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Bem sabemos que obra literária
nenhuma existe sem uma autoria. No caso específico da prosa,
cabe ao autor, inicialmente, construir um narrador; depois,
uma estória para seu narrador ir contando, e nela, é
claro, encerrar personagens e conflitos que se resolverão (ou
não...) no fim da narrativa. Sabemos ainda discernir com certa
facilidade, separar as figuras de autor-narrador-protagonista.
Não nos é difícil executar essa separação num livro literário
normal, ou seja, naquele que segue em princípio o
paradigma literário-narrativo clássico. Pois que os
modernistas mais badalados e seus maiores herdeiros visaram a
justamente interromper o olhar facilmente ledor do
leitor comum, e a debater com o julgamento viciado do mais
chato estudante de letras. Livros como Macunaíma e
Memórias sentimentais de João Miramar, de Mario e Oswald
de Andrade, respectivamente, serviram para tanto. E é aqui
neste nobre e importante e implicante grupo que podemos
inserir a novela Desabrigo, de Antônio Fraga, agora
relançada junto a contos ainda inéditos do autor – os
outros trecos do título. Fraga puro é o livro.
O livro em si é uma agressão,
porém uma agressão consternada: um tapa de amor. Ou um sangue
de cachaça de que acadêmico nenhum se deve servir. Em
Desabrigo convivem o drama de nossa malandragem e a
malandragem de nosso drama. A voz do autor é uma voz rimada de
quem não fez uma pesquisa de linguagem, e sim uma
pesquisa de vida. Não se trata da voz pedante de quem faz
uma concessão ao narrar um episódio do pessoal das esquinas.
E é justo nessa pesquisa de vida que a linguagem se embute,
porque autoritária à vivência daquela gente que se
vira na vida. A linguagem é a própria
estória. E o autor é o narrador, que coincide ainda com
os personagens e o cenário. Complicado?! O meio trata de
permitir a construção desta linguagem-estória, legitimá-la. A
linguagem acaba sendo, assim, também a grande paisagem do
livro, paisagem humana e geográfica, paisagem social da
marginalidade de um país. E a linguagem, por conseguinte,
advém do autor, sua vida, suas brigas, sua experiência:
é, afinal, Antônio Fraga.
Fraga (1916-1993) é um daqueles
autores únicos que assumem um projeto de literatura – e de
vida – sem que se perca em mesquinhas concessões, por dispor
de uma consciência estética quiçá contrária a qualquer
normalidade estagnadora da arte. Fraga não ligou em vida sua
obra a um estabelecer, não se fez um profissional das
letras; permaneceu nele um instinto amador que casou
excelentemente com a oportunidade de uma estética que quis
aprofundar os experimentos do modernismo e fazê-lo alcançar
maturidade. Isto segundo Oswald de Andrade, na contracapa do
livro: “O que há, não é post-modernismo e sim a nova
literatura do Brasil. Veja: na prosa a maturidade esta aí, em
Clarice Lispector, em Guimarães Rosa, em Antônio Fraga.”
O que importa, pois, em
Desabrigo, não é nem tanto os fatos narrados, e sim
o “fraga” de toda uma situação e de sua ética improvisada para
a imediata sobrevivência no meio: os tipos, a gíria, o
pitoresco, aquelas teias de solidariedade espontânea e ingênua
que a precariedade material cuida de estabelecer. Um exemplo:
“Cobrinha andava teso pra chuchu Embora fosse safo tava dando
uma azia danada Bem que ele podia afanar um estácio ou topar o
basquete mas não era guindaste para enfrentar batente e não
queria se encalacrar com a dona justa” – assim mesmo, sem
pontuação e prenhe do linguajar e do ponto de vista que
caracterizam o marginalizado/malandro carioca de décadas
remotas (remotas?!...). Garrafas se quebram, fome se passa,
bebe-se em demasia, bate-se, mata-se, todo mundo se defende;
mas, na hora da dita, na hora em que o côro comi,
prevalece um senso de justiça que nossa democracia tão frágil,
por vezes bundona, com seu politicamente correto
hipócrita não conseguiu ainda assimilar. No mundo-estória de
Desabrigo, respira-se cultura, anarquia, poesia
maldita.
Fraga institui o tipo de um
jogador-narrador que usa de um naturalismo cômico
descomprometido. Isto se evidencia até em seu diálogo violento
com o que se costumou chamar de modernidade: o escritor e o
homem Fraga a espezinham, proclamando a virtude de um fazer
literário literalmente marginal. Tudo porque sua prosa
desobriga e desabriga a palavra; a linguagem “se boemiza”,
arrasta-se bêbeda sem um rumo previsível, sem um sentido
lógico específico, sem destino e prumo; sua palavra arrasa com
a tradicional e facilmente marcada lógica da causalidade,
papai-mamãe que todo crítico ou resenhador procura
inexoravelmente em sua cama macia, que é o livro obtido do
suor alheio. A palavra sobrevive, na e da errância se
sustenta, alimenta-se de sua própria incapacidade de
(a)fixação, sabendo-se “evêmera”, daí leve, e vai decaindo até
encontrar um ponto final inexistente, inusitado. A palavra
conhece que não é a verdade – não há letra maiúscula para
iniciar a novela, como se também não houvesse um início
legítimo a se reconhecer, e sim uma saída, uma fuga ajeitada a
todo momento para uma situação humana irreversível. Destaca-se
ainda, sobretudo em seus contos-trecos, a presença
significativa do humor, um humor sutil que tenta sempre
neutralizar a rispidez e insegurança de uma realidade diária
tão ríspida.
Daí que só haja letra torta,
letra-gíria para Antônio Fraga, o poeta, o malandro, o
prosador-jogador. Nesse caminho ele confia – e porque não
haveria ou consideraria outro. “Pois é. Tempero de pobre é
fome. Quem tem muito faz beicinho...” E Desabrigo é ele
próprio, Fraga, em toda parte-esquina, observando, refletindo,
escrevendo, se bandidando honestamente. E, parafraseando outro
gentil malandro recém-largado desta boêmia vida, o Zé
Ketti: indo por aí...
Serviço:
FRAGA, Antônio. Desabrigo e Outros Trecos. Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 1999. 118 p.
Site:
www.escrituras.com.br/liv_idade_do_zero.htm#http://liv_idade_do_zero.htm.
Comunidade de IDADE DO ZERO no ORKUT:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=6096120.
Comunidade de ANTÔNIO FRAGA no ORKUT:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=7565856 .
E-mail:
zehgustavo@yahoo.com.br.
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