e pessoal. “Esse leitor
não sofre, não é acossado pelas urgências do tempo” (SANTAELLA,
2004, p.24), trata-se apenas de um leitor que contempla e
medita.
Inspirado nas
obras de Walter Benjamin e Baudelaire, o segundo tipo, - o
leitor movente, fragmentário - representa o leitor do mundo em
movimento, de misturas sígnicas, e esse leitor, segundo a
pesquisadora, é filho da revolução Industrial e dos grandes
centros urbanos. Um leitor de fragmentos e de
sensações evanescentes e instáveis. As habilidades desse leitor
são inquestionáveis, pois ele, além da capacidade de conviver
com os diversos signos, também sabe administrar a velocidade e a
intensidade que as imagens circulam nesse universo. A
flexibilidade desse segundo leitor, segundo a autora, abriu
caminho ao tipo de leitor mais recente - o imersivo -, isto é,
ele prepara a sensibilidade perceptiva para o surgimento do
leitor que navega “entre nós e conexões alineares pelas
arquiteturas líquidas dos espaços virtuais” (SANTAELLA, 2004,
p.11).
E no terceiro tipo, - o leitor imersivo, virtual -
Santaella apresenta o leitor que emerge nos espaços incorpóreos
e fluídos da virtualidade, em um roteiro multilinear entre
“nos”, multisequencial, hipersubjetivo, feito um grande
caleidoscópio tridimensional, onde as transformações sensoriais,
perceptivas e conjuntivas inauguram novas sensibilidades
corporais, físicas e mentais.

O leitor virtual ou imersivo, segundo Santaella, surge
da multiplicidade de imagens sígnicas e de ambientes virtuais de
comunicação imediata. Esse novo leitor nasce inserido dentro dos
grandes centros urbanos e é acostumado desde cedo com a
linguagem efêmera e provido de uma sensibilidade
perceptiva-cognitiva quase que instantânea. Ele, segundo
Santaella, e de acordo com essas características, é inserido no
ambiente hipermídia, coloca em ação mecanismos, ou mesmo,
habilidades de leitura muito distintas das empregadas pelo
leitor do texto impresso. Por outro lado, elas se distinguem,
ainda, daquelas que são empregadas pelo leitor de imagens ou
espectador de cinema ou televisão. Essas habilidades de leitura
multimídia acentuam-se mais ainda, quando a hipermídia migra do
suporte CR-Rom para circular nas potencialidades infinitas do
ciberespaço.
Esse tipo de leitor, segundo Santaella (2004, p.33):
“[...] é obrigatoriamente mais livre na medida em que, sem a
liberdade de escolha entre nexos e sem a iniciativa de busca de
direções e rotas, a leitura imersiva não se realiza. [...]
[Trata-se de] um leitor em estado de prontidão, conectando-se
entre nós e nexos, num roteiro multilinear, multisequencial e
labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com
os nós entre palavras, imagens documentação, músicas, vídeo etc”.


Abertura do hipertexto: A Interminável
Chapeuzinho, de Angela Lago
Site: [http://www.angela-lago.com.br]
Com a proliferação crescente das redes de
telecomunicação, especialmente da internet que liga vários
pontos ou informações, surge, nesse contexto, outro conceito de
leitor que possui novas formas de percepção e cognição nos
atuais suportes e estruturas híbridas e alineares do texto
escrito.

Site de Angela Lago
Apesar dessas classificações, segundo a estudiosa no
assunto, não é possível ver diferenças entre os três tipos de
leitores citados, porém há habilidades que os diferem. Esse
livro -, Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor
imersivo -, nesse caso, consistiu exatamente em conhecer ou
mapear o leitor imersivo, suas transformações sensórias,
perceptivas, cognitivas e, consequentemente, sua maneira de
sentir as transformações. Portanto, mapeando esses tipos de
leitores, e culminando no leitor imersivo, e, ainda, atrelados a
literatura infantil, percebemos que, tanto cada um deles, quanto
o trabalho significativo com a linguagem, apontam mudanças
cognitivas emergentes como instrumentos importantes na formação
desse leitor crítico e múltiplo, proficiente na leitura oral,
contemplativa, movente e imerviva.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
LAGO, Angela. O
Interminável Chapeuzinho. Disponível em:
www.angela-lago.com.br. Acesso em 25/04/2010.
LÉVY, Pierre. O que é o
virtual? São Paulo. Editora 34.1996.
MELLO, Roger. Zubair e os
labirintos. São Paulo. Cia das Letrinhas.2007
SANTAELLA, Lúcia. Navegar
no ciberespaço. O perfil do leitor imersivo. São Paulo.
Paulus. 2004.
Imagens:
bitbiblio.blogspot.com/2008_04_01_archive.html
comunycarte.blogspot.com/2009/12/inteligencia...
[1]
Doutorando
em
Literatura Comparada
e Mestre em Ciência da Arte [2008] pela Universidade Federal
Fluminense. Professor de Teoria da Literatura, Literatura
infanto-juvenil e Arte Educação da FAFIMA - Faculdade de
Filosofia Ciências e Letras de Macaé. Tem experiência na
área de Letras, com ênfase
em
Literatura Comparada,
atuando principalmente nos seguintes temas: Decadentismo,
artes, semiótica e literatura, códigos e linguagens,
literatura e cinema, literatura infanto-juvenil. Faz parte
dos grupos de pesquisa GEITES/UFES [Universidade Federal do
Espírito Santo, do Grupo de Estéticas de Fim-de-século da
UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] e do Grupo
Literatura e outras artes da UFF.
[2]
Esses três tipos de leitura, também, de algum modo
representam o modo de “abertura da obra de arte” na
contemporaneidade. Principalmente em poéticas interativas.