“Nós
mudamos incessantemente. Mas se pode afirmar também que cada
releitura de um livro e cada lembrança dessa releitura renovam o
texto”.
Jorge Luis Borges
“Todos os livros que li formam em mim
uma espécie de biblioteca. Não está arrumada, os volumes não estão
por ordem alfabética, não há catálogo. E no entanto trata-se disso,
de uma memória em que se acumulam as minhas leituras – o que eu
retive -, apesar de eu não saber exatamente o que ela contém, quais
os livros que me marcaram”. Roland Barthes
As epígrafes acima enriquecem, ainda que muito esquecidos
na sociedade da imagem, o poder do livro, o poder da leitura. A
primeira, de Jorge Luis Borges, remonta o poder da (re)leitura, os
mecanismos que fazem latejar em nós a renovação, a colheita. A
palavra ler vem do latim legere, portanto, ler e
colher ao mesmo tempo.
Como a biblioteca borgeana, a barthesiana não é diferente.
Leitura, livro e memória se entrelaçam, acumulam e imbricam
colheitas, constituem-se como atividades humanas essenciais: pensar,
falar, ouvir, escrever e ler. Todas são a um só ato, conhecimento e
reconhecimento do mundo e de nós mesmos.
Ler para Roland Barthes é “reter, recolher – enriquecer a
sua cultura como um capital [...]; é assimilar o texto e dele tomar
posse” “Leitura (ou escrita) e tranfert são duas coisas
delicadas de misturar”, diz ele. Partilhamos leituras pelo livro,
“lê-se em conjunto, percebe-se que todas as bibliotecas íntimas têm
uma zona de intersecção. Então é outra coisa: é o amor que nasce de
uma leitura. Amo-te, gostando dos mesmos livros, gostamos um do
outro no livro”.
A
palavra livro traz no seu cerne muitas simbologias desde seu
surgimento no mundo. Ainda nos revela, revelando-nos, liberta-nos,
querendo ou não, da poeira da ignorância. Seria banal dizer que o
livro é símbolo da ciência e da sabedoria; o que ele é efetivamente,
por exemplo, na arte decorativa vietnamita ou na imagem ocidental do
leão biblióforo.
O
livro é, sobretudo, se passamos a um grau mais elevado, símbolo do
universo: O Universo é um imenso livro, escreve Mohyddin
Ibn-Arabi. A expressão Líber Mundi pertence também aos
Rosa-Cruz. Mas o Livro da Vida do Apocalipse está no centro
do Paraíso, onde se identifica com a árvore da Vida: as folhas da
árvore, como os caracteres do livro, representam a totalidade dos
seres, mas também a totalidade dos decretos divinos.
Os
livros sibilinos eram consultados pelos romanos nas situações
excepcionais: pensavam encontrar neles as respostas divinas para
suas angústias. No Egito, o livro dos mortos é uma coletânea de
fórmulas sagradas, encerradas com os mortos na sua tumba, para
justificá-los na hora do julgamento e implorar aos deuses, a fim de
favorecer sua travessia dos infernos e sua chegada à luz do eterno:
Fórmula para se chegar à luz do dia. Em todos os casos, nesse
contexto, o livro aparece como o símbolo do segredo divino, que só é
confiado ao iniciado.
Se o
universo é um livro, é que é a revelação e, portanto, por extensão,
a manifestação. O Liber Mundi é ao mesmo tempo a Mensagem
divina, o arquétipo do quais os diversos livros revelados não passam
de especificações, traduções em linguagem inteligível. O esoterismo
islâmico distingue, às vezes, entre um aspecto macrocósmico e
um aspecto microscómico do livro, e estabelece entre os dois
uma lista de correspondências: o primeiro é efetivamente o Líber
Mundi, a manifestação emanando de seu princípio, a Inteligência
cósmica; o segundo está no coração, a Inteligência individual.
Em
certas versões da Busca do Graal, o livro também é
identificado com a taça. O simbolismo é então bem claro: a busca do
graal é a procura da Palavra perdida, da sabedoria suprema tornada
acessível ao comum dos mortais.
Um
livro fechado significa a matéria virgem. Se está aberto, a matéria
está fecunda. Fechado, o livro conserva seu segredo, aberto, o
conteúdo é tomado por quem o investiga. O coração é assim comparado
a um livro: aberto, oferece seus pensamentos e seus sentimentos;
fechado, ele os esconde.
Enfim,
“ler e reler, reconhecer e compreender: reler tantas vezes quantas
forem necessárias para compreender tudo, porque tudo poder ser
compreendido”, segundo o semiólogo. (BARTHES, 1987, p.199). “Leio
com os olhos, leio com a minha cabeça, mas também leio com o que
tenho no ventre. Todo o meu corpo participa na leitura.” (BARTHES,
1987. p.191)
O
livro, a palavra, a descoberta, o leitor, a leitura nessa concepção,
assumem para além de um triângulo amoroso, um amálgama de retomadas
do livro em diversos sentidos, do livro enquanto teia. Teia que
remete a discursos do texto, incessantemente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARTHES, Roland & COMPAGNON, Antoine. Leitura. In: Romano
Ruggiero. (Org.). Enciclopédia Einaudi. Lisba. Imprensa
Nacional/Casa da Moeda. 1987. v. 11. pp.184-206.