O olho vê, a lembrança
revê, a imaginação transvê.
É preciso transver o
mundo.
[Manoel de Barros.
Livro sobre nada. 1997, p.75]
“Cresci brincando no chão, entre
formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais
comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a
partir de ser criança, a gente faz comunhão [...]”.
[BARROS, Manoel. Memórias
Inventadas. São Paulo. Planeta. 2008. p.11]
Lendo, delicadamente,
o livro Exercícios de ser Criança [1999], de Manoel de
Barros, verifica-se uma reflexão metatextual, explorada no percurso
da palavra em sua capacidade de “dizer o indizível”, de reforçar o
que caracteriza a literatura como jogo de brincar e eclodir outras
significações.
Ilustrado pela família
Diniz Dumont, num trabalho inovador, com desenhos bordados,
realçando a força imagética das palavras, o livro, em prosa poética,
enreda o leitor em duas estórias - O menino que carregava água na
peneira e A menina avoada - que relacionam o fazer
poético com a infância - etapa em que o conhecimento da realidade
efetiva-se pelo sensível, pelo emotivo e pela intuição, com
predomínio do pensamento mágico, razão por que é considerada fase
decisiva, para a formação do futuro leitor, a interação com obras
literárias cujas temáticas abordem questões de seus interesses e
necessidades.
Na primeira história,
um menino “que carregava água na peneira” dialoga com a mãe que
compara essa atitude com o mesmo que “roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos”, “o mesmo que catar
espinhos na água”, “o mesmo que criar peixes no bolso”, em resumo,
se para o narrador, “o menino era ligado em despropósito”, para a
personagem/mãe cabe a constatação: “meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda”. Assim, aquele menino
“cismado e esquisito”, “quis montar os alicerces de uma casa sobre
orvalhos”, “gostava mais do vazio do que do cheio”, “falava que os
vazios são maiores e até infinitos”, “foi capaz de modificar uma
tarde botando uma chuva nela”, “até fez uma pedra dar flor!” e
descobriu que escrever era tudo isso, e mais: era “fazer peraltagens
com as palavras”.
Num segundo momento,
e, em outra narrativa, uma menina, juntamente com o irmão, “pregava
no caixote duas rodas de lata de goiabada, “a gente ia viajar”, isto
é, “imitava estar viajando” de carro, “puxado por dois bois”, numa
tarde em que “as cigarras derretiam ... com seus cantos”, rumo à
cidade porque o irmão tinha uma namorada, “isso ele contava”, mas na
travessia de “um rio inventado”, “o carro afundou e os bois morreram
afogados”, porém chegavam sempre “no fim do quintal”.
O autor, nessa delicada obra, combina
imagens relacionadas ao pensamento mágico e, levemente transgressor,
em ações situadas no âmbito do insólito, comunicando uma realidade
através de comparações, desenhos e alegorias, mostrando que
literatura é representação, linguagem imagística que, como nenhuma
outra, tem o poder de concretizar o abstrato, criando um universo
lúdico, ao mesmo tempo em que veicula elementos questionadores sobre
o mundo, a memória infantil e sobre o próprio homem. Tais recursos
conferem à obra unidade semântica que relembram, semioticamente, ao
mundo infantil carregado de expressividade.
Impregnado de questionamentos,
brincadeiras, adivinhas, imagens e outras manifestações do
brincar-jogar, comuns à crianças de todos os tempos, - mas
esquecidos atualmente por diversos motivos - encontramos diversas
manifestações da Lírica no universo infantil. A oralidade, as
ilustrações carregadas de aviões, anjos, pipas, barcos, peixes,
pescaria, violão remontam ludicamente o universo da infância como
signos entoados pelas próprias crianças e por seus pais. A prosa
poética deve ser entendida aqui não somente como ponto de vista
estético, mas, sobretudo, como função lúdica, como jogo
memorialístico da infância. Nesse sentido, as palavras/imagens são
tocadas como objetos, como algo corpóreo que participa do mesmo
universo dos brinquedos da criança.
Esse mesmo tempo - volta à infância -
acontece e está presente em diversos poemas das diferentes épocas da
composição de Manoel de Barros. A infância, na poesia manoelina
surge, segundo Afonso de Castro [1991], como expressão do lúdico no
acontecer da vida, como origem do ser, ou ainda, como explicação da
experiência da infância do poeta, especificamente, retratando tipos,
situações, vivências arquetípicas recorrentes como matrizes de seus
devaneios poéticos. Manoel de Barros tem poemas que retratam a
infância como tempo/lugar ideal da inocência, como estado primordial
a existência a partir do qual se originam todas as possibilidades; a
infância considerada como fase inocente da vida seria a origem
originante de todos os sonhos e idealidades da vida e do universo.
Por isso não é de se estranhar que nas
relações entre homem, mundo e linguagem, a infância emerge como
estado potencial de todas as invenções. Essas mesmas imagens,
também, podem ser percebidas no livro Memórias Inventadas
onde, o poeta, ao falar de si e de suas errâncias, não apresenta
propriamente relatos de sua vida como acontecimentos reais que
descrevem os fatos. “[...] eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu
ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da
natureza e, comunhão com ela. Era o menino e as árvores” [BARROS,
2008, p.11]. Essas memórias de infância apresentam-se de maneira
fragmentada e à deriva, sem que obedeçam a um movimento ou a limites
de tempo e espaço. Apresentam-se como flashes memorialísticos,
fragmentos de lembranças livres, soltos, inventados.
Sua escritura poética apresenta-se,
assim, calcada no trabalho com o uso dos significantes os quais
extrapolam os lugares comuns ao serem trabalhados de maneira tal que
se ajustam ao texto, sempre que o poeta deseja extrair dele a
essência de seu significado semântico ou metafórico. Nesse sentido,
o Manoel-poeta, nesse livro, ao eleger o Pantanal como o espaço em
que se constitui fazendo comunhão “[...] de um orvalho e sua aranha,
de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu
trago em minhas “raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das
coisas” [BARROS, 2008, p.11].
Essa comunhão ou transfusão semiótica
com a natureza, ou a relação direta com ela, então, revela o “chão
da língua”, sempre estrangeiro, mesmo que nativo, mas nunca sem
perder a delicadeza e a virgindade das palavras. “Penso que trago em
mim uma pobreza ancestral que me eleva para as coisas rasteiras”
[BARROS, 2003, p.123]ii.
E é aí, nesse lugar de materialização do significante, da
desconstrução da língua e da coisificação do sujeito poético que
podemos escutar, na voz, os ecos de Fernando Pessoa ou Guimarães
Rosa, mas também de outros “sussurros da mata”, gorjeio de pássaros,
que, desse chão de letras podem irradiar.
Em Manoel de Barros temos explícita a
evocação da infância como um estado de percepção da realidade pelos
sentidos que, por sua vez, possibilita atravessar o universo da
linguagem, da memória e do discurso infantil. Lendo-o amorosamente,
como sua produção pede para ser lida, lembrando Barthes, o leitor
não apenas atravessa essas indagações, mas também o debate sobre o
gênero “literatura infantil”, discutindo os limites entre prosa e
poesia, entre arte e educação, entre memória e infância, entre
criação e lembrança.
Esses livros tornam visíveis em sua
escritura o múltiplo olhar para a infância: o avesso delicado de sua
poesia, a trama que urde entre linguagem e vida, a escritura leve e
rápida que encena visivelmente o contato com a natureza e
sentimentos da alma, as relações entre poesia e filosofia. Enfim,
nesses cruzamentos de lembranças, costuram-se a memória também
ilustrada, frutos de imagens criadas em retorno permanente, na
multiplicidade polifônica de vozes e estilos. Ao costurá-la nas
palavras e imagens, a infância remonta o fio poético tão sofisticado
e simples a um só tempo do mundo e dos “exercícios de ser criança”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARROS, Manoel de. Exercícios de
ser Criança. Bordados de Antônia Zulma et.alli. sobre desenhos
de Demóstenes Vargas. Rio de Janeiro.Salamandra. 1999.
BARROS, Manoel. Livro sobre nada.
Rio de Janeiro. Record. 1997.
______. Gramática Expositiva do
Chão. (Poesia quase toda). Rio de Janeiro. Civilização
Brasileira. 1990.
______. Ensaios Fotográficos.
Rio de Janeiro. Record. 2001.
______. Memórias Inventadas. As
Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo. Editora Planeta do
Brasil. 2008.
BARBOSA, Luiz Henrique. Palavras do
chão. São Paulo. Annablume. 2003.
CASTRO, Afonso de. A Poética de
Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância. Universidade
de Brasília. Departamento de Literatura Brasileira. 1991.
WALDMAN, Berta. A Poesia ao rés do
chão. Prefácio. In: Gramática Expositiva do Chão. (Poesia
quase toda). Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1990.
pp.11-32.
i
Professor de Literatura Infantil na
FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e
Doutorando em Literatura Comparada pela UFF./ E-mail:
rodricoara@uol.com.br
ii
Entrevista Em idioleto Manoelês
Archaico, entrevista concedida a Lúcia Castello Branco e Luiz
Henrique Barbosa em 19/11/1994. In: BARBOSA, Luiz Henrique.
Palavra do chão. São Paulo; Annablume. Belo Horizonte. 2003.
pp.123-128.