ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 23 de abril de 2009 21:59:47                                               

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Memória Sindical
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Agenda
.
Leia na Revista Partes
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CULTURA - Literatura

O livro, a leitura, o leitor: um triângulo amoroso (homenagem ao Dia do Livro - 23 de abril)

   

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 23/04/2009

        

Nós mudamos incessantemente. Mas se pode afirmar também que cada releitura de um livro e cada lembrança dessa releitura renovam o texto”. Jorge Luis Borges

 

“Todos os livros que li formam em mim uma espécie de biblioteca. Não está arrumada, os volumes não estão por ordem alfabética, não há catálogo. E no entanto trata-se disso, de uma memória em que se acumulam as minhas leituras – o que eu retive -, apesar de eu não saber exatamente o que ela contém, quais os livros que me marcaram”. Roland Barthes

 

         As epígrafes acima enriquecem, ainda que muito esquecidos na sociedade da imagem, o poder do livro, o poder da leitura. A primeira, de Jorge Luis Borges, remonta o poder da (re)leitura, os mecanismos que fazem latejar em nós a renovação, a colheita. A palavra ler vem do latim legere, portanto, ler e colher ao mesmo tempo.

         Como a biblioteca borgeana, a barthesiana não é diferente. Leitura, livro e memória se entrelaçam, acumulam e imbricam colheitas, constituem-se como atividades humanas essenciais: pensar, falar, ouvir, escrever e ler. Todas são a um só ato, conhecimento e reconhecimento do mundo e de nós mesmos.

         Ler para Roland Barthes é “reter, recolher – enriquecer a sua cultura como um capital [...]; é assimilar o texto e dele tomar posse” “Leitura (ou escrita) e tranfert são duas coisas delicadas de misturar”, diz ele. Partilhamos leituras pelo livro, “lê-se em conjunto, percebe-se que todas as bibliotecas íntimas têm uma zona de intersecção. Então é outra coisa: é o amor que nasce de uma leitura. Amo-te, gostando dos mesmos livros, gostamos um do outro no livro”.

A palavra livro traz no seu cerne muitas simbologias desde seu surgimento no mundo. Ainda nos revela, revelando-nos, liberta-nos, querendo ou não, da poeira da ignorância. Seria banal dizer que o livro é símbolo da ciência e da sabedoria; o que ele é efetivamente, por exemplo, na arte decorativa vietnamita ou na imagem ocidental do leão biblióforo.

O livro é, sobretudo, se passamos a um grau mais elevado, símbolo do universo: O Universo é um imenso livro, escreve Mohyddin Ibn-Arabi. A expressão Líber Mundi pertence também aos Rosa-Cruz. Mas o Livro da Vida do Apocalipse está no centro do Paraíso, onde se identifica com a árvore da Vida: as folhas da árvore, como os caracteres do livro, representam a totalidade dos seres, mas também a totalidade dos decretos divinos.

Os livros sibilinos eram consultados pelos romanos nas situações excepcionais: pensavam encontrar neles as respostas divinas para suas angústias. No Egito, o livro dos mortos é uma coletânea de fórmulas sagradas, encerradas com os mortos na sua tumba, para justificá-los na hora do julgamento e implorar aos deuses, a fim de favorecer sua travessia dos infernos e sua chegada à luz do eterno: Fórmula para se chegar à luz do dia. Em todos os casos, nesse contexto, o livro aparece como o símbolo do segredo divino, que só é confiado ao iniciado.

Se o universo é um livro, é que é a revelação e, portanto, por extensão, a manifestação. O Liber Mundi é ao mesmo tempo a Mensagem divina, o arquétipo do quais os diversos livros revelados não passam de especificações, traduções em linguagem inteligível. O esoterismo islâmico distingue, às vezes, entre um aspecto macrocósmico e um aspecto microscómico do livro, e estabelece entre os dois uma lista de correspondências: o primeiro é efetivamente o Líber Mundi, a manifestação emanando de seu princípio, a Inteligência cósmica; o segundo está no coração, a Inteligência individual.

Em certas versões da Busca do Graal, o livro também é identificado com a taça. O simbolismo é então bem claro: a busca do graal é a procura da Palavra perdida, da sabedoria suprema tornada acessível ao comum dos mortais.

Um livro fechado significa a matéria virgem. Se está aberto, a matéria está fecunda. Fechado, o livro conserva seu segredo, aberto, o conteúdo é tomado por quem o investiga. O coração é assim comparado a um livro: aberto, oferece seus pensamentos e seus sentimentos; fechado, ele os esconde.

Enfim, “ler e reler, reconhecer e compreender: reler tantas vezes quantas forem necessárias para compreender tudo, porque tudo poder ser compreendido”, segundo o semiólogo. (BARTHES, 1987, p.199).  “Leio com os olhos, leio com a minha cabeça, mas também leio com o que tenho no ventre. Todo o meu corpo participa na leitura.” (BARTHES, 1987. p.191)

O livro, a palavra, a descoberta, o leitor, a leitura nessa concepção, assumem para além de um triângulo amoroso, um amálgama de retomadas do livro em diversos sentidos, do livro enquanto teia. Teia que remete a discursos do texto, incessantemente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARTHES, Roland & COMPAGNON, Antoine. Leitura. In: Romano Ruggiero. (Org.). Enciclopédia Einaudi. Lisba. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 1987. v. 11. pp.184-206.

[1] Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Macaé. E-mail: rodricoara@uol.com.br

 

 
  

spacer
::sobre o autor::

Rodrigo da Costa Araújo é Mestre em Ciência da Arte pela UFF, professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e doutorando, também, pela UFF – Universidade Federal Fluminense. E-mail: rodricoara@uol.com.br

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::anuncie::

Saiba como anunciar no site clicando aqui.

 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outros textos do autor::

O fascínio de Clarice Lispector: pose para uma fotografia
Rodrigo da Costa Araujo
publicado em 03/08/2008

Relembrando Gentileza
Por Rodrigo da Costa Araujo
publicado em 20/05/2007

Clarice Lispector: exercícios de vertigem
publicado em 10/03/2007

Jogo e biografema em Patty Diphusa, de Almodóvar
publicado em 28/02/2007

Intertextos, mulher e memória em Volver, de   Almodóvar

Figurações epifâncias na lírica de Mário Quintana
publicado em 27/07/2006

Museu da língua portuguesa: uma viagem semiológica
publicado em 02/11/2006

Alguns fragmentos e pequenas epifanias de Caio Fernando Abreu
Publicado em 01/02/2006

Sob os intercódigos da alfabetização do olhar

 

::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2009
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil